Da chamada “cooperação internacional”


| Reprodução/www |

Luiz Inácio se reunirá com Trump para selar ingerência ianque no Brasil sob pretexto de “combate às facções”

O tema mais sensível e perigoso da pauta é a intenção do EUA de classificar as chamadas “facções” como organizações terroristas. Se concretizada, essa medida não é meramente burocrática e performática, pois ela concede ao imperialismo ianque a prerrogativa legal de intervir diretamente no território brasileiro, sob o pretexto de “combate ao terrorismo”.

por Redação de AND
|06/05/2026|

Luiz Inácio embarca rumo ao país Estados Unidos (EUA) para um encontro com o chefe do imperialismo ianque, Donald Trump, neste 6 de maio. A convocação, que partiu diretamente da Casa Branca, ignora os protocolos habituais de diplomacia e escancara a urgência de Washington em ditar as ordens para a semicolônia brasileira em um momento de profunda instabilidade regional. O encontro ocorre em meio a uma crise diplomática envolvendo a prisão e liberação do ex-deputado Alexandre Ramagem (PL), que resultou na retirada de credenciais de agentes de ambos os países, mas o foco real é a submissão total do governo brasileiro à “Nova Estratégia” ianque.

A pauta central do encontro, marcado para 7 de maio, gira em torno da chamada “cooperação internacional” para o combate ao crime organizado. O governo ianque insiste na classificação de organizações como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como entidades terroristas, uma manobra que visa dar contornos de “guerra ao terror” para o que é, essencialmente, um problema de segurança interna, gerada por questões sociais e econômicas mais profundas, permitindo que o Pentágono considere bases, rotas e áreas urbanas brasileiras como alvos militares legítimos, ignorando fronteiras nacionais para perseguir o que designa como “terroristas”. Além disso, temas econômicos sensíveis, como o tarifaço sobre o aço e o alumínio, o funcionamento do Pix e a exploração de minerais críticos no Brasil, estarão sobre a mesa de negociações no Salão Oval.

A comitiva de Luiz Inácio, que deve ser enxuta e contar com o ministro da Fazenda, Dario Durigan, chega ao EUA sob uma atmosfera de incerteza. Embora o Planalto tente vender a visita como um movimento de estadista, analistas políticos apontam que Luiz Inácio atuará na defensiva, tentando evitar que Trump interfira diretamente nas eleições gerais de outubro em favor da extrema direita liderada pela família Bolsonaro. A viagem, inicialmente prevista para março e adiada devido às agressões ianques no Irã, agora ocorre sob a pressão de uma popularidade doméstica em queda livre para ambos os mandatários.

Apesar das arengas públicas em relação às operações militares do imperialismo ianque na Ásia Ocidental, o governo petista sinaliza uma perigosa aproximação nas pautas de segurança. O vice-presidente Geraldo Alckmin confirmou que Luiz Inácio levará a proposta de um acordo para o combate às chamas “facções”, focando no controle de fluxo financeiro e investigação.

O ‘combate ao terrorismo’ como pretexto para a ingerência militar

O tema mais sensível e perigoso da pauta é a intenção do EUA de classificar as chamadas “facções” como organizações terroristas. Se concretizada, essa medida não é meramente burocrática e performática, pois ela concede ao imperialismo ianque a prerrogativa legal, conforme seu ordenamento, de intervir diretamente no território brasileiro, sob o pretexto de “combate ao terrorismo”. Especialistas em relações internacionais, como o professor Guilherme Casarões, da Florida International University, alertam que essa categoria jurídica permite ao EUA agir sem processos legais internacionais, como ocorreu na invasão da Venezuela e captura de Nicolás Maduro em janeiro.

Luiz Inácio, ciente de sua fraqueza eleitoral no tema da chamada “segurança pública”, pretende dar passagem para políticas repressivas mais agressivas em busca de fôlego eleitoral. Acuado pelos índices de rejeição na área da segurança, em que sofre sua pior performance, o petista pretende tomar para si o discurso do combate ao crime, uma das pautas centrais da extrema direita, representada pela família Bolsonaro, que defende abertamente a submissão total às diretrizes ianques para prender criminosos. Em vez de enfrentar as causas sociais da violência urbana, o governo oportunista prefere importar métodos de repressão que historicamente serviram apenas para massacrar a população pobre e trabalhadora nas periferias, fortalecendo o aparato de controle social do velho Estado.

O Itamaraty trabalha arduamente para oferecer “alternativas” de cooperação que evitem a classificação formal de terrorismo, mas que, na prática, produzem o mesmo efeito de subordinação. Em abril, os dois governos já anunciaram um acordo entre a Receita Federal e as autoridades de fronteira ianques para intensificar o combate ao tráfico. Segundo o vice-presidente Geraldo Alckmin, o novo encontro deve aprofundar parcerias em investigação e controle de fluxo financeiro, o que, na verdade, significa dar acesso às agências de inteligência imperialistas sobre os dados e movimentações internas.

O risco denunciado por analistas é que essa postura não apenas fere a soberania, mas também traz implicações econômicas severas. Qualquer empresa brasileira que tenha ligações indiretas com áreas sob influência desses grupos poderia ser proibida de operar no mercado ianque, obrigando as empresas a estarem em estado de vigilância arbitrário. Assim, sob o pretexto de combater o crime, o Estados Unidos constrói as ferramentas para sabotar setores da economia brasileira e intervir politicamente sempre que seus interesses forem contrariados, utilizando o sistema judiciário internacional como arma de guerra.

Para Jorge Lasmar, coordenador da pós-graduação em Estudos de Terrorismo e Crime Transnacional da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC), em entrevista recente: “a possibilidade de sanções no Estados Unidos, o risco para os bancos aumenta significativamente. Pelas regras (norte)americanas, qualquer empresa com a qual você lide precisa ser verificada para saber se é sancionada. E, mesmo que não seja sancionada, é preciso verificar se 50% dela pertence a alguma entidade sancionada”.

O argumento do governo oportunista de que as facções são movidas por interesses econômicos e não políticos é usado como uma frágil linha de defesa contra a designação de terroristas. No entanto, ao aceitar a lógica de que a solução para a violência interna passa por Washington, Luiz Inácio valida o ponto da extrema direita de que, devido à incapacidade do velho Estado em atuar contra as chamadas “facções”, precisa de tutela estrangeira. Essa capitulação alimenta o crescimento de figuras reacionárias que, ironicamente, o governo petista diz querer combater, enquanto aplica as mesmas políticas de segurança que geram a violação sistemática de direitos fundamentais.

A “Nova Estratégia” ianque

Essa aproximação submissa é peça-chave da nova National Security Strategy (novembro de 2025) e da National Defense Strategy (janeiro de 2026). O objetivo é manter maior controle e expulsar a influência da China e da Rússia na América Latina. Como o Brasil é o maior parceiro da China na região, o governo Trump utiliza o “narcoterrorismo” como uma coleira curta. “Sob nossa nova Estratégia de Segurança Nacional, a dominância norte-americana no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionada”, afirmou o canibal Trump em janeiro, logo após o sequestro de Nicolás Maduro na Venezuela.

O professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), Gilberto Maringoni, aponta que Washington utiliza o combate ao crime como biombo para forçar o realinhamento brasileiro. Segundo ele, a mudança de status das chamadas “facções” faria com que elas “deixariam de ser grupos do crime organizado e adentrariam à esfera política. Embora em alguns casos a fronteira seja tênue, a mudança tornaria o Brasil vulnerável a intervenções por parte de Washington, através da imposição de acordos assimétricos, livre trânsito de forças militares dos EUA em território nacional e submissão de ações repressivas locais a leis estadunidenses”.

O plano do imperialismo inclui a exportação do modelo de barbárie de El Salvador. Colaboradores das “facções” capturados seriam transferidos para o Centro de Confinamento de Terroristas (Cecot), presídio conhecido pela tortura sistemática. O professor Rafael Seixas Santos alerta que essa classificação cria instrumentos para a “atuação extraterritorial”, tornando o país vulnerável a interesses estratégicos estrangeiros. “Na prática, a tipificação por si só não impõe intervenção estrangeira, mas pode servir de pretexto político-diplomático. Se houver pedidos de cooperação militar ou designações externas por potências estrangeiras, abre-se margem para pressão internacional”, afirma Santos.

Ofensiva reacionária e a criminalização das massas em luta

Como antessala para o encontro com Trump, Luiz Inácio sancionou em 24 de março o chamado “PL Antifacção” (PL 5582/2025), consolidando um novo e perigoso marco legal no aparato repressivo. A legislação cria crimes como o “domínio social estruturado”, com penas draconianas de 20 a 40 anos, classificando-os como hediondos. A norma define como “facção” qualquer grupo de três ou mais pessoas que empregue coação para controlar territórios, uma definição vaga que, na prática, prepara o terreno para a criminalização dos movimentos populares e das massas em luta pela terra e por direitos básicos.

Luiz Inácio acelerou o projeto após o massacre nos Complexos da Penha e Alemão, no Rio de Janeiro, que deixou 121 mortos em outubro passado. Em vez de punir os carniceiros das forças de repressão, o governo optou por instituir mecanismos de controle social que visam, primordialmente, as camadas mais pobres e oprimidas da população brasileira, servindo de base para o que Trump exige em solo ianque.

Esta legislação não é apenas um ataque jurídico, mas um instrumento de guerra contra o povo. Ao rotular o “domínio territorial” como ato terrorista, o imperialismo e seus lacaios locais preparam o cenário para classificar ocupações de terra e acampamentos camponeses como “células terroristas”. Essa manobra visa isolar politicamente os movimentos que lutam contra o latifúndio, retirando-lhes garantias legais e expondo-os a massacres amestrados sob os manuais de contrainsurgência do Pentágono, integrando o Brasil ao sistema de repressão transnacional do imperialismo ianque.

Enquanto a propaganda estatal foca no “crime organizado”, a realidade no campo mostra quem são os verdadeiros alvos dessa escalada repressiva. Historicamente, o imperialismo utiliza a falsa justificativa do combate ao tráfico para perseguir movimentos revolucionários, como ocorreu na Colômbia com o Exército de Libertação Nacional (ELN) e no Peru contra o Exército Guerrilheiro Popular (EGP), dirigido pelo Partido Comunista do Peru (PCP). No Brasil, Bolsonaro já tentava criar a “GLO do campo” para restabelecer latifúndios retomados, chegando a tratar a Liga dos Camponeses Pobres (LCP) como terrorista, afirmando: “LCP, se prepare! Não vai ficar de graça o que vocês estão fazendo. Não tem espaço aqui para grupo terrorista. Nós temos meios de fazê-los entrar no eixo e respeitar a lei.”

O Senado Federal aprofunda este cenário com a tramitação do Projeto de Lei Complementar (PLP) 229/2025, de autoria de Eduardo Girão (Novo), que institucionaliza um estado de exceção sem a necessidade de GLO formal. O texto permite que governadores convoquem militares para operações contra “terrorismo e facções”, usando conceitos vagos para reprimir qualquer grupo classificado como inimigo. O texto fala em combater o “domínio de áreas urbanas ou rurais”, o que serve de pretexto perfeito para esmagar retomadas indígenas e ocupações camponesas, dando roupagem legal à repressão militar contra o próprio povo.

{ A Nova Democracia }

░░░░░░░░░░░░

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.