
| Reprodução/www |
⇅
Dia Mundial da Liberdade de Imprensa: O Jornalista Palestino Entre a Busca pela Verdade e o Silêncio Mundial
Ataques deliberados a famílias e infraestruturas evidenciam uma estratégia de silenciamento que desafia a eficácia das convenções de Genebra e do direito internacional
por Wisam Zoghbour
|04/05/2026|
Este ano, o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa chega em meio a um dos períodos mais sangrentos para os jornalistas palestinos. As câmeras se tornaram alvos diretos, as palavras, ameaças, e os jornalistas, testemunhas cujas vozes devem ser silenciadas a qualquer custo. Enquanto a Federação Internacional de Jornalistas se prepara para celebrar seu centenário e realizar seu próximo congresso internacional na França, o sofrimento dos jornalistas palestinos representa um verdadeiro teste para a capacidade das organizações internacionais de mídia de irem além de declarações de solidariedade e partirem para medidas concretas que garantam proteção, responsabilização e o fim da impunidade.
O que os jornalistas palestinos sofrem hoje transcende os limites das violações associadas a conflitos armados; tornou-se uma política sistemática com o objetivo de erradicar a narrativa palestina e impedir que o mundo testemunhe esses crimes. Duzentos e sessenta e um jornalistas foram mortos enquanto exerciam suas funções profissionais, e centenas ficaram feridos. A ocupação continua detendo 48 jornalistas, além de manter a política de desaparecimento forçado contra vários deles, em grave violação de todas as leis e convenções internacionais.
Os ataques não se limitam a jornalistas em campo, mas se estendem às suas vidas pessoais e familiares, numa clara tentativa de minar sua capacidade de continuar exercendo sua missão profissional. Dados indicam que aproximadamente 96% dos jornalistas palestinos foram deslocados de suas casas devido a bombardeios e operações militares, enquanto mais de 88% de suas casas foram total ou parcialmente destruídas. Além disso, quase 100 veículos de comunicação foram completamente destruídos, num ataque direto à infraestrutura midiática palestina e numa tentativa de apagar tanto as evidências quanto as imagens.
Ainda mais alarmante é que a ocupação não se contenta mais em atacar jornalistas durante a cobertura jornalística ou dentro de instituições de mídia, mas começou a persegui-los em suas casas e no seio de suas famílias. Esta política reflete uma estratégia clara destinada a silenciar todas as vozes capazes de transmitir a verdade, para que crimes possam ser cometidos longe dos olhos do mundo e das lentes da mídia.
Apesar deste nível sem precedentes de assassinatos e ataques, a experiência palestina provou que assassinar jornalistas não obscurece a verdade; pelo contrário, amplifica sua presença e impacto. Cada jornalista morto torna-se uma testemunha permanente do crime, e suas palavras e imagens se tornam uma denúncia aberta contra a ocupação, por mais que esta tente ocultar os vestígios de seus crimes.
A continuidade desses crimes de forma tão flagrante reflete diretamente a falha da comunidade internacional em pôr fim à política de impunidade de Israel. Quando não há responsabilização, o assassino se sente encorajado, e quando a justiça é obstruída, a própria verdade é violada. O que testemunhamos hoje – a escalada de ataques contra jornalistas e veículos de comunicação – é resultado direto da ausência de qualquer dissuasão internacional real capaz de impor o respeito ao direito internacional e proteger civis, incluindo jornalistas.
De acordo com o direito internacional humanitário, os jornalistas são civis que devem ser protegidos durante conflitos armados, e qualquer ataque deliberado contra eles constitui uma violação flagrante das Convenções de Genebra e das normas do direito internacional. Além disso, a Resolução 2222 do Conselho de Segurança da ONU sobre a proteção de jornalistas em zonas de conflito enfatiza a necessidade de garantir a sua segurança e responsabilizar os culpados por crimes cometidos contra eles. Portanto, atacar jornalistas palestinos constitui um crime de guerra grave que justifica um processo judicial perante os tribunais internacionais competentes.
Assim, a responsabilidade moral e jurídica recai hoje sobre a comunidade internacional, sobretudo sobre o Tribunal Penal Internacional, as Nações Unidas e o Conselho de Direitos Humanos, para tomar medidas urgentes que vão além da mera condenação verbal. Isso inclui a abertura de investigações sérias e a emissão de mandados de prisão contra os responsáveis por crimes cometidos contra jornalistas palestinos, bem como a garantia de proteção internacional imediata para jornalistas e instituições de comunicação.
Os crimes cometidos contra jornalistas palestinos não prescrevem, e processar os seus perpetradores continua sendo uma obrigação legal, moral e humanitária até que sejam levados à justiça internacional e recebam a punição que merecem. A liberdade de imprensa não é um slogan cerimonial a ser evocado em ocasiões internacionais, mas um valor humano ligado ao direito dos povos de saber e ao direito das vítimas de terem seu sofrimento relatado ao mundo.
No Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, a verdade fica mais clara do que nunca: atacar jornalistas palestinos não é apenas atacar um indivíduo ou uma profissão, mas uma tentativa sistemática de assassinar a própria verdade. Mas a verdade escrita com o sangue dos jornalistas permanecerá mais forte do que os bombardeios e mais duradoura do que as tentativas de obscurecer e ocultar os fatos.
{ Diálogos do Sul }
░░░░░░░░░░░░