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Paulo Cannabrava: nove décadas de luta por uma América Latina soberana

A importância da trajetória de Paulo Cannabrava, que faz do jornalismo não apenas uma profissão, mas um compromisso permanente com a democracia, a memória histórica e a construção de uma América Latina soberana.

por Tali Feld Gleiser
|04/08/2026|

Poucos jornalistas brasileiros conseguiram atravessar quase sete décadas de história mantendo o mesmo compromisso político e ético com a soberania dos povos latino-americanos. Aos 90 anos, Paulo Cannabrava Filho segue escrevendo, analisando e defendendo um projeto de integração regional, desenvolvimento autônomo e emancipação popular. Essa trajetória foi tema da entrevista conduzida por Raul Fitipaldi, Rosangela Bion de Assis e Thais Lapa, no programa JTT do Portal Desacato, que percorreu a vida, as ideias e os desafios contemporâneos apresentados pelo veterano jornalista.

A entrevista foi motivada pelo lançamento do documentário Companheiro Canna, dirigido por Lilia Souza Diniz e idealizado pelo cineasta Silvio Tendler. A produção resgata a trajetória de Paulo Cannabrava através dos golpes de Estado, dos exílios, das revoluções e das grandes transformações políticas da América Latina, mostrando como o jornalismo foi, para ele, uma ferramenta permanente de resistência e compromisso com a soberania nacional.

Durante a apresentação, foi lembrada uma carreira iniciada em 1957, passando por importantes jornais brasileiros e pelo trabalho como correspondente de agências internacionais, até a criação da revista Diálogos do Sul Global, hoje uma das principais referências latino-americanas em análise geopolítica e integração regional.

América Latina em um momento decisivo Materialde referência geográfica

Ao analisar o cenário político atual, Cannabrava afirmou que a América Latina atravessa um dos períodos mais difíceis das últimas décadas. Segundo ele, a preocupação não se limita à presença de governos conservadores, mas ao alinhamento desses governos aos interesses da política externa estadunidense, o que, em sua avaliação, compromete a soberania dos países da região.

O jornalista manifestou especial preocupação com o processo eleitoral brasileiro, alertando para a influência de grandes recursos financeiros e das chamadas milícias digitais sobre a disputa política. Para ele, trata-se de um contexto que exige atenção das forças democráticas.

Jornalismo como ação cultural

Questionado sobre o papel da imprensa diante desse cenário, Cannabrava reafirmou uma concepção de jornalismo construída ao longo de toda a sua vida profissional: informar é também formar consciência.

Inspirando-se em Paulo Freire, defendeu aquilo que chamou de “ação cultural”, ou seja, o trabalho cotidiano de diálogo com a população para enfrentar a desinformação e fortalecer o pensamento crítico. Em sua visão, jornalistas e comunicadores devem contribuir para que a sociedade compreenda os mecanismos que limitam a soberania nacional e aprofundam as desigualdades sociais.

Na entrevista, argumentou ainda que o Brasil vive há décadas um processo contínuo de desindustrialização, desnacionalização da economia e precarização do trabalho, fenômenos que, segundo sua análise, estão relacionados à predominância do capital financeiro sobre os projetos nacionais de desenvolvimento.

Memória como instrumento de resistência

A socióloga Thais Lapa trouxe para a conversa a experiência recente de sua visita ao Museu da ESMA, em Buenos Aires, dedicado à memória dos crimes da ditadura argentina. A partir dessa vivência, questionou como construir uma cultura da memória capaz de impedir a repetição das violações cometidas pelas ditaduras latino americanas.

Cannabrava respondeu retomando uma das ideias centrais de sua reflexão política: a necessidade de recuperar um projeto nacional de desenvolvimento inspirado na tradição trabalhista brasileira, associando memória histórica, soberania e participação popular como elementos fundamentais para reconstruir o país.

Um filme sobre uma vida de militância

Nos minutos finais da entrevista, Paulo Cannabrava falou sobre o documentário Companheiro Canna. Destacou que a iniciativa nasceu de Silvio Tendler e foi concluída por sua equipe após a morte do cineasta.

Mais do que uma biografia, explicou, o filme procura mostrar que a luta política atravessa toda uma existência e se manifesta em diferentes espaços, entre eles o jornalismo. Para Cannabrava, a defesa permanente de um projeto nacional e da soberania dos povos continua sendo uma tarefa atual, mensagem que também orienta diariamente o trabalho desenvolvido pelo Diálogos do Sul Global.

Ao encerrar a conversa, Raul Fitipaldi destacou que a luta de Paulo Cannabrava sempre esteve vinculada ao ideal da “Pátria Grande” latino-americana, agradecendo sua contribuição para o jornalismo crítico e para a integração dos povos do continente. Cannabrava respondeu reafirmando que essa luta permanece aberta e depende da participação de toda a sociedade.

Assista à entrevista completa no vídeo abaixo:

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  “Paulo Cannabrava: 90 anos de jornalismo e luta pela América Latina”.

   (03/08/2026)

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{ Desacato }

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