O popular é complexo.

Antônio Nóbrega critica mercantilização do Carnaval e defende complexidade das culturas populares: “O povo organiza, ele é criador”

Multiartista pernambucano analisa transformações da folia, o lugar secundário dos caboclinhos e a urgência de entender a riqueza simbólica do povo

por Luana Ibelli e Tabitha Ramalho

Carnaval é corpo na rua, cultura viva, encontro, disputa e invenção. Mas o que acontece quando a festa se afasta das camadas populares que a criaram? Para o multiartista e pesquisador Antônio Nóbrega, 73 anos, um dos mais profundos intérpretes da cultura popular brasileira, o Carnaval vive uma tensão crescente entre a mercantilização e a riqueza simbólica das manifestações tradicionais. Ao BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato, ele reflete sobre as transformações da festa, o papel dos artistas e a urgência de olhar para as culturas populares com a complexidade que elas merecem.

Nascido e criado em Pernambuco, Nóbrega passou décadas imerso no universo dos caboclinhos, maracatus, troças e frevos. Hoje, ele se apresenta em palcos oficiais do Recife, mas confessa um certo deslocamento. “Eu não diria que completamente deslocado, mas sinto que o meu trabalho não está indo, ele não é assim cem por cento adequado à festa do Carnaval”, admite. Para ele, a dificuldade está na pouca disposição do público em absorver novidades que partem de ritmos tradicionais, mas que não se repetem como as marchas e frevos consagrados.

“Existem músicas que já se tornaram clássicas no Carnaval pernambucano. Todo mundo pede para cantar. Mas eu crio coisas novas, tenho frevos, marchas de bloco, músicas no ritmo do caboclinho, do maracatu rural. Só que elas não têm a divulgação necessária para que, na festa, elas tenham adesão popular”, explica.

Para Nóbrega, o Recife exibe dois carnavais distintos. De um lado, o dos palcos oficiais – como o Marco Zero -, onde se apresentam artistas de projeção nacional e regional. “Esse é, de certa forma, o carnaval da classe média, da classe dominante, do qual participo.” De outro, as manifestações populares que desfilam em ruas laterais, como os caboclinhos e maracatus, com suas disputas e premiações. “Esse carnaval é quase como um pano de fundo simbólico. A gente fala muito de frevo, muito de maracatu, mas eles não estão no primeiro plano. O público vai para nos assistir.”

Ele ressalta que há grupos jovens que saem às ruas tocando tambores de maracatu, mas a prevalência da música mercantilizada é esmagadora. “O Carnaval mercantilizado dos cantores que estão na mídia tem uma prevalência muito grande em detrimento dos artistas locais e dos grupos populares.”

A complexidade escondida do “povo”

Nóbrega critica a visão reducionista que trata as manifestações populares como algo espontâneo, desorganizado ou meramente folclórico. “O povo organiza, ele é criador. Dizem que o povo é desleixado, que é bagunça. Mas quando você se depara com o nascimento do passo, que organiza uma gramática a partir do frevo, ou com os ensaios de caboclinho, que seguem uma sucessão de passos puxados por um mestre, você vê que aquilo é codificado, organizado.”

Ele questiona por que, dentro de uma festa carnavalesca, nasceu uma dança tão rica de movimentos e passos com nomes específicos. “O que provocou aquilo? A antropologia poderia tentar responder. O povo brasileiro e suas produções não podem ser colocados num patamar folclórico inferior. A forma como entendemos o povo passa pelo simbólico, pelo que ele produz.”

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Para ilustrar, Nóbrega recorre ao galope à beira-mar, uma forma poética de origem popular, de dez versos e onze sílabas, com rimas e prosódias específicas. Ele cita uma canção sua em parceria com Bráulio Tavares, composta dentro desses moldes. “É uma forma complexa, tal como um soneto. Isso nos obriga a colocar um conteúdo que obedeça a essa estrutura. Tanto quem faz como quem escuta entram num campo complexo.”

O artista defende que o Carnaval pode e deve ser um espaço de reflexão. “Eu tenho uma embolada chamada ‘Burusu’ (confusão, mutreta), em que faço uma crítica ao mundo das redes, da inteligência artificial. Dentro do ritmo da embolada, que seria o equivalente ao rap, eu forço um pouco. Não sei se o público está disposto a ouvir isso, mas acho que o Carnaval também deve ser um momento de ver criticamente o mundo.”

Ele lembra que os frevos de Capiba já abordavam temas como o respeito à mulher e os vestibulandos. “E isso está desaparecendo, justamente quando o mundo mais precisa. A festa não precisa ser vazia. A gente também faz festa para pensar, para se rebelar.”

Nóbrega vai além: “Em essência, o Carnaval sempre foi uma revolta. Era um dia para as pessoas fazerem aquilo que não faziam durante o ano. Mas acho que a gente poderia ativá-lo mais.” Ele cita a tragédia grega, que nasceu das festas dionisíacas, e pergunta: “Por que não ter no Carnaval um grande teatro aberto, onde se tragam temas do Brasil, inseridos na festa?”

Há anos, Nóbrega trabalha em um livro que busca historicizar e contextualizar o mundo cultural popular. “É um universo mal visto, no sentido de que não é compreendido. Passei décadas em contato com mestres, vi a riqueza disso, e me vi na obrigação de escrever.”

Ele quer responder a perguntas como: por que nasce uma dança tão rica dentro de uma festa? O que revela sobre a psicologia do homem popular? “O simbólico é uma representação. Se a representação traz valores positivos, isso pode repercutir no plano social. A gente tende a colocar o povo num patamar inferior, mas suas formas são complexas e podem transcender o universo onde vigora.”

Para ele, a chave está em entender que o popular é complexo. “Não vai ser com pensamentos banais e simples que a gente vai se defender da charada do mundo atual. A arte pode abrir nossa consciência. E a gente tem um acervo imenso para isso.”

Editado por: Luís Indriunas

{ Brasil de Fato }

. Fotografia:
“Reprodução/YouTube”
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. Vídeo:
“‘Meu carnaval foi sempre ligado ao das camadas populares’ | BdF Entrevista Antônio Nóbrega – ‘Reprodução/YouTube'”

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