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Identitarismo: o elefante na sala da esquerda brasileira
por Francisco Fernandes Ladeira
Historicamente, a esquerda tem como principal bandeira a luta de classes, especificamente defender os interesses do proletariado contra a burguesia. Ou, para quem não quiser utilizar termos do léxico marxista e ir direto ao assunto, a esquerda defende os pobres contra os ricos. Isso significa pleitear que todos tenham suas necessidades básicas e materiais satisfeitas.
Em países onde essa necessidade é superada, como Suécia e Noruega, a esquerda pode incluir outras causas, além das materiais e imediatas. Este não é o caso do Brasil. No entanto, nossas forças progressistas, em grande medida, abandonaram a luta de classes e abraçaram o identitarismo – substituindo a luta de classes pelas diferenças de identidades. O que antes eram lutas coletivas, passou a ser lutas individuais – no máximo entre os seus iguais.
Não raro, há brigas entre as próprias “identidades”. Feministas radicais não aceitam mulheres trans, pois sua causa só abarcaria aquelas que “menstruam”. Os adeptos do conceito de “negritude” não toleram quem estuda sobre “parditude”, como foi o caso da pesquisadora Beatriz Bueno, covardemente perseguida pelos identitários da Universidade Federal Fluminense (UFF). Querem monopolizar o debate.
Aliás, perseguir quem pensa diferente é o modus operandi do identitarismo. A cultura do cancelamento é o seu lema – o ritual coletivo de gozo dos ressentidos, como bem definiu o antropólogo Antonio Risério. O inimigo não é mais o burguês. É o homem, branco, hétero e cis. De preferência se ele for da classe trabalhadora, não inteligente o suficiente para ser “desconstruído” como querem os identitários. Mas se o homem, branco, hétero e cis for um milionário que patrocine a agenda identitária, ele é bem-vindo. George Soros que o diga.
Com esse financiamento de poderosos capitalistas, não é por acaso que o identitarismo esteja nos principais espaços: da mídia hegemônica às universidades públicas. Na Unicamp, por exemplo, o identitarismo já está quase virando um curso de graduação, quiçá mestrado e doutorado. Tem até professor trabalhando a “obra” de Djamila Ribeiro como se fosse uma “grande pensadora contemporânea”.
Mas o pior de tudo é o jogo sujo dos identitários com seus críticos: vitimismo no pior sentido do termo. Se você criticar o feminismo liberal, você é machista. Se criticar o movimento gay financiado pelo grande capital, é homofóbico. Se fizer oposição ao Movimento Negro que transpõe a realidade racial estadunidense para o Brasil, é racista.
Não por acaso, o autoritarismo identitário, que busca modificar até a língua portuguesa, é rechaçado pelo povão. Infelizmente, esse vácuo se torna um terreno fértil para a extrema direita e toda sua demagogia, que finge defender o trabalhador.
No Brasil, há uma expressão idiomática – conhecida por “elefante na sala” – que descreve um problema, questão ou verdade óbvia e enorme que todos veem, mas ninguém quer discutir por ser constrangedor, controverso, politicamente delicado ou perigoso. O identitarismo é o “elefante na sala” da nossa esquerda. Muitos evitam criticá-lo, temendo o cancelamento. Assim, indiretamente, rezam na cartilha do politicamente correto.
Mas a questão é pragmática. O identitarismo não gera voto, pelo contrário, repele. Faz com que a esquerda seja antipatizada diante do povão como arrogante e elitista. Em interpretações metonímicas, muitos equivocamente veem identitarismo como sinônimo de esquerda. Diante dessa realidade, a solução é clara: ou a esquerda acaba com o identitarismo, ou o identitarismo acaba com a esquerda.
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