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Do mito ao hino: a trajetória enigmática de Geraldo Vandré, o cantor que desafiou a ditadura
Biógrafo Vitor Nuzzi relembra como a letra de “Caminhando” colocou o músico no radar da repressão
por Lucas Estanislau e Tabitha Ramalho
|16/12/2025|
Geraldo Vandré pode ser considerado uma das figuras mais míticas da música popular brasileira? Ao BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato, Vitor Nuzzi, autor de biografia sobre o cantor que desafiou a ditadura, explica que por todo o mistério que se criou em sua figura, seu desaparecimento e sua volta ao Brasil durante o regime militar são fatores que contribuem para esse enigma em torno de sua figura.
Nuzzi destaca que Vandré era mais um músico da geração da Bossa Nova, que não se diferenciava dos outros, sendo autor de muitas músicas românticas. No entanto, ele se integrou a uma vertente do movimento, ao lado de cantores como Carlos Lyra e Sérgio Ricardo, que achavam que a música deveria expressar a realidade brasileira.
“Apesar de não se considerar um artista de protesto, é um artista que tem uma visão social muito aguda em sua obra, o que é demonstrado desde o primeiro disco. Vandré foi um dos músicos que rompeu a calmaria e as barreiras da Bossa Nova”, explica.
Nascido na Paraíba e radicado no Rio, Geraldo Vandré foi um dos mais enigmáticos personagens da música brasileira. Mas foi em 1966 que ganhou repercussão nacional. Naquele ano, inscreveu no Festival da TV Record a música Disparada, composta com Théo de Barros e defendida por Jair Rodrigues. Dividiu o primeiro lugar com Chico Buarque, que concorria com A Banda, na voz de Nara Leão.
A letra de Para Não Dizer Que Não Falei de Flores, ou Caminhando, tornou-se um divisor de águas na carreira do músico. Nuzzi explica que foi uma letra muito forte e impactante para o momento. “A música chamava a população para a mobilização, sendo um retrato da época, a que mais traduz o Brasil naquela época”.
“Com a greve dos metalúrgicos, a Passeata dos Cem Mil, o Brasil estava pegando fogo. Por conta disso, Vandré acaba tendo muitos problemas, principalmente pelo trecho em que falava dos militares. Essa canção se tornou um hino que é declamado até hoje, pela força da mensagem da música”, pontua.
Segundo o autor, o músico já estava sendo investigado e visto com uma desconfiança pelos militares na época. Embora não fosse filiado a partidos, seu pai era militante do Partido Comunista, e o próprio Vandré chegava a participar de algumas reuniões, ainda que sem grande interesse.
“De fato, o Vandré vai definitivamente entrar no radar do governo por conta dessa música” afirma Nuzzi. “Ele mesmo falou que sua carreira acabou em 1968, que essa canção carimbou nele o rótulo de ‘cantor de protesto’ e, logo depois, teve que sair do Brasil”, acrescenta.
Outro exemplo de sua perseguição foram os interrogatórios feitos pelos militares a Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque. O biógrafo relata que eram frequentemente questionados sobre Vandré, como se houvesse “um desejo para prendê-lo”.
Em paralelo, após sua apresentação em um teatro no Rio de Janeiro, o local foi alvo de um atentado com bomba e pichações de grupos repressivos ao comunismo ou quem se mostrava contrário ao regime da época.
A música ficou proibida e os discos foram recolhidos. Caminhando nunca entrou em outro álbum.
O exílio e a fuga
Vitor Nuzzi explica que Geraldo Vandré se escondeu durante dois meses antes de fugir do país. “Quando o AI-5 estourou em 13 de dezembro, ele havia realizado um show em Anápolis, Goiás, e teria uma apresentação no dia 14 em Brasília, que foi cancelada devido ao decreto mais duro da ditadura.
Vandré deixou o país pela fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai, seguindo depois para o Chile no final de 1968. Entretanto, depois é expulso das terras chilenas, por não ter autorização para trabalhar, então decide viajar para a França e realizar uma tour na Europa, como também na Argélia.
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Editado por: Luís Indriunas
{ Brasil de Fato }
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. Fotografia:
“Reprodução/YouTube”
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. Vídeo:
“’90 anos de Geraldo Vandré: mitos e verdades sobre o cantor | BdF Entrevista Vitor Nuzzi’ – ‘Reprodução/YouTube'”
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