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Identitarismo: o elefante na sala da esquerda brasileira – Parte 2
por Francisco Fernandes Ladeira
Em janeiro, escrevi aqui no Desacato o artigo “Identitarismo: o elefante na sala da esquerda brasileira”, denunciando como o movimento que dá título ao texto, supostamente em defesa das minorias sociais, é um mecanismo de soft power do imperialismo para implodir a esquerda por dentro. Além disso, o identitarismo – ao privilegiar debates morais em detrimento de questões materiais – leva o debate público para a chamada “pauta dos costumes”, terreno onde a extrema-direita se sente muito à vontade. Portanto, do ponto de vista político, o identitarismo é responsável por retirar apoio popular à esquerda – que passa a ser associada no senso comum exclusivamente a essa agenda.
Pouco mais de um mês depois, a discussão sobre o identitarismo voltou ao centro das discussões, tendo como pano de fundo a polêmica envolvendo Erika Hilton e Ratinho – na qual o apresentador do SBT afirmou que a deputada não é biologicamente mulher e ela posteriormente entrou com um processo, alegando transfobia. Ironicamente, quem denunciou o “elefante na sala” identitário nesse caso foi o articulista da GloboNews, Demétrio Magnoli. Por já ser relacionado ao campo conservador, Magnoli pode criticar o identitarismo sem o receio de ser confundido com a extrema-direita e o bolsonarismo – infelizmente, o mesmo não se aplica ao campo da esquerda.
Em sua participação no “Estúdio I”, o articulista apontou que Erika Hilton é um cabo eleitoral extremamente eficiente de Flávio Bolsonaro, involuntário, mas eficiente. De fato, identitarismo e extrema-direita possuem uma espécie de relação dialética: retroalimentam-se. Essa relação está baseada numa dinâmica com modus operandi definido: a radicalização de determinadas pautas, ao fomentar inimigos ideológicos, alvo da alteridade negativa de todos, fortalece a coesão de um determinado grupo. Freud trabalhou com essa questão em O mal-estar na civilização.
No caso de figuras políticas que concorrem a cargos proporcionais – como Nikolas Ferreira e a própria Erika – trata-se de uma estratégia eleitoral essencial. Como o eleitorado de ambos é formado majoritariamente por nichos ideológicos, manter sua fidelidade constante é fundamental para garantir vitórias sucessivas para a Câmara dos Deputados.
Na sequência, Demétrio Magnoli abordou algo que eu havia mencionado no meu artigo sobre identitarismo: a disputa entre minorias. Foram citadas as feministas que questionam se Erika Hilton possui “lugar de fala” para representar as mulheres, uma vez que biologicamente ela nasceu homem e não enfrentaria muitos problemas inerentes às mulheres.
Outro ponto de convergência entre a extrema-direita e os identitários é o autoritarismo, que consiste em calar qualquer tipo de argumento contrário. “Ela (Erika) processa, ou seja, do ponto de vista dela não há debate […] Ela é extremamente autoritária desse ponto de vista, é uma identitária fanática e isso é campanha eleitoral para Flávio Bolsonaro”, destacou Magnoli.
Aqui aparece mais uma bem-sucedida estratégia da extrema-direita: fazer-se de vítima e apontar o outro lado como odioso. É mais ou menos assim: alguém da extrema-direita joga a isca, atacando uma pessoa de esquerda (ou supostamente de esquerda), alegando ser mera opinião. Em reação, a pessoa atacada morde a isca e sobe o tom da discussão – chamando o outro de “imbecil”, por exemplo. Posteriormente, o sujeito de extrema-direita, que começou a briga, se diz atacado pelo “radicalismo” da esquerda. Se fosse um jogo de futebol, as provocações de jogadores do time da extrema direita conseguiriam cavar várias expulsões no adversário identitário. E não teria VAR que desse jeito.
Por fim, Demétrio Magnoli apontou que o governo federal “não apoiará Erika Hilton durante a campanha (contra Ratinho) e não se alinhará com as suas manifestações, especialmente as mais exageradas. Não é por acaso que o PT não orientou nada sobre esse debate, preferiu o silêncio sobre isso em favor da base do governo”. E sentenciou: “Quanto mais Erika Hilton falar, melhor para Flávio Bolsonaro”. Pela repercussão do caso nas redes sociais e nas ruas, não dá para discordar do articulista da GloboNews.
No último sábado (14/3), eu estava no Terminal Rodoviário de Conselheiro Lafaiete (MG), quando ouvi a conversa de duas funcionárias do local. Elas diziam que não concordavam que uma transexual dirigisse uma comissão de mulheres e consideram um absurdo Erika Hilton processar Ratinho em 10 milhões de reais. “Ela não tem mais o que fazer?”, afirmou uma das funcionárias em tom colérico.
Em suma, quando Demétrio Magnoli consegue interpretar um acontecimento político melhor do que a grande maioria da esquerda, um sinal de alerta é acendido. Em 2018, a extrema-direita chegou à presidência da República surfando, entre outros pontos, na pauta moral – na época, a esquerda mordeu a isca. Parece que, mesmo involuntariamente (ou não), no que depender do identitarismo, este cenário vai se repetir em 2026.
{ Desacato }
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