tantos tentam domesticar-nos


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Meu Eu e os urubús!

por Carlos Russo Jr

Os urubus o que são? Dizem uns, aves de rapina, outros, lixeiros.

Para mim aves de arribação. Elas acompanham meus momentos de solidão. Depressão quando meu pai me dava garupa na bicicleta a caminho do trabalho. Ele era funcionário de um matadouro, lá pras bandas de Ribeirão. O caminho era sem asfalto, de terra mesmo, e de cada lado a trilha terminava em ribanceira e lá ficavam dezenas de urubus em conciliábulo e cumprimentavam-me ao passar. Creiam-me!

Ouvia de uns: aonde vão? De outros: todos os dias agora? Ainda outros: vai sobrar algum para nós?

Na volta do serviço de meu pai era a mesma lengalenga.

Acontece que também que já fui ave de rapina, hoje estou mais para lixeiro. E ave de arribação, viajor, desses viajores para os quais os carros e aviões são desnecessários. Basta o espírito e nesse viajar sou soberano!

Não corro mais o risco, ou melhor, a certeza de me desencantar com os lugares, com os nomes, com esses seres que ao invés de asas flutuam nos seus uotzaps, tuiteres, facebuques, instagrans, que adoram expor-se para mostrarem sua vacuidade, sua vanidade, seu nada.

Já disse pros meus botões diversas vezes: se a metempsicose, essa idiotice abraçada por Pitágoras afinal demonstrar-se real, desejo reencarnar no corpo de um urubu. Não somente no corpo, mas dele ter a alma valente, independente. Pensando bem, talvez nem o seja tão valente assim, o meu urubu. Afinal ninguém tentou domesticá-lo, aprisioná-lo, seja lá o que for. Pois para um ser feito para a liberdade o pior evento é a domesticação.

Nessa vida tantos tentam domesticar-nos… O urubu não precisa ficar tão esperto quanto o humano, um efêmero especial feito para ser enganado pelos amigos, pelas amantes, por si mesmo. E enganar é o melhor caminho para se domesticar.

O urubu simplesmente solta seu croatar para delimitar o repasto, distribui bicadas, levanta o peito e alça voo, deixando-se levar pelas correntes de ar quente, sem o menor esforço.

Se Pitágoras e os indianos não são tão loucos como eu o imagino, depois de morrer, em quarenta e nove dias cabalísticos, quero voltar a nascer, no corpo de UM URUBÚ.

{ Espaço Literário Marcel Proust }

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