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Dez anos do golpe de 2016: por que a esquerda abraçou as instituições e esqueceu a própria história
por Francisco Fernandes Ladeira
|06/09/2026|
No último dia 31 de agosto, completaram-se dez anos da concretização do golpe de Estado que derrubou a presidenta Dilma Rousseff. Desde então, tivemos uma série de retrocessos, com destaque para a perda de direitos sociais e a emergência da extrema-direita, simbolizada pelo bolsonarismo.
Esperava-se que a data trouxesse uma série de reflexões por parte da esquerda, mas passou quase despercebida. Muitos podem argumentar que Bolsonaro já não está mais no poder e o PT voltou ao Planalto. Nessa lógica, o golpe estaria restrito ao passado; uma página virada da história. Mas é fato que todos os retrocessos pós-golpe estão aí, refletindo, por exemplo, na dificuldade de governabilidade de Lula.
A explicação para essa apatia está na abdução da esquerda, levada a acreditar que o “verdadeiro golpe” foi o tentado pelos bolsonaristas, em 8 de janeiro de 2023; e não o feito pela direita tradicional, em 2016. Assim, a maioria da esquerda tem concentrado suas forças contra um golpe que não aconteceu ao invés de denunciar um golpe que foi concretizado. Claro que o bolsonarismo, como a extrema-direita em geral, deve ser combatido. Mas esses setores obscuros não teriam saído do esgoto caso não houvesse a guerra híbrida de junho de 2013 e, principalmente, o supracitado golpe de 2016.
Além disso, duas das instâncias que estiveram por trás da derrubada de Dilma – grande mídia e Judiciário – hoje são defendidas pela esquerda. O motivo: ironicamente, por serem alvo da fúria bolsonarista. Assim, não é raro esquerdistas deixarem de criticar Globo e STF com receio de serem taxados como “bolsonaristas”.
Essa abdução da esquerda também se reflete na “defesa das instituições” e da “democracia”. Mais uma vez, o inimigo é o espantalho da extrema-direita. Se havia alguma característica de democracia no Brasil, esta foi destruída pelo golpe de 2016. A defesa em questão é da democracia burguesa. Em tempos em que a esquerda lia Althusser, sabia que as “instituições”, no caso, são aparelhos ideológicos da dominação burguesa. Não devem ser defendidas, mas combatidas.
Tudo isso sem contar que a esquerda perdeu o monopólio da crítica. Temas que historicamente questionava, hoje têm o bolsonarismo como principal crítico, como a ciência, indústria farmacêutica e sistema eleitoral. Por um desses paradoxos da política brasileira, quem se vende como defensora da liberdade de expressão e “antissistema” é a extrema-direita – embora saibamos que, na prática, nunca foi.
Até as mobilizações de rua foram tomadas pela extrema-direita. Enquanto isso, parcela da esquerda, adepta da cultura do cancelamento, quer resolver todas as suas desavenças no Judiciário. Tudo é motivo para processo e censura. Terceirizou sua atuação. Parece o Fluminense nos anos 90, que resolvia no tapetão todos os seus problemas da má atuação em campo.
Enfim, com essa esquerda apática e domesticada, os verdadeiros donos do poder podem dormir tranquilos, pois o alvo sempre será o bode expiatório bolsonarista.
{ Desacato }
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Como a esquerda se tornou refém do sistema e perdeu a capacidade de criticar
por Francisco Fernandes Ladeira
|09/09/2026|
Ontem (8/9), tive a oportunidade de participar de uma entrevista no canal Da Prática Política, do jornalista Claudio Porto, para debater a profunda crise teórica e prática que atinge a esquerda brasileira. Durante a conversa, analisei como o campo dito progressista adotou uma postura de defesa intransigente do status quo, abandonando suas bandeiras históricas de contestação e transformação social.
Para compreender o estado de paralisia atual, é preciso retornar à conjuntura que culminou no golpe contra Dilma Rousseff em 2016, com participações decisivas da grande mídia e do Poder Judiciário. Aquele processo não foi apenas um movimento parlamentar; representou uma reconfiguração do poder institucional no Brasil.
O ponto de virada emblemático ocorreu no período subsequente quando, por meio de uma manobra discursiva orquestrada pelo establishment, a esquerda foi induzida a abraçar justamente as instituições que viabilizaram a sua derrocada.
Em nome da defesa da democracia, setores progressistas passaram a se aliar e a exaltar a grande mídia monopolista – histórica adversária das pautas populares, subitamente guindada ao papel de guardiã da verdade oficial – e a cúpula do Judiciário, especialmente o Supremo Tribunal Federal, um órgão de caráter eminentemente aristocrático e não eleito, transformado em salvador da República.
Nesse processo, a esquerda cometeu um erro histórico ao esquecer sua própria trajetória de crítica severa ao caráter de classe das instituições do Estado liberal.
A emergência do bolsonarismo funcionou como o espantalho perfeito para essa abdução ideológica. O medo constante de uma ameaça fascista iminente operou como um mecanismo de chantagem política permanente. Sob essa ótica, acontecimentos como as manifestações de 8 de janeiro foram tratados como um “golpe” ou superdimensionadas como um argumento útil para consolidar uma narrativa que exigia uma resposta excepcional do Estado.
Essa dinâmica acabou criando um mecanismo de contenção: ao transformar o bolsonarismo no mal absoluto, qualquer crítica ao Judiciário ou à grande mídia passou a ser enquadrada como cumplicidade ou atentado à democracia. O resultado foi a paralisia estratégica da esquerda, incapaz de propor qualquer alternativa que vá além da preservação da ordem vigente.
Ao renunciar ao seu papel histórico de questionamento, a esquerda cedeu à extrema-direita o monopólio da crítica e da indignação popular. Trata-se de uma inversão irônica na política nacional. Historicamente, a esquerda questionava a falta de transparência nas instituições, a manipulação das corporações de mídia, a atuação seletiva e o punitivismo do Judiciário, além do papel de grandes corporações no direcionamento do discurso científico.
Hoje, observa-se uma defesa acrítica e a interdição do debate sobre o sistema eleitoral e as urnas eletrônicas, uma aliança ostensiva com a grande imprensa e o aval irrestrito a decisões monocráticas e censuras prévias vindas do STF.
O medo constante de ser confundida com o bolsonarismo travou o pensamento crítico da esquerda. O receio de ver suas pautas instrumentalizadas pela extrema-direita fez com que ela abandonasse terrenos fundamentais da disputa política, deixando a contestação do sistema inteiramente nas mãos da reação conservadora.
Por fim, é importante resgatar a distinção conceitual entre progressismo e esquerda. O progressismo se preocupa primordialmente com reformas morais, pautas comportamentais e a inclusão de minorias nos quadros da ordem capitalista, sem jamais questionar as estruturas de exploração econômica e as relações de poder do Estado.
Já a esquerda fundamenta-se na crítica radical ao capital, na luta de classes e no questionamento do Estado burguês e de suas instituições de controle. Ao trocar a crítica radical pelo papel de mera gestora de consensos liberal-progressistas, a esquerda perdeu sua identidade transformadora. Diante dessa realidade, é fundamental recuperar a coragem de criticar as instituições e a ordem vigente para resgatar a verdadeira vocação do campo popular: a transformação radical da realidade social.
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| Da Prática Política |
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᎒ “AO VIVO! Esquerda esqueceu sua própria história”.
_ Francisco Fernandes Ladeira no programa “Da Prática Política – Live”.
(por Claudio Porto, Setembro de 2006)
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