“Unirá o Mundo”


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A vergonhosa e desastrosa Copa de Trump e Infantino

Copa do Mundo começou sob denúncias de vistos negados, deportações, revistas arbitrárias e ingressos proibitivos; Fifa se omite diante da política migratória de Trump, enquanto Infantino mantém alinhamento público com o governo ianque.

por Diógenes de Veras

Com revistas, deportações, ingressos bloqueados e vistos revogados, o início do maior evento esportivo do planeta foi marcado por inúmeras denúncias contra o governo arquirreacionário ianque. A polícia anti-imigração (ICE) interrogou um jogador e negou a entrada de um árbitro mundialmente conhecido, apesar de suas credenciais regulares, mostrando novamente a todo o planeta as garras sangrentas e o despreparo do caótico Estado que intensifica sua repressão enquanto diz sediar um evento que supostamente “unirá o mundo”.

No dia 8 de junho, Omar Abdulkadir Artan, árbitro escalado para a Copa do Mundo de 2026, eleito o melhor árbitro da Confederação Africana de Futebol (CAF) em 2025 e símbolo de futebol na nação, que já apitou finais de competições continentais entre seleções e clubes, foi impedido de entrar no país Estados Unidos (EUA) e deportado em mais um que expõe o aprofundamento das detenções arbitrárias e violações constitucionais do despotismo criminoso de Donald Trump. Sem apresentar provas, a Casa Branca o associou com supostas “organizações terroristas” e o barrou de entrar no país.

Porém, o evento se tornou um verdadeiro desastre para a imagem – já mais suja que uma pocilga – do Estado imperialista ianque. O árbitro, que tinha recebido auxílio do governo da nação, pela embaixada da Somália, e tinha seu visto, teve sua história repercutida por todo o planeta, que levou a condenações internacionais, antes mesmo da “bola rolar” no EUA. Além disso, em Mogadíscio, capital da Somália, Omar foi recebido por milhares de pessoas no maior estádio, após sua chegada no aeroporto, como um herói nacional.

O presidente da Federação Somali de Futebol, Ali Abdi Mohamed e o alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Völker Türk, ambos repudiaram a decisão tomada pelo governo ianque, com o comissário apontando que era necessário uma revisão das políticas migratórias durante o evento e o presidente reforçou o mérito de Omar Artan. Além disso, o primeiro-ministro da Colûmbia Britânica, província Canadense, David Eby, ofereceu ao árbitro a possibilidade de realizar partidas no país e disse que ele seria bem-vindo.

Outros eventos vergonhosos que tornaram-se pauta em todo planeta foram exemplos como o que ocorreu com a seleção senegalesa, que na Carolina do Norte, estado norte-americano, no Aeroporto de Rayleigh, foram submetidos a uma revista rigorosa. A mesma situação ocorreu com a seleção de Uzbequistão, que foi submetida a inspeção com cães farejadores para conseguir acesso à estadia no centro de treinamento em Nova Iorque, onde ficaram esperando horas no sol.

O atacante iraquiano Aymen Hussein foi interrogado por quase sete horas em Chicago, enquanto o fotógrafo da delegação iraquiana, Talal Salah, foi impedido de entrar no país após mais de dez horas de interrogatório. O vice-presidente Mehdi Mohammed Nabi também teve seu visto negado, enquanto ingressos de torcedores do Irã foram revogados pela Fifa.

No caso do Irã, o supervisor da seleção, Mahdi Mohammad Nabi, acusou a Fifa e Infantino de falta de coordenação após a negativa de vistos a 15 membros da federação iraniana. A delegação precisou transferir sua base do Arizona para Tijuana, no México, enquanto parte de funcionários e jornalistas ficou impedida de acompanhar a equipe no EUA.

Infantino: Um servo leal de Trump

Nos dias de preparação, já se viam não só possíveis pontos de tensão, mas um desastre anunciado. A razão que a Fifa, entidade máxima do futebol internacional, não se preocupa ou se posiciona diante dos atos criminosos do governo ianque, não é só por uma questão de lucro, mas por um alinhamento e construção de projeto de Gianni Infantino, que se submeteu fielmente ao arquirreacionário Donald Trump, chegando a entregá-lo o recém-criado “Prêmio da Paz” durante o sorteio da Copa de 2022, e participando do “Conselho de Paz” utilizando o boné vermelho com as letras “USA”.

Sempre aparecendo nos eventos, sorridente ao lado de Trump, Infantino não é só cúmplice, mas um fantoche comprometido, como denunciou até o jornal monopolista francês L’Equipe. Desde a entrega de medalhas ao “chefe”, ao silêncio e à cooperação, Infantino também apenas disse que “não controlamos tudo” sobre a situação grave da deportação de Artan, alegando que “estava tentando entender a situação”.

Como é esperado dos cartolas da Fifa, a federação se omite politicamente quando é conveniente, porém, é bem “política” quando precisa ser. Seja o banimento da Rússia e sua federação, além dos seus clubes, pela sua invasão da Ucrânia em 2022, além da retirada da Indonésia como sede da Copa do Mundo da Fifa Sub-20 em 2023 por excluir a entidade nazi-sionista de “Israel”, porém, ao mesmo tempo, está calada sobre a sangrenta guerra de rapina que a sede ianque trava contra o povo iraniano, ou sequer ousa cogitar punições contra a Federação de Futebol Sionista ou seus clubes pelos seus inúmeros crimes, invasões ou o genocídio em curso contra o povo palestino.

Não é novidade que a entidade se cale sobre atitudes criminosas dos governos que aceitam sediar o megaevento. No Qatar, na Copa de 2022, mais de 6,7 mil trabalhadores pereceram sob condições degradantes, para agradar os superlucros do imperialismo sob a monarquia feudal para a farra da Fifa. Infantino também aplaudiu um regime que era notório por suas inúmeras perseguições e pelo seu enorme histórico de exploração máxima e brutal dos trabalhadores imigrantes, assim como está fazendo a Arábia Saudita, que será a sede da Copa de 2034.

Sob o governo Trump, a história se repete, uma vez como farsa, outra como tragédia declarada. O governo ianque, quase emula às práticas dos regimes teocráticos-feudais que sustenta através de seus petrodólares e do complexo militar-industrial, com sua repressão máxima elevada aos níveis mais altos, além da exploração, perseguição e repressão de imigrantes, do povo preto, dos latino-americanos e de inúmeros setores das massas que são marginalizadas, como a própria população árabe e muçulmana, que se torna alvo durante um período de ofensiva e propaganda imperialista generalizada.

Se no Catar havia temor de que pessoas perseguidas por sua orientação sexual ou identidade de gênero não se sentissem seguras, ou sequer pudessem viajar ao país devido às leis reacionárias do velho Estado teocrático-feudal, no EUA a situação também se apresenta como alarmante. Possuindo a maior taxa de encarceramento do planeta, com uma das forças de polícia mais violentas do mundo, especialmente contra estrangeiros, o governo de Trump não declarou nenhuma vez que irá “amenizar” a situação para o evento e turistas que buscam apenas ver sua seleção certamente poderão se tornar alvos da brutalidade policial crescente no país, seja por seu credo, etnia, sexualidade ou nação de origem.

Isso reflete nas taxas de ocupação em queda em diversos hotéis nas cidades-sedes do EUA, que concentra mais de 70% dos jogos da competição, porém, estão todas com taxas menores de ocupação que no México e Canadá. Até o próprio evento e seu público sofrem malefícios com o terror da polícia anti-imigratória (ICE), que continuará em operação total e certamente se utilizará do evento para intensificar a sua “indústria da deportação”.

Antes do início do torneio, a Anistia Internacional alertou para “enormes riscos” de direitos humanos na Copa de 2026, citando deportações em massa, atuação agressiva do ICE, restrições a protestos e riscos a torcedores de países como Senegal, Costa do Marfim, Haiti e Irã.

A Copa de Ninguém

O Haiti, adversário da seleção brasileira, também passou por censura da “apolítica” FIFA, que exigiu a retirada de uma imagem alusiva à Batalha de Vertières, travada em 18 de novembro de 1803 e decisiva para a independência do país. A decisão foi vista como uma “interpretação equivocada” pela federação do país, porém, teve que ser acatada para não acarretar em punições.

Além de decisões impopulares contra suas próprias seleções, a “genial” liderança por trás da entidade buscou encher mais seus bolsos, quando se tratava dos ingressos. Usando um argumento que “no EUA, é assim que funciona”, ou seja, uma desculpa esfarrapada para estipular preços exorbitantes, que variam entre cinco e onze mil dólares.

No entanto, se parecia que a ganância iria acabar ali, foi estipulado o sistema de “dynamic pricing” (preço dinâmico), onde os preços variam conforme a demanda. Ingressos para a final, inicialmente anunciados por até US$ 6.730, passaram a aparecer por valores próximos de US$ 11 mil, tornando o torneio inacessível para amplas parcelas dos torcedores. Os preços de alguns ingressos chegariam ao inacreditável valor de 690 mil dólares (R$ 3,6 milhões.)

No MetLife Stadium, em Nova Jérsei, a FIFA orientou torcedores a usarem apenas opções oficiais de transporte; veículos particulares e caminhada direta ao estádio foram proibidos, enquanto a passagem de trem de ida e volta chegou a US$ 98. Também, foi proibido levar garrafas de água, com os itens para consumo nos estádios sendo colocados a preços também extremamente altos, para incentivar a compra e aumentar mais ainda o incentivo financeiro do evento.

Em meio a uma tsunami de patrocínios incessantes, por um lado, e a protestos do povo mexicano e merecidas vaias para a bandeira sangrenta do EUA, por outro, ocorreu a abertura da Copa do Mundo no Estádio Azteca, na Cidade do México. Os jogos no EUA começaram logo em seguida. Contudo, para muitos estadunidenses, é como se nada estivesse acontecendo. Afinal, para quem é essa Copa, onde football nem é futebol?

{ A Nova Democracia }

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