{"id":87389,"date":"2025-09-29T14:11:26","date_gmt":"2025-09-29T17:11:26","guid":{"rendered":"http:\/\/aluzerna.com.br\/?p=87389"},"modified":"2025-09-29T14:11:26","modified_gmt":"2025-09-29T17:11:26","slug":"o-nervo-de-sua-propria-sociedade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aluzerna.com.br\/?p=87389","title":{"rendered":"O nervo de sua pr\u00f3pria sociedade"},"content":{"rendered":"<h6><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone\" src=\"http:\/\/www.aluzerna.com.br\/2025\/29-09-2025b.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"375\" \/><br \/>\n<span style=\"color: #000000;\">| Reprodu\u00e7\u00e3o\/www |<\/span><\/h6>\n<p><span style=\"color: #00ff00;\">\u21c5<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"text-decoration: underline;\"><em><span style=\"color: #000000; text-decoration: underline;\">&#8220;Vidas Secas&#8221; de Nelson Pereira dos Santos<\/span><\/em><\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><span style=\"color: #000000;\">por Nova Cultura<\/span><\/em><br \/>\n<em><span style=\"color: #000000;\"> |19\/11\/2021|<\/span><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Em 21 de agosto, os grupos da Campanha Brasil: pela Segunda e Definitiva Independ\u00eancia reuniram-se para assistir e debater o premiado <em>Vidas Secas<\/em> (1963), drama dirigido por Nelson Pereira dos Santos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O longa-metragem, hom\u00f4nimo da obra de Graciliano Ramos, apesar do forte v\u00ednculo entre as p\u00e1ginas do livro com a produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica, apesar do liame intr\u00ednseco entre as artes, guarda relativa autonomia e pode ser visto de forma individual.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Nelson Pereira intentara, inicialmente, produzir um roteiro para <em>Vidas Secas<\/em>, contudo, ap\u00f3s recorrer in\u00fameras vezes ao original, decidira que o melhor a se fazer era uma adapta\u00e7\u00e3o para o cinema. Portanto, a estrutura narrativa do filme se deve muito ao livro: o filme come\u00e7a e termina com a fam\u00edlia vagando errante pelas veredas do sert\u00e3o (cap\u00edtulos I: Mudan\u00e7a e cap\u00edtulo XIII: Fuga). O diretor tamb\u00e9m bebe da fonte liter\u00e1ria ao fazer a caracteriza\u00e7\u00e3o dos personagens. Apesar de a antropomorfiza\u00e7\u00e3o da <em>Baleia<\/em> n\u00e3o ter sido explorada no filme, a <em>zoomorfiza\u00e7\u00e3o<\/em>, a objetifica\u00e7\u00e3o e aliena\u00e7\u00e3o dos sujeitos (Fabiano, Sinh\u00e1 Vit\u00f3ria, Menino mais novo e Menino mais velho) \u00e9 utilizada como recurso a evidenciar a dureza e as injusti\u00e7as do povo sertanejo. Os principais eventos, como a festa, a pris\u00e3o de Fabiano, o epis\u00f3dio com o Soldado Amarelo, o pagamento feito pelo Fazendeiro etc., s\u00e3o reproduzidos pela filmagem, aproximando essa, ainda mais, do texto.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Todavia, apesar das similaridades, deve ser entendido de forma aut\u00f4noma, principalmente por estar no escopo de uma nova proposta estil\u00edstica: o Cinema Novo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A nova est\u00e9tica surge coet\u00e2nea de, e em di\u00e1logo com, outras express\u00f5es cinematogr\u00e1ficas, marcadamente o <em>Neorrealismo Italiano<\/em> e a <em>Nouvelle Vague franc\u00eas<\/em>. O Cinema Novo nasce como express\u00e3o de uma burguesia aut\u00f3ctone que deseja romper com os padr\u00f5es comerciais exportados por Hollywood para o resto do mundo e criar uma forma de filmar pr\u00f3pria.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Objetivando desvincular-se das institui\u00e7\u00f5es que reproduziam o padr\u00e3o ianque, os cineastas deixaram as grandes e tradicionais produtoras em busca de novas e independentes. Assim, desobrigados de atender uma demanda de um mercado consumidor formatado, predominantemente, pelo crivo estrangeiro, os diretores tiveram ocasi\u00e3o de inovar e experimentar novas formas de montagem e de constru\u00e7\u00e3o de narrativas. O fato de ser o resultado de \u201cuma c\u00e2mera na m\u00e3o e uma ideia na cabe\u00e7a\u201d, e n\u00e3o um projeto coletivo nacional, fez do Cinema Novo um estilo de um grupo e carregado de marcas individuais dos diretores.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A nega\u00e7\u00e3o do conte\u00fado exportado pelas grandes produtoras internacionais cria a necessidade de se definir um novo objeto para o Cinema que n\u00e3o fosse conformado ao padr\u00e3o estrangeiro e faz com que os produtores voltem sua aten\u00e7\u00e3o para o Brasil e para o brasileiro \u00e0 medida que essa mesma aten\u00e7\u00e3o para o Brasil e para o brasileiro \u00e9 resultado do desenvolvimento econ\u00f4mico nacional, que faz com que a burguesia aut\u00f3ctone negue o conte\u00fado alien\u00edgena. O Cinema Novo retrata \u201co brasileiro\u201d e os dramas do Brasil: a desigualdade social, a fome, a pobreza, a viol\u00eancia, o dom\u00ednio do latif\u00fandio, a podrid\u00e3o da classe dominante. Glauber Rocha diria:<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u201cA fome latina, por isto, n\u00e3o \u00e9 somente um sintoma alarmante: \u00e9 o nervo de sua pr\u00f3pria sociedade. A\u00ed reside a tr\u00e1gica originalidade do Cinema Novo diante do cinema mundial: nossa originalidade \u00e9 nossa fome e nossa maior mis\u00e9ria \u00e9 que esta fome, sendo sentida, n\u00e3o \u00e9 compreendida.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Essa proposta, ainda que limitada, ainda que burguesa, apesar de todas as suas limita\u00e7\u00f5es, representam um movimento leg\u00edtimo de resist\u00eancia \u00e0 imposi\u00e7\u00e3o norte-americana da sua produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Ainda sobre os temas que interessam ao Cinema Novo, Glauber Rocha em seu \u201cEzt\u00e9tyka da Fome\u201d, tamb\u00e9m citando <em>\u201cVidas Secas\u201d<\/em>, fala:<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u201c(De Aruanda a Vidas Secas, o Cinema Novo narrou, descreveu, poetizou, discursou, analisou, excitou os temas da fome: personagens comendo terra, personagens comendo ra\u00edzes, personagens matando para comer, personagens fugindo para comer, personagens sujas, feias, descarnadas, morando em casas sujas, feias, escuras: foi esta galeria de famintos que identificou o Cinema Novo com o miserabilismo, hoje t\u00e3o condenado pelo Governo do Estado da Guanabara, pela Comiss\u00e3o de Sele\u00e7\u00e3o para Festivais do Itamarati, pela cr\u00edtica a servi\u00e7o dos interesses oficiais, pelos produtores e pelo p\u00fablico\u00a0&#8211; este \u00faltimo n\u00e3o suportando as imagens da pr\u00f3pria mis\u00e9ria. Este miserabilismo do Cinema Novo op\u00f5e-se \u00e0 tend\u00eancia do digestivo, preconizada pelo cr\u00edtico-mor da Guanabara, Carlos Lacerda: filmes de gente rica, em casas bonitas, andando em autom\u00f3veis de luxo: filmes alegres, c\u00f4micos, r\u00e1pidos, sem mensagens, e de objetivos puramente industriais. Estes s\u00e3o os filmes que se op\u00f5em \u00e0 fome, como se, na estufa e nos apartamentos de luxo, os cineastas pudessem esconder a mis\u00e9ria moral de uma burguesia indefinida e fr\u00e1gil, ou se mesmo os pr\u00f3prios materiais t\u00e9cnicos e cenogr\u00e1ficos pudessem esconder a fome que est\u00e1 enraizada na pr\u00f3pria inciviliza\u00e7\u00e3o. Como se, sobretudo, neste aparato de paisagens tropicais, pudesse ser disfar\u00e7ada a indig\u00eancia mental dos cineastas que fazem este tipo de filmes. O que fez do Cinema Novo um fen\u00f4meno de import\u00e2ncia internacional foi justamente seu alto n\u00edvel de compromisso com a verdade, foi seu pr\u00f3prio miserabilismo, que, antes escrito pela literatura de \u201930, foi agora fotografado pelo cinema de \u201960; e, se antes era escrito como den\u00fancia social, hoje passou a ser discutido como problema pol\u00edtico. Os pr\u00f3prios est\u00e1gios do miserabilismo em nosso cinema s\u00e3o internamente evolutivos. Assim, como observa Gustavo Dahl, vai desde o fenomenol\u00f3gico (Porto das Caixas), ao social [Vidas Secas], ao pol\u00edtico [Deus e o Diabo], ao po\u00e9tico [Ganga Zumba], ao demag\u00f3gico [Cinco Vezes Favela], ao experimental [Sol sobre a Lama], ao documental [Garrincha, Alegria do Povo], a com\u00e9dia [Os Mendigos], experi\u00eancias em v\u00e1rios sentidos, frustradas umas, realizadas outras, mas todas compondo, no final de tr\u00eas anos, um quadro hist\u00f3rico que, n\u00e3o por acaso, vai caracterizar o per\u00edodo J\u00e2nio-Jango: o per\u00edodo das grandes crises de consci\u00eancia e de rebeldia, de agita\u00e7\u00e3o e revolu\u00e7\u00e3o que culminou no golpe de abril. E foi a partir de abril que a tese do cinema digestivo ganhou peso no Brasil, amea\u00e7ando, sistematicamente, o Cinema Novo.)\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O Cinema Novo foi um movimento importante para o cinema brasileiro, por\u00e9m, com limita\u00e7\u00f5es. A defesa da cultura nacional ante a domina\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica imperialista \u00e9 uma necessidade. No entanto, a defesa nacional da cultura, das manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, enquanto dimens\u00e3o superestrutural, n\u00e3o pode se dar, sob pena de malograr, sem a efetiva defesa da economia nacional, uma vez que a imposi\u00e7\u00e3o da cultura, da mentalidade, da ideologia norte americana ou europeia, ocorre em raz\u00e3o da estrutural domina\u00e7\u00e3o das pot\u00eancias imperialistas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A arte mais bem produzida jamais poder\u00e1 transformar a realidade se n\u00e3o houver a consciente organiza\u00e7\u00e3o do povo para transformar essa mesma realidade embrutecedora. Mais especificamente: as desgra\u00e7as historicamente produzidas pelo capitalismo na sua fase superior, o Imperialismo, no caso do Brasil, as mazelas decorrentes da ordem semicolonial, t\u00e3o bem reproduzidas cinematograficamente pelo Cinema Novo, n\u00e3o ser\u00e3o superadas sem a organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria do campesinato e do proletariado, considerando a luta nacional, observando as contradi\u00e7\u00f5es e os antagonismos de classes, com vistas a superar a estrutura econ\u00f4mica que faz deles coisas e n\u00e3o sujeitos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Ainda sobre a exibi\u00e7\u00e3o do dia 21 de agosto, ap\u00f3s o filme, os expectadores fizeram considera\u00e7\u00f5es, das quais reproduziremos algumas aqui: (i) aus\u00eancia de trilha-sonora: o longa n\u00e3o tenta incutir sentimentos nos expectadores por meio da trilha sonora, mas, justamente pela sua aus\u00eancia, refor\u00e7a a dureza da vida dos personagens. Os eventuais sentimentos despertados nos expectadores s\u00e3o oriundos da tomada de consci\u00eancia da dor dos personagens. Tamb\u00e9m, a m\u00fasica, em algumas cenas, como pr\u00e1tica que requer um certo desenvolvimento intelectual e cultural, \u00e9 usada como elemento distintivo de classe: por exemplo, enquanto Adriano vai \u00e0 casa do Fazendeiro para receber o seu pagamento, algu\u00e9m toma aulas de violino; (ii) Sinh\u00e1 Vit\u00f3ria carrega e suporta sozinha o peso das malas da fam\u00edlia durante as viagens: a personagem, enquanto mulher sertaneja, representa as desventuras da mulher sertaneja em uma sociedade marcada pelos resqu\u00edcios do estatuto colonial e de ordem patriarcal; (iii) a opress\u00e3o do sem-terra: a err\u00e2ncia da fam\u00edlia de sertanejos pelas veredas do nordeste brasileiro, a humilha\u00e7\u00e3o e a viol\u00eancia sofrida por Fabiano, a constri\u00e7\u00e3o do campon\u00eas miser\u00e1vel \u00e0s condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas definidas pelo sistema da grande propriedade e pela concentra\u00e7\u00e3o de terra nas m\u00e3os de latifundi\u00e1rios, os quais s\u00e3o representados no personagem do Fazendeiro, s\u00e3o quest\u00f5es exploradas no filme de Nelson Pereira dos Santos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Fazemos o convite a todos os interessados. A exibi\u00e7\u00e3o dos filmes \u00e9 feita simult\u00e2nea e virtualmente para todos os expectadores, por\u00e9m, para aqueles que n\u00e3o possuem disponibilidade de tempo para permanecer durante a exibi\u00e7\u00e3o e a discuss\u00e3o, quando da publica\u00e7\u00e3o das datas do cine debate, enviamos link para esses que se encontrem nessa situa\u00e7\u00e3o possam assistir ao filme previamente e vir apenas para as discuss\u00f5es. Todos t\u00eam igual direito de fala. Todos s\u00e3o igualmente bem-vindos!<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>{<\/strong> <em>Nova Cultura<\/em> <strong>}<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #00ff00;\">\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>| Reprodu\u00e7\u00e3o\/www | \u21c5 &#8220;Vidas Secas&#8221; de Nelson Pereira dos Santos por Nova Cultura |19\/11\/2021| Em 21 de agosto, os grupos da Campanha Brasil: pela Segunda e Definitiva Independ\u00eancia reuniram-se para assistir e debater o premiado Vidas Secas (1963), drama dirigido por Nelson Pereira dos Santos. 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