{"id":4836,"date":"2016-03-11T09:05:43","date_gmt":"2016-03-11T13:05:43","guid":{"rendered":"http:\/\/aluzerna.com.br\/?p=4836"},"modified":"2016-05-13T13:04:42","modified_gmt":"2016-05-13T17:04:42","slug":"isso-nao-buscam-conhecer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aluzerna.com.br\/?p=4836","title":{"rendered":"Isso n\u00e3o buscam conhecer"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-4861\" src=\"http:\/\/aluzerna.com.br\/wp-content\/uploads\/11-03-2016a.gif\" alt=\"11-03-2016a\" width=\"60\" height=\"100\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"text-decoration: underline;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong><em>A maldi\u00e7\u00e3o branca<\/em><\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><em>Nada tem de novo o menosprezo pelo Haiti. H\u00e1 dois s\u00e9culos, sofre desprezo e castigo<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><em>por Eduardo Galeano<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">No primeiro dia deste ano a liberdade completou dois s\u00e9culos de vida no mundo. Ningu\u00e9m se inteirou disso, ou quase ningu\u00e9m. Poucos dias depois, o pa\u00eds do anivers\u00e1rio, Haiti, passou a ocupar algum espa\u00e7o nos meios de comunica\u00e7\u00e3o; n\u00e3o pelo anivers\u00e1rio da liberdade universal, mas porque ali se desatou um banho de sangue que acabou derrubando o presidente Aristide.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O Haiti foi o primeiro pa\u00eds onde se aboliu a escravid\u00e3o. Contudo, as enciclop\u00e9dias mais conhecidas e quase todos os livros de escola atribuem \u00e0 Inglaterra essa hist\u00f3rica honra. \u00c9 verdade que certo dia o imp\u00e9rio que fora campe\u00e3o mundial do tr\u00e1fico negreiro mudou de ideia; mas a aboli\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica ocorreu em 1807, tr\u00eas anos depois da revolu\u00e7\u00e3o haitiana, e resultou t\u00e3o pouco convincente que em 1832 a Inglaterra teve de voltar a proibir a escravid\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Nada tem de novo o menosprezo pelo Haiti. H\u00e1 dois s\u00e9culos, sofre desprezo e castigo. Thomas Jefferson, pr\u00f3cer da liberdade e dono de escravos, advertia que o Haiti dava o mau exemplo, e dizia que se deveria \u201cconfinar a peste nessa ilha\u201d. Seu pa\u00eds o ouviu. Os Estados Unidos demoraram 60 anos para reconhecer diplomaticamente a mais livre das na\u00e7\u00f5es. Por outro lado, no Brasil chamava-se de haitianismo a desordem e a viol\u00eancia. Os donos dos bra\u00e7os negros se salvaram do haitianismo at\u00e9 1888. Nesse ano o Brasil aboliu a escravid\u00e3o. Foi o \u00faltimo pa\u00eds do mundo a faz\u00ea-lo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O Haiti voltou a ser um pa\u00eds invis\u00edvel, at\u00e9 a pr\u00f3xima carnificina. Enquanto esteve nas TVs e nas p\u00e1ginas dos jornais, no in\u00edcio deste ano, os meios de comunica\u00e7\u00e3o transmitiram confus\u00e3o e viol\u00eancia e confirmaram que os haitianos nasceram para fazer bem o mal e para fazer mal o bem. Desde a revolu\u00e7\u00e3o at\u00e9 hoje, o Haiti s\u00f3 foi capaz de oferecer trag\u00e9dias. Era uma col\u00f4nia pr\u00f3spera e feliz e agora \u00e9 a na\u00e7\u00e3o mais pobre do hemisf\u00e9rio ocidental. As revolu\u00e7\u00f5es, conclu\u00edram alguns especialistas, levam ao abismo. E alguns disseram, e outros sugeriram, que a tend\u00eancia haitiana ao fratric\u00eddio prov\u00e9m da selvagem heran\u00e7a da \u00c1frica. O mandato dos ancestrais. A maldi\u00e7\u00e3o negra, que empurra para o crime e o caos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Da maldi\u00e7\u00e3o branca n\u00e3o se falou.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A Revolu\u00e7\u00e3o Francesa havia eliminado a escravid\u00e3o, mas Napole\u00e3o a ressuscitara:<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">&#8211; Qual foi o regime mais pr\u00f3spero para as col\u00f4nias?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">&#8211; O anterior.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">&#8211; Pois, que seja restabelecido.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">E, para substituir a escravid\u00e3o no Haiti, enviou mais de 50 navios cheios de soldados. Os negros rebelados venceram a Fran\u00e7a e conquistaram a independ\u00eancia nacional e a liberta\u00e7\u00e3o dos escravos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Em 1804, herdaram uma terra arrasada pelas devastadoras planta\u00e7\u00f5es de cana-de-a\u00e7\u00facar e um pa\u00eds queimado pela guerra feroz. E herdaram \u201ca d\u00edvida francesa\u201d. A Fran\u00e7a cobrou caro a humilha\u00e7\u00e3o imposta a Napole\u00e3o Bonaparte. Rec\u00e9m-nascido, o Haiti teve de se comprometer a pagar uma indeniza\u00e7\u00e3o gigantesca, pelo preju\u00edzo causado ao se libertar. Essa expia\u00e7\u00e3o do pecado da liberdade lhe custou 150 milh\u00f5es de francos-ouro. O novo pa\u00eds nasceu estrangulado por essa corda presa no pesco\u00e7o: uma fortuna que atualmente equivaleria a US$ 21,7 bilh\u00f5es ou a 44 or\u00e7amentos totais do Haiti atualmente. Muito mais de um s\u00e9culo demorou para pagar a d\u00edvida, que os juros multiplicavam. Em 1938, por fim, houve a reden\u00e7\u00e3o final.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Nessa \u00e9poca, o Haiti j\u00e1 pertencia aos brancos dos Estados Unidos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Em troca dessa dinheirama, a Fran\u00e7a reconheceu oficialmente a nova na\u00e7\u00e3o. Nenhum outro pa\u00eds a reconheceu. O Haiti nasceu condenado \u00e0 solid\u00e3o. Tampouco Simon Bol\u00edvar a reconheceu, embora lhe devesse tudo. Barcos, armas e soldados lhe foram dados pelo Haiti em 1816, quando Bol\u00edvar chegou \u00e0 ilha, derrotado, e pediu apoio e ajuda. O Haiti lhe deu tudo, com a \u00fanica condi\u00e7\u00e3o de que libertasse os escravos, uma ideia que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o lhe havia ocorrido. Depois, o her\u00f3i venceu sua guerra de independ\u00eancia e expressou sua gratid\u00e3o enviando a Port-au-Prince uma espada de presente. Sobre reconhecimento, nem uma palavra.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Na realidade, as col\u00f4nias espanholas que passaram a ser pa\u00edses independentes continuavam tendo escravos, embora algumas tamb\u00e9m tivessem leis que os proibia. Bol\u00edvar decretou a sua em 1821, mas, na realidade, n\u00e3o se deu por inteirada. Trinta anos depois, em 1851, a Col\u00f4mbia aboliu a escravid\u00e3o, e a Venezuela em 1854.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Em 1915, os fuzileiros navais desembarcaram no Haiti. Ficaram 19 anos. A primeira coisa que fizeram foi ocupar a alf\u00e2ndega e o escrit\u00f3rio de arrecada\u00e7\u00e3o de impostos. O ex\u00e9rcito de ocupa\u00e7\u00e3o reteve o sal\u00e1rio do presidente haitiano at\u00e9 que este assinasse a liquida\u00e7\u00e3o do Banco da Na\u00e7\u00e3o, que se converteu em sucursal do City Bank de Nova York. O presidente e todos os demais negros tinham a entrada proibida nos hot\u00e9is, restaurantes e clubes exclusivos do poder estrangeiro. Os ocupantes n\u00e3o se atreveram a restabelecer a escravid\u00e3o, mas impuseram o trabalho for\u00e7ado para as obras p\u00fablicas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">E mataram muito. N\u00e3o foi f\u00e1cil apagar os fogos da resist\u00eancia. O chefe guerrilheiro Charlemagne P\u00e9ralte, pregado em cruz contra uma porta, foi exibido, para esc\u00e1rnio, em pra\u00e7a p\u00fablica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A miss\u00e3o civilizadora terminou em 1934. Os ocupantes se retiraram deixando no pa\u00eds uma Guarda Nacional, fabricada por eles, para exterminar qualquer poss\u00edvel assomo de democracia. O mesmo fizeram na Nicar\u00e1gua e na Rep\u00fablica Dominicana. Algum tempo depois, Duvalier foi o equivalente haitiano de Somoza e Trujillo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">E, assim, de ditadura em ditadura, de promessa em trai\u00e7\u00e3o, foram somando-se as desventuras e os anos. Aristide, o cura rebelde, chegou \u00e0 presid\u00eancia em 1991. Durou poucos meses. O governo dos Estados Unidos ajudou a derrub\u00e1-lo, o levou, o submeteu a tratamento e, uma vez reciclado, o devolveu, nos bra\u00e7os dos fuzileiros navais, \u00e0 Presid\u00eancia. E novamente ajudou a derrub\u00e1-lo, neste ano de 2004, e outra vez houve matan\u00e7a. E de novo os fuzileiros, que sempre regressam, como a gripe.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Entretanto, os especialistas internacionais s\u00e3o muito mais devastadores do que as tropas invasoras. Pa\u00eds submisso \u00e0s ordens do Banco Mundial e do Fundo Monet\u00e1rio, o Haiti havia obedecido suas instru\u00e7\u00f5es sem pestanejar. Eles o pagaram negando-lhe o p\u00e3o e o sal.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Teve seus cr\u00e9ditos congelados, apesar de ter desmantelado o Estado e liquidado todas as tarifas alfandeg\u00e1rias e subs\u00eddios que protegiam a produ\u00e7\u00e3o nacional. Os camponeses plantadores de arroz, que eram a maioria, se converteram em mendigos ou emigrantes em balsas. Muitos foram e continuam indo parar nas profundezas do Mar do Caribe, mas esses n\u00e1ufragos n\u00e3o s\u00e3o cubanos e raras vezes aparecem nos jornais.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Agora, o Haiti importa todo seu arroz dos Estados Unidos, onde os especialistas internacionais, que \u00e9 um pessoal bastante distra\u00eddo, se esquecem de proibir as tarifas alfandeg\u00e1rias e os subs\u00eddios que protegem a produ\u00e7\u00e3o nacional.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Na fronteira onde termina a Rep\u00fablica Dominicana e come\u00e7a o Haiti, h\u00e1 um cartaz que adverte: o mau passo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Do outro lado est\u00e1 o inferno negro. Sangue e fome, mis\u00e9ria, pestes\u2026<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Nesse inferno t\u00e3o temido, todos s\u00e3o escultores. Os haitianos t\u00eam o costume de recolher latas e ferro velho e, com antiga maestria, recortando e martelando, suas m\u00e3os criam maravilhas que s\u00e3o oferecidas nos mercados populares.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O Haiti \u00e9 um pa\u00eds jogado no lixo, por eterno castigo \u00e0 sua dignidade. Ali jaz, como se fosse sucata. Espera as m\u00e3os de sua gente. (IPS\/Envolverde)<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>{\u00a0<\/strong><em>Brasil de Fato\u00a0<\/em><strong>}<\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A maldi\u00e7\u00e3o branca Nada tem de novo o menosprezo pelo Haiti. H\u00e1 dois s\u00e9culos, sofre desprezo e castigo por Eduardo Galeano No primeiro dia deste ano a liberdade completou dois s\u00e9culos de vida no mundo. Ningu\u00e9m se inteirou disso, ou quase ningu\u00e9m. 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