{"id":25952,"date":"2018-05-15T12:28:18","date_gmt":"2018-05-15T15:28:18","guid":{"rendered":"http:\/\/aluzerna.com.br\/?p=25952"},"modified":"2018-05-15T12:28:18","modified_gmt":"2018-05-15T15:28:18","slug":"nao-e-mais-a-mesma-coisa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aluzerna.com.br\/?p=25952","title":{"rendered":"N\u00e3o \u00e9 mais a mesma coisa."},"content":{"rendered":"<h6><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone\" src=\"http:\/\/www.aluzerna.com.br\/2018\/15-05-2018a.jpg\" alt=\"\" width=\"346\" height=\"533\" \/><br \/>\n<span style=\"color: #000000;\">| Imagem: Reprodu\u00e7\u00e3o\/www |<\/span><\/h6>\n<p><span style=\"color: #00ff00;\">\u21c5<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"text-decoration: underline;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong><em>&#8220;Nosso desafio \u00e9 manter viva a esperan\u00e7a&#8221;<\/em><\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><span style=\"color: #000000;\">Carta Maior conversou com o pesquisador franc\u00eas Christophe Ventura, que esteve no Brasil para participar do F\u00f3rum Social Mundial 2018, entre 13 e 17 de mar\u00e7o em Salvador<\/span><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><span style=\"color: #000000;\">por Clarisse Meireles<\/span><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><em>\u201cGuardemos o pessimismo para dias melhores\u201d, m\u00e1xima de autor desconhecido, parece o melhor resumo para o momento da esquerda global. Governos sequestrados pela plutocracia, perda acelerada de direitos sociais em v\u00e1rias regi\u00f5es sob ataque cerrado da hegemonia neoliberal, concentra\u00e7\u00e3o de riqueza em alta, guerras e crises de refugiados, Donald Trump.<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><em>Na Am\u00e9rica Latina, o ciclo de governos progressistas foi rompido\u00a0&#8211; em alguns pa\u00edses, como o Brasil, com golpes 2.0, ditos institucionais. Tamb\u00e9m no Brasil, a judicializa\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica atinge o \u00e1pice, tentando impedir o candidato \u00e0 frente das pesquisas, o ex-presidente Lula, de concorrer \u00e0 presid\u00eancia este ano.<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><em>Sobre estes e outros desafios do campo popular no Brasil e no mundo, Carta Maior conversou com o pesquisador franc\u00eas Christophe Ventura, que esteve no Brasil para participar do F\u00f3rum Social Mundial 2018, entre 13 e 17 de mar\u00e7o em Salvador. Professor do IRIS\u00a0&#8211; Instituto de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais e Estrat\u00e9gicas, em Paris, Ventura participou da cria\u00e7\u00e3o e concep\u00e7\u00e3o do FSM desde o in\u00edcio, em 2001, em Porto Alegre, foi secret\u00e1rio de rela\u00e7\u00f5es internacionais do Parti de Gauche e ex-assessor internacional de Jean-Luc M\u00e9lenchon e \u00e9 especialista em Am\u00e9rica Latina e um dos editores do site M\u00e9moire des Luttes.<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong><span style=\"color: #000000;\">Carta Maior: Que balan\u00e7o faz do F\u00f3rum Social 2018?<\/span><\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Christophe Ventura: Em parte, foi um sucesso. Em parte, confirmou os limites deste formato. Foi um sucesso porque o p\u00fablico foi importante. Os n\u00fameros oficiais falam em 60 mil participantes. Muitos apoiadores de Lula, como CUT, PT, PCdoB e organiza\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas. Alguma presen\u00e7a do MST. Um segundo grupo foram os jovens, estudantes, em grande n\u00famero. O terceiro e menor estrato foram os estrangeiros. Foram poucas delega\u00e7\u00f5es da Fran\u00e7a, EUA, Canad\u00e1 franc\u00f3fono. Havia bem poucos africanos. Era basicamente um F\u00f3rum brasileiro. Isso nos indica algo sobre o per\u00edmetro do F\u00f3rum. N\u00e3o havia a consist\u00eancia habitual, internacional, dos FSM. Isso nos diz algo sobre o desinvestimento militante internacional em rela\u00e7\u00e3o ao FSM. A participa\u00e7\u00e3o estrangeira \u00e9 uma participa\u00e7\u00e3o estrutural de organismos internacionais, ONGs, associa\u00e7\u00f5es, sindicatos, que enviam seus profissionais. \u00c9 mais a estrutura do que a base militante que vem. Mas foi um sucesso em termos de p\u00fablico, bons debates, cerca de 1600 atividades, tudo isso foi bom. Mas a rela\u00e7\u00e3o com Lula foi menos bem articulada.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em><span style=\"color: #000000;\">Como assim?<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A articula\u00e7\u00e3o entre a vinda de Lula e o F\u00f3rum n\u00e3o foi muito boa, ele n\u00e3o veio ao F\u00f3rum. Fez reuni\u00f5es fora, com pessoas que participavam do F\u00f3rum. Lan\u00e7amento do comit\u00ea internacional de solidariedade a Lula e \u00e0 democracia. Depois se reuniu com representantes das organiza\u00e7\u00f5es presentes no F\u00f3rum. \u00c0 noite fez um ato no est\u00e1dio do Pitua\u00e7u, em Salvador. O est\u00e1dio estava bem vazio. Pareceu um problema de organiza\u00e7\u00e3o do PT, de comunica\u00e7\u00e3o. E o est\u00e1dio \u00e9 longe do centro da cidade, de relativamente dif\u00edcil acesso. Sem sistema de transporte do F\u00f3rum at\u00e9 l\u00e1. Acho que isso sinaliza uma dificuldade atual do PT em mobilizar. O discurso de Lula, no entanto, foi excelente. Infelizmente, poucas pessoas estavam l\u00e1 para ouvir. Ele reafirmou que n\u00e3o vai se opor \u00e0 Justi\u00e7a, mas que ser\u00e1 candidato porque \u00e9 inocente, que est\u00e1 tranquilo. Se for preso, ser\u00e1 um inocente preso, e continuar\u00e1 a lutar da pris\u00e3o. Como estrangeiro, fiquei surpreso de ver como o ato n\u00e3o foi transmitido nem mencionado em nenhum canal de TV, nem mesmo regional. \u00c9 incr\u00edvel e muito violenta essa invisibilidade.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em><span style=\"color: #000000;\">A que limites do F\u00f3rum se refere acima?<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A f\u00f3rmula est\u00e1 engessada, e n\u00e3o creio que se transformar\u00e1. N\u00e3o sei nem mesmo se haver\u00e1 um pr\u00f3ximo FSM. Do F\u00f3rum nasceram n\u00facleos, redes, elos internacionais tem\u00e1ticos. Essas estruturas menores v\u00e3o sobreviver. Essa \u00e9 a nova etapa. N\u00e3o me parece que o F\u00f3rum ainda tenha algo a oferecer nesse formato. O FSM \u00e9 um evento e um processo que datam de uma \u00e9poca que passou: o mundo de antes de 2008, de antes da crise internacional. Passamos de uma \u00e9poca em que o desafio era construir outra globaliza\u00e7\u00e3o (l\u2019altermondialisation). O tempo de hoje \u00e9 caracterizado por uma fobia da globaliza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 mais a mesma coisa.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Tamb\u00e9m passamos de um tempo em que as lutas sociais e pol\u00edticas estavam muito fortes na Am\u00e9rica Latina, eram o resultado de um processo que havia come\u00e7ado 20 anos antes na regi\u00e3o, de abertura. E encontravam uma materializa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nos primeiros governos de transforma\u00e7\u00e3o social que chegavam ao poder na AL. E o FSM funcionava porque era o espa\u00e7o onde se combinavam e se articulavam estas duas din\u00e2micas, de baixo para cima e de cima para baixo. E isso dava uma for\u00e7a extraordin\u00e1ria ao encontro, que nos beneficiava a todos. Dava-nos mais for\u00e7a do que t\u00ednhamos de fato, por exemplo, na Europa. Volt\u00e1vamos com muita esperan\u00e7a. E durante todos estes anos o FSM permitiu que fossem criadas essas redes de movimentos internacionais, que levaram anos para se estreitar, se conhecer, criar campanhas e agendas comuns. S\u00e3o ramifica\u00e7\u00f5es menos vis\u00edveis que o pr\u00f3prio F\u00f3rum, mas vivas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">E ent\u00e3o veio 2008. E o FSM n\u00e3o est\u00e1 mais adaptado \u00e0 realidade atual. Primeiro porque perdemos a batalha da \u201coutra globaliza\u00e7\u00e3o\u201d diante da precipita\u00e7\u00e3o da crise, da acelera\u00e7\u00e3o das tens\u00f5es, dos conflitos, das guerras, da ascens\u00e3o dos nacionalismos etc. E hoje vemos que nos setores mais populares, seja aqui no Brasil, seja no Hemisf\u00e9rio Norte, n\u00e3o h\u00e1 mais esperan\u00e7a na globaliza\u00e7\u00e3o. H\u00e1 uma rejei\u00e7\u00e3o a ela. Esta batalha n\u00f3s perdemos. Segundo problema do FSM: n\u00e3o s\u00f3 a forma de organiza\u00e7\u00e3o foi ultrapassada pelo contexto, n\u00e3o responde mais \u00e0 realidade, como a batalha \u00e0 qual nos lan\u00e7amos n\u00e3o foi ganha. Ent\u00e3o nos encontramos nesse momento de perda de hegemonia. Este FSM \u00e9 o reflexo de algo que n\u00e3o existe mais como din\u00e2mica, existe como um espectro que guardamos dos encontros passados. N\u00e3o tem mais o peso que tinha na cena pol\u00edtica mundial. Houve um esgotamento.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em><span style=\"color: #000000;\">Se de fato o F\u00f3rum Social Mundial n\u00e3o vier mais a ocorrer, o que sobreviver\u00e1, qual seu legado?<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O FSM tem caracter\u00edsticas que nenhum outro espa\u00e7o conseguiu substituir. Para as organiza\u00e7\u00f5es\u00a0&#8211; sindicatos, associa\u00e7\u00f5es, movimentos de mulheres\u00a0&#8211; o FSM \u00e9 um espa\u00e7o de encontro e de trabalho ainda \u00fanico. Esse espa\u00e7o n\u00e3o pode se perder, mas talvez passe a ter outro nome que n\u00e3o F\u00f3rum Social Mundial, adaptado a este per\u00edodo p\u00f3s-2008, em que n\u00e3o temos mais a lideran\u00e7a da ideologia, perdemos o poder de organiza\u00e7\u00e3o. E por isso mesmo ainda \u00e9 preciso resistir, trabalhar juntos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Os atores destes movimentos continuar\u00e3o ativos por muito tempo, e isso \u00e9 positivo. As pessoas que participam e participaram dos FSM fazem um trabalho de f\u00f4lego, de longo prazo, e existem hoje no mundo essas cadeias e redes de movimentos de resist\u00eancia e contesta\u00e7\u00e3o que se organizam no n\u00edvel internacional. Que fazem um trabalho de campo e buscam formas de atua\u00e7\u00e3o e luta comum. Isso \u00e9 uma conquista que n\u00e3o se perder\u00e1.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Os grandes temas do F\u00f3rum 2018 foram a juventude e as mulheres. N\u00e3o me surpreendeu, pois nesse momento de refluxo que vivemos, o movimento feminista \u00e9 o que est\u00e1 mais forte. Hoje, s\u00e3o as lutas setoriais e identit\u00e1rias que est\u00e3o mais fortalecidas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em><span style=\"color: #000000;\">O que \u00e9, ali\u00e1s, criticado por parte da esquerda como uma pulveriza\u00e7\u00e3o das lutas. O que acha desta cr\u00edtica?<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Talvez os cr\u00edticos tenham um pouco de raz\u00e3o e hoje a dificuldade \u00e9 conseguir reunir a resist\u00eancia em torno da luta de classes, e saber como rearticul\u00e1-la. Mas a esquerda n\u00e3o tem mais conseguido fazer isso. Porque tudo mudou. Hoje, somos confrontados a processos capitalistas de produ\u00e7\u00e3o que transformaram completamente a sociologia da condi\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria tradicional, as rela\u00e7\u00f5es de poder entre trabalhador e capital, e n\u00e3o compreendemos o fen\u00f4meno ainda em sua totalidade. Al\u00e9m disso, o movimento oper\u00e1rio ainda est\u00e1 sob o impacto do desmoronamento de seu imagin\u00e1rio, ainda n\u00e3o se superou o fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, e este movimento popular n\u00e3o tem mais um imagin\u00e1rio global. O que h\u00e1 s\u00e3o as lutas setoriais. \u00c9 o momento em que estamos, e que deve durar muito tempo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em><span style=\"color: #000000;\">Como entender por que, mesmo diante de tantos ataques neoliberais aos direitos trabalhistas, \u00e0 aposentadoria, ao servi\u00e7o p\u00fablico, que ocorrem no Brasil desde o golpe, parte da classe trabalhadora pare\u00e7a anestesiada?<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u00c9 um movimento mundial. Na Fran\u00e7a, o presidente Emmanuel Macron promete privatizar a empresa ferrovi\u00e1ria estatal (SNCF), al\u00e9m de mexer nos direitos trabalhistas, entre outras reformas neoliberais. E vai ser dif\u00edcil impedi-lo. O discurso da moderniza\u00e7\u00e3o foi adotado pela grande m\u00eddia. O que falta aos trabalhadores hoje \u00e9 esperan\u00e7a. N\u00e3o h\u00e1 mais ningu\u00e9m dizendo e mostrando que um outro mundo \u00e9 poss\u00edvel (slogan do FSM). As pessoas hoje querem apenas se proteger um pouco e perder o menos poss\u00edvel. N\u00e3o est\u00e3o mais dispostas a se engajar em lutas ao nosso lado, quando dizemos \u2018n\u00f3s somos o futuro\u2019. N\u00e3o, por ora n\u00f3s perdemos. E isso \u00e9 doloroso. \u00c9 um momento de reorganiza\u00e7\u00e3o ou, mais ainda, de reconfigura\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em><span style=\"color: #000000;\">Como v\u00ea a possibilidade de uma pris\u00e3o de Lula, e a postura do Partido dos Trabalhadores de manter a candidatura at\u00e9 o fim?<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u00c9 uma estrat\u00e9gia arriscada. Lula \u00e9 critic\u00e1vel, evidentemente, seu legado, suas ambiguidades. Ou\u00e7o muita gente da esquerda se perguntar: mesmo se Lula ganhar, que governo ele far\u00e1? Muitos temem que ele continue a trabalhar neste sistema com o PMDB de sempre. Que entre enfraquecido, e seja novamente obrigado a fazer concess\u00f5es \u00e0 direita. Que n\u00e3o seja mais capaz de propor um novo pacto entre trabalho e capital. Por\u00e9m, ainda que todas essas cr\u00edticas e temores sejam leg\u00edtimos, a dificuldade da esquerda \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 hoje uma alternativa a Lula. Conheci Guilherme Boulos na Bahia, ele \u00e9 brilhante. O problema \u00e9 que qualquer outro candidato de esquerda que n\u00e3o tenha o apoio de Lula ser\u00e1 facilmente derrotado.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A dificuldade da esquerda, que \u00e9 um fracasso tamb\u00e9m de Lula e do PT, \u00e9 n\u00e3o ter constru\u00eddo um sucessor de Lula. Ao mesmo tempo, se Lula simplesmente aceitar sua senten\u00e7a e retirar sua candidatura, acabou. Se Lula se mant\u00e9m candidato, me parece um meio de impedir que a elei\u00e7\u00e3o normalize a crise democr\u00e1tica no Brasil. \u00c9 mostrar que o pa\u00eds permanece em uma crise democr\u00e1tica que n\u00e3o foi resolvida. O que vem depois n\u00e3o se sabe, \u00e9 algo totalmente in\u00e9dito. O fato \u00e9 que Lula continua a ser incontorn\u00e1vel para a pol\u00edtica brasileira. E acho interessante que sua candidatura sirva para impor um estado de crise permanente.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em><span style=\"color: #000000;\">Segundo as pesquisas, Lula n\u00e3o tem concorrentes nem \u00e1 esquerda nem \u00e0 direita, ali\u00e1s.<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Ontem, chegando ao Rio, peguei um t\u00e1xi. O motorista era muito simp\u00e1tico. Comecei a puxar assunto sobre a pol\u00edtica brasileira, dizendo como estava tudo complicado. Perguntei sobre Marielle Franco. Ele disse: \u201cAh, ela era mulher de um traficante e trabalhava para o Comando Vermelho&#8230;\u201d E Lula?, perguntei. \u201cAh, um corrupto\u201d, ele respondeu. Ok. E Temer?, emendei. \u201cPior ainda\u201d, disse. \u00c9 uma loucura a deprecia\u00e7\u00e3o da classe pol\u00edtica, e a descren\u00e7a na pol\u00edtica em geral que senti aqui. Uma resigna\u00e7\u00e3o e um acomodamento. O problema deste tipo de descr\u00e9dito da pol\u00edtica \u00e9 que ele \u00e9 prop\u00edcio ao fascismo. Porque a direita est\u00e1 mal tamb\u00e9m. Eles n\u00e3o t\u00eam ningu\u00e9m.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong><span style=\"color: #000000;\">Hoje, v\u00e1rios presidentes ou ex-presidentes de pa\u00edses latinoamericanos est\u00e3o presos ou s\u00e3o acusados de corrup\u00e7\u00e3o\u00a0&#8211; todos, n\u00e3o por acaso, progressistas. Argentina, Brasil, Equador, Peru, Chile e tiveram seus recentes processos eleitorais influenciados ou abalados por quest\u00f5es jur\u00eddicas. Concorda com alguns analistas que afirmam que o Lawfare na Am\u00e9rica Latina \u00e9 a nova face da Opera\u00e7\u00e3o Condor?<\/span><\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u00c9 uma boa an\u00e1lise. A Am\u00e9rica Latina hoje nos mostra como novos tipos de regimes pol\u00edticos s\u00e3o implementados. S\u00e3o regimes neoliberais do ponto de vista econ\u00f4mico e social, e autorit\u00e1rios e securit\u00e1rios do ponto de vista pol\u00edtico e democr\u00e1tico\u00a0&#8211; como vemos agora com a interven\u00e7\u00e3o militar no estado do Rio. O objetivo \u00e9 duplo: confiscar e reduzir os direitos sociais e democr\u00e1ticos e reprimir, de formas diversas, qualquer forma de contesta\u00e7\u00e3o. Uma dessas formas sendo a justamente a judicializa\u00e7\u00e3o da vida p\u00fablica. A Am\u00e9rica Latina \u00e9 o laborat\u00f3rio desta tend\u00eancia, deste tipo de regime que veremos surgir, infelizmente, em toda parte. A quest\u00e3o legal vai se tornar uma arma de elimina\u00e7\u00e3o dos advers\u00e1rios. Essa quest\u00e3o do Lawfare \u00e9 muito subestimada na Europa, para n\u00e3o dizer desconhecida mesmo. \u00c9 preciso que se fale mais nisso, pois penso que em breve chegar\u00e1 a outras regi\u00f5es do mundo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em><span style=\"color: #000000;\">Como \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o da Europa sobre a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no Brasil?<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">H\u00e1 um desinteresse, uma ignor\u00e2ncia midi\u00e1tica do que se passa na regi\u00e3o, que n\u00e3o s\u00e3o novos. Mas que s\u00e3o graves nas circunst\u00e2ncias atuais, porque a maioria n\u00e3o entende nada do que est\u00e1 acontecendo. E ningu\u00e9m fala desse assunto. Quando algu\u00e9m usa a palavra Golpe, imediatamente outros, at\u00e9 na m\u00eddia, v\u00eam dizer que \u00e9 exagero, que tudo est\u00e1 normal por aqui. A impress\u00e3o \u00e9 que o \u00fanico problema na Am\u00e9rica Latina \u00e9 a Venezuela, e talvez Cuba. Sobre a Venezuela, a m\u00eddia diz que \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o de extrema gravidade, que \u00e9 uma ditadura. No resto est\u00e1 tudo bem: o M\u00e9xico e o Brasil s\u00e3o pa\u00edses com os quais n\u00e3o devemos nos preocupar. Claro, h\u00e1 o problema da viol\u00eancia, mas \u00e9 devido \u00e0 pobreza, \u00e0 falta de organiza\u00e7\u00e3o, \u00e0 fragilidade das institui\u00e7\u00f5es. Tudo isso \u00e9 real. Mas nunca h\u00e1 uma an\u00e1lise estrutural. E de todo modo, o mais comum \u00e9 que a m\u00eddia estrangeira repita a propaganda da m\u00eddia local, que \u00e9 de direita. Isso faz parte de uma crise maior da imprensa francesa, no caso. Os grandes ve\u00edculos foram sendo comprados por grandes grupos empresariais, e n\u00e3o h\u00e1 mais jornalistas que conhecem os pa\u00edses dos quais devem falar. Eles leem as ag\u00eancias de not\u00edcias e os grandes jornais e repetem. E os jornais descrevem a situa\u00e7\u00e3o como uma telenovela. Ent\u00e3o \u00e9 natural que as pessoas n\u00e3o entendam o que se passa no Brasil, o que est\u00e1 em jogo. Na Fran\u00e7a, n\u00e3o se enxerga a import\u00e2ncia da situa\u00e7\u00e3o latino-americana atual.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em><span style=\"color: #000000;\">O especialista em direitos humanos da ONU, Alfred de Zayas, afirmou recentemente que n\u00e3o h\u00e1 crise humanit\u00e1ria na Venezuela, e que s\u00e3o justamente as san\u00e7\u00f5es internacionais que amea\u00e7am a estabilidade do pa\u00eds. \u00c9 poss\u00edvel ser otimista em rela\u00e7\u00e3o ao futuro do pa\u00eds? Pensa que Maduro e a popula\u00e7\u00e3o venezuelana v\u00e3o sobreviver \u00e0 campanha de diaboliza\u00e7\u00e3o internacional, travestida de preocupa\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria?<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Espero que o povo venezuelano resista. Penso que n\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o sem o chavismo no pa\u00eds. Acredito que os americanos e europeus n\u00e3o ser\u00e3o capazes de uma interven\u00e7\u00e3o internacional no pa\u00eds, que transformaria o pa\u00eds numa S\u00edria latino-americana. Se houver uma interven\u00e7\u00e3o, o pa\u00eds vai explodir. H\u00e1 um n\u00facleo chavista, que representa pelo menos 30% a 35% da popula\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o ceder\u00e1 jamais \u00e0 press\u00e3o. Haveria uma guerra civil, como na S\u00edria, se acontecesse uma interven\u00e7\u00e3o, que eu espero que n\u00e3o ocorra. Espero que se encontrem outras solu\u00e7\u00f5es. Creio que enquanto o ex\u00e9rcito apoiar Maduro, eles resistem.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Maduro est\u00e1 certo quando solicita que a ONU envie observadores para as elei\u00e7\u00f5es. \u00c9 preciso que essas elei\u00e7\u00f5es de 20 de maio permitam relegitimar a pol\u00edtica, e n\u00e3o o enfrentamento\u00a0&#8211; esta tem sido, ali\u00e1s, a linha de Maduro at\u00e9 hoje. Quem quer a confus\u00e3o, o conflito, \u00e9 uma parte da oposi\u00e7\u00e3o, pois sabe que n\u00e3o ganha as elei\u00e7\u00f5es. Tudo indica que Maduro v\u00e1 ganhar as elei\u00e7\u00f5es. No sistema eleitoral venezuelano, ganha o primeiro colocado (em \u00fanico turno). Se Maduro fizer 25% dos votos, pode parecer pouco, mas se os advers\u00e1rios fizerem 5% ou 7%, ele \u00e9 reeleito. Que a situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds est\u00e1 ruim \u00e9 ineg\u00e1vel. Mas essa elei\u00e7\u00e3o precisa acontecer e tudo precisa correr bem para que o pa\u00eds saia dessa situa\u00e7\u00e3o de crise aguda.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong><span style=\"color: #000000;\">Voc\u00ea falou da crescente concentra\u00e7\u00e3o da m\u00eddia na Fran\u00e7a. Este \u00e9 um dos graves problemas no Brasil, que os governos de esquerda n\u00e3o enfrentaram. Segundo \u00faltimo relat\u00f3rio da ONG &#8216;Rep\u00f3rteres Sem Fronteiras&#8217;, o Brasil \u00e9 o pa\u00eds com menos pluralidade de m\u00eddia entre os pa\u00edses analisados. O resultado pr\u00e1tico \u00e9 um debate p\u00fablico interditado sobre certos temas que n\u00e3o interessam o grande capital, que \u00e9 patrocinador (ou dono) destes ve\u00edculos, ou coberturas enviesadas. \u00c9 poss\u00edvel falar em democracia com tal quadro de concentra\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o?<\/span><\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Neste contexto, podemos falar de democracia formal, formalmente plural, porque temos escolha entre uma s\u00e9rie de op\u00e7\u00f5es apresentadas numa prateleira. S\u00f3 que todos os produtos s\u00e3o iguais. T\u00eam diferentes cores, nomes e formatos mas s\u00e3o a mesma coisa. N\u00e3o h\u00e1 pluralidade real, ao contr\u00e1rio.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Na Fran\u00e7a, vivemos um movimento de concentra\u00e7\u00e3o parecido. Hoje, nove empres\u00e1rios bilion\u00e1rios det\u00eam 90% dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, entre ve\u00edculos de TV, r\u00e1dio, imprensa e internet. H\u00e1 uma concentra\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica diretamente ligada \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o da propriedade e que se exprime por uma multiplicidade de produtos similares. \u00c9 uma farsa. Sendo assim, n\u00e3o podemos falar de democracia plena. \u00c9 mais uma limita\u00e7\u00e3o da democracia liberal. E isso \u00e9 agravado em pa\u00edses como o Brasil, onde h\u00e1 milh\u00f5es de analfabetos, e muita gente ainda se informa apenas pela TV.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em><span style=\"color: #000000;\">Para piorar, h\u00e1 o advento das redes sociais e, sobretudo do Whatsapp, onde as mentiras se espalham numa velocidade alucinante\u00a0&#8211; como a hist\u00f3ria falsa sobre Marielle trabalhar para o tr\u00e1fico que ouviu do taxista. Por outro lado, a discuss\u00e3o sobre as fake news no Brasil foi sequestrada pela m\u00eddia de direita que, ao lado do governo, quer criar restri\u00e7\u00f5es e justificar controles para asfixiar a m\u00eddia alternativa. Como tem sido este debate na Fran\u00e7a?<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Sempre houve fake news, claro, mas hoje alcan\u00e7am outra velocidade. Na Fran\u00e7a, estamos mergulhados nessa discuss\u00e3o. O governo Macron anunciou que far\u00e1 uma lei sobre as fake News na Fran\u00e7a, que pretende instaurar uma esp\u00e9cie de controle feito pelo governo e pelo parlamento para retirar informa\u00e7\u00f5es falsas\u00a0&#8211; a quest\u00e3o \u00e9 que quem decide que elas s\u00e3o falsas \u00e9 o governo. Na Fran\u00e7a, o pretexto \u00e9 a suposta guerra de informa\u00e7\u00e3o da R\u00fassia, que teria influenciado as elei\u00e7\u00f5es americanas. E com essa justificativa, cria-se uma lei para controlar o que circula nas redes sociais e para ter a possibilidade de proibir certos conte\u00fados. Hoje, existe um discurso anti-Putin que domina a opini\u00e3o p\u00fablica francesa. Ele \u00e9 o inimigo contra o qual o sistema precisa lutar. Como diria Julian Assange, em nome do princ\u00edpio democr\u00e1tico e da liberdade de express\u00e3o, criam-se leis contra a liberdade de express\u00e3o. Ela \u00e9 reduzida em nome de sua prote\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O Le Monde acabou de lan\u00e7ar, por exemplo, um mecanismo de busca chamado D\u00e9codex que pretende mostrar ao leitor que fontes s\u00e3o confi\u00e1veis e quais n\u00e3o s\u00e3o. E quem pretende dizer isso \u00e9 um jornal que hoje \u00e9 reacion\u00e1rio, que foi um dos principais apoiadores de Macron, se posiciona contra o que chamam de \u201cpopulismo\u201d e contra os sindicatos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong><span style=\"color: #000000;\">H\u00e1 bons ventos para a esquerda na Europa?<\/span><\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A esquerda vive um ciclo de baixa na Europa, est\u00e1 claro. Na Espanha, o Podemos parece ter atingido um teto, e n\u00e3o soube se posicionar na quest\u00e3o da Catalunha. Na It\u00e1lia, a esquerda foi massacrada na \u00faltima elei\u00e7\u00e3o. Fizeram menos votos que os neofascistas. E o Cinco Estrelas \u00e9 um mist\u00e9rio. Destruiu a esquerda e a direita e n\u00e3o se sabe como far\u00e1 para governar, pois precisa se aliar a outras for\u00e7as, e n\u00e3o se sabe se v\u00e3o para a esquerda ou para a direita. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o interessante, mas a esquerda italiana est\u00e1 morta. Na Fran\u00e7a, temos o Macronismo, que \u00e9 um transformismo, ou seja, uma constru\u00e7\u00e3o que consegue integrar elementos da esquerda e da direita para salvar o sistema, com essa cara de movimento novo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Mas h\u00e1 movimentos interessantes. Primeiro, Jean-Luc M\u00e9lenchon, do movimento France Insoumise (Fran\u00e7a Insubmissa). Sua campanha no ano passado foi formid\u00e1vel, ele fez o melhor resultado na esquerda, com quase 20% dos votos. Um resultado muito melhor do que os sociais-democratas do Partido Socialista (o PS fez pouco mais de 6% com Benoit Hamon). E isso abre uma situa\u00e7\u00e3o interessante no pa\u00eds. Mas a situa\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais tamb\u00e9m \u00e9 fraca, os sindicatos est\u00e3o divididos, perdem influ\u00eancia, e um movimento pol\u00edtico que n\u00e3o tem apoio em movimentos sociais \u00e9 necessariamente limitado, pois \u00e9 quando caminham juntos que se tornam algo poderoso. As condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o as melhores para n\u00f3s hoje, mas com o movimento France Insoumise, hoje estamos em uma situa\u00e7\u00e3o bem mais forte do que aquela em que a esquerda estava h\u00e1 dois ou tr\u00eas anos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O segundo ponto positivo \u00e9 Jeremy Corbyn na Inglaterra, que resiste no comando do Partido Trabalhista, e est\u00e1 construindo um movimento importante no pa\u00eds.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em><span style=\"color: #000000;\">E a alian\u00e7a transnacional europeia proposta por Benoit Hamon e Yanis Varoufakis, \u00e9 uma boa not\u00edcia?<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Estou em total desacordo com este movimento. Penso que o que ele vende \u00e9 uma ilus\u00e3o, como se fosse poss\u00edvel criar uma corrente de esquerda na Europa sem mudar a Europa. \u00c9 uma ilus\u00e3o que vai acabar alimentando a extrema direita. \u00c9 um movimento que n\u00e3o assume uma ruptura com a Europa (Uni\u00e3o Europeia), e \u00e9 a\u00e9reo, sem penetra\u00e7\u00e3o real. A Europa (UE) vai existir dessa forma por muito tempo, em estado de crise permanente, ela n\u00e3o vai desmoronar. Mas ela \u00e9 incapaz de se transformar, de se converter em outra coisa. A alian\u00e7a entre as burguesias alem\u00e3 e francesa \u00e9 um sistema ruim, mas como funciona para garantir o poder da Alemanha e da Fran\u00e7a, n\u00e3o haver\u00e1 nenhuma mudan\u00e7a. E hoje a linha da Europa \u00e9: \u201cAme-a ou deixe-a\u201d. Os pa\u00edses ou aceitam fazer parte nas condi\u00e7\u00f5es de quem manda, ou saem do bloco. Para ficar, o pre\u00e7o \u00e9 esse. Por isso n\u00e3o creio em teorias de democratiza\u00e7\u00e3o deste sistema, de cria\u00e7\u00e3o de um novo parlamento. Isso \u00e9 conto de fadas. O poder da Europa \u00e9 o poder dos bancos, do sistema financeiro, das multinacionais europeias, e da classe pol\u00edtica francesa e alem\u00e3.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Haver\u00e1 sempre contradi\u00e7\u00f5es, tens\u00f5es, resist\u00eancias. Mas este \u00e9 o pacote, e ser\u00e1 vivido em estado de crise permanente. As for\u00e7as de contesta\u00e7\u00e3o e de resist\u00eancia n\u00e3o s\u00e3o suficientemente hegem\u00f4nicas hoje para impor uma mudan\u00e7a de correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em><span style=\"color: #000000;\">\u00c9 um momento de reorganiza\u00e7\u00e3o da esquerda, ent\u00e3o.<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Estamos em modo de resist\u00eancia. H\u00e1, por\u00e9m, espa\u00e7os importantes constru\u00eddos na \u00faltima d\u00e9cada. H\u00e1 uma cultura comum de resist\u00eancia em muitos setores, de novo, entre a juventude, as mulheres, e isso poder\u00e1 mudar as coisas aos poucos. Nunca tivemos um n\u00edvel de educa\u00e7\u00e3o, em todo o mundo, t\u00e3o potente como temos hoje. N\u00e3o era assim na \u00e9poca do proletariado. Isso traz alguma transforma\u00e7\u00e3o. N\u00e3o sei dizer como isso vai se articular, mas tudo isso existe. \u00c9 preciso lembrar que a milit\u00e2ncia n\u00e3o vai necessariamente permitir que tomemos o poder amanh\u00e3, mas o trabalho de hoje se inscreve numa temporalidade hist\u00f3rica. Do outro lado, est\u00e3o aqueles que querem conservar seus privil\u00e9gios \u00e0 custa de destrui\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma luta eterna, que est\u00e1 em curso, e aqui estamos para fazer a nossa parte na luta. Esta busca da esperan\u00e7a nunca vai acabar\u00a0&#8211; porque nunca acabou. Esse \u00e9 o trabalho dos intelectuais, dos militantes, dos engajados na pol\u00edtica. O que temos que combater \u00e9 a cultura da divis\u00e3o entre n\u00f3s, temos mais facilidade de nos excluir entre n\u00f3s mesmos do que de nos unir. Nosso desafio \u00e9 manter viva a esperan\u00e7a. A quest\u00e3o \u00e9 saber se conseguiremos encontrar novas formas de organiza\u00e7\u00e3o, e se conseguiremos articular essas novas organiza\u00e7\u00f5es a um novo imagin\u00e1rio que seja um projeto n\u00e3o apenas para os militantes, mas para toda a sociedade. Se os setores da popula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o s\u00e3o militantes se projetar\u00e3o neste futuro e nessa nova sociedade. Estas s\u00e3o as quest\u00f5es que v\u00e3o escrever a hist\u00f3ria de amanh\u00e3.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>{<\/strong> <em>Carta Maior<\/em> <strong>}<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #00ff00;\">\u2022<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #00ff00;\">\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>| Imagem: Reprodu\u00e7\u00e3o\/www | \u21c5 &#8220;Nosso desafio \u00e9 manter viva a esperan\u00e7a&#8221; Carta Maior conversou com o pesquisador franc\u00eas Christophe Ventura, que esteve no Brasil para participar do F\u00f3rum Social Mundial 2018, entre 13 e 17 de mar\u00e7o em Salvador por Clarisse Meireles . \u201cGuardemos o pessimismo para dias melhores\u201d, m\u00e1xima de autor desconhecido, parece [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3258,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[115],"tags":[],"class_list":["post-25952","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-redoble"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25952","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=25952"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25952\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":25960,"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25952\/revisions\/25960"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/3258"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=25952"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=25952"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=25952"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}