{"id":159284,"date":"2026-02-23T17:29:24","date_gmt":"2026-02-23T20:29:24","guid":{"rendered":"http:\/\/aluzerna.com.br\/?p=159284"},"modified":"2026-02-23T17:29:24","modified_gmt":"2026-02-23T20:29:24","slug":"o-popular-e-complexo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aluzerna.com.br\/?p=159284","title":{"rendered":"O popular \u00e9 complexo."},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone\" src=\"http:\/\/www.aluzerna.com.br\/2026\/23-02-2026b.jpg\" alt=\"\" width=\"675\" height=\"388\" \/><\/p>\n<p><span style=\"color: #00ff00;\">\u30ce<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"text-decoration: underline;\"><strong><em><span style=\"color: #000000; text-decoration: underline;\">Ant\u00f4nio N\u00f3brega critica mercantiliza\u00e7\u00e3o do Carnaval e defende complexidade das culturas populares: &#8220;O povo organiza, ele \u00e9 criador&#8221;<\/span><\/em><\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><span style=\"color: #000000;\">Multiartista pernambucano analisa transforma\u00e7\u00f5es da folia, o lugar secund\u00e1rio dos caboclinhos e a urg\u00eancia de entender a riqueza simb\u00f3lica do povo<\/span><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><span style=\"color: #000000;\">por Luana Ibelli e Tabitha Ramalho<\/span><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Carnaval \u00e9 corpo na rua, cultura viva, encontro, disputa e inven\u00e7\u00e3o. Mas o que acontece quando a festa se afasta das camadas populares que a criaram? Para o multiartista e pesquisador Ant\u00f4nio N\u00f3brega, 73 anos, um dos mais profundos int\u00e9rpretes da cultura popular brasileira, o Carnaval vive uma tens\u00e3o crescente entre a mercantiliza\u00e7\u00e3o e a riqueza simb\u00f3lica das manifesta\u00e7\u00f5es tradicionais. Ao <em>BdF Entrevista<\/em>, da R\u00e1dio Brasil de Fato, ele reflete sobre as transforma\u00e7\u00f5es da festa, o papel dos artistas e a urg\u00eancia de olhar para as culturas populares com a complexidade que elas merecem.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Nascido e criado em Pernambuco, N\u00f3brega passou d\u00e9cadas imerso no universo dos caboclinhos, maracatus, tro\u00e7as e frevos. Hoje, ele se apresenta em palcos oficiais do Recife, mas confessa um certo deslocamento. \u201cEu n\u00e3o diria que completamente deslocado, mas sinto que o meu trabalho n\u00e3o est\u00e1 indo, ele n\u00e3o \u00e9 assim cem por cento adequado \u00e0 festa do Carnaval\u201d, admite. Para ele, a dificuldade est\u00e1 na pouca disposi\u00e7\u00e3o do p\u00fablico em absorver novidades que partem de ritmos tradicionais, mas que n\u00e3o se repetem como as marchas e frevos consagrados.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u201cExistem m\u00fasicas que j\u00e1 se tornaram cl\u00e1ssicas no Carnaval pernambucano. Todo mundo pede para cantar. Mas eu crio coisas novas, tenho frevos, marchas de bloco, m\u00fasicas no ritmo do caboclinho, do maracatu rural. S\u00f3 que elas n\u00e3o t\u00eam a divulga\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para que, na festa, elas tenham ades\u00e3o popular\u201d, explica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Para N\u00f3brega, o Recife exibe dois carnavais distintos. De um lado, o dos palcos oficiais\u00a0&#8211; como o Marco Zero -, onde se apresentam artistas de proje\u00e7\u00e3o nacional e regional. \u201cEsse \u00e9, de certa forma, o carnaval da classe m\u00e9dia, da classe dominante, do qual participo.\u201d De outro, as manifesta\u00e7\u00f5es populares que desfilam em ruas laterais, como os caboclinhos e maracatus, com suas disputas e premia\u00e7\u00f5es. \u201cEsse carnaval \u00e9 quase como um pano de fundo simb\u00f3lico. A gente fala muito de frevo, muito de maracatu, mas eles n\u00e3o est\u00e3o no primeiro plano. O p\u00fablico vai para nos assistir.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Ele ressalta que h\u00e1 grupos jovens que saem \u00e0s ruas tocando tambores de maracatu, mas a preval\u00eancia da m\u00fasica mercantilizada \u00e9 esmagadora. \u201cO Carnaval mercantilizado dos cantores que est\u00e3o na m\u00eddia tem uma preval\u00eancia muito grande em detrimento dos artistas locais e dos grupos populares.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em><span style=\"color: #000000;\">A complexidade escondida do &#8220;povo&#8221;<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">N\u00f3brega critica a vis\u00e3o reducionista que trata as manifesta\u00e7\u00f5es populares como algo espont\u00e2neo, desorganizado ou meramente folcl\u00f3rico. \u201cO povo organiza, ele \u00e9 criador. Dizem que o povo \u00e9 desleixado, que \u00e9 bagun\u00e7a. Mas quando voc\u00ea se depara com o nascimento do passo, que organiza uma gram\u00e1tica a partir do frevo, ou com os ensaios de caboclinho, que seguem uma sucess\u00e3o de passos puxados por um mestre, voc\u00ea v\u00ea que aquilo \u00e9 codificado, organizado.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Ele questiona por que, dentro de uma festa carnavalesca, nasceu uma dan\u00e7a t\u00e3o rica de movimentos e passos com nomes espec\u00edficos. \u201cO que provocou aquilo? A antropologia poderia tentar responder. O povo brasileiro e suas produ\u00e7\u00f5es n\u00e3o podem ser colocados num patamar folcl\u00f3rico inferior. A forma como entendemos o povo passa pelo simb\u00f3lico, pelo que ele produz.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"color: #000000;\">.<\/span><\/strong><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"YouTube video player\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/6DfDjcRtDv4?si=8uU_1k_UqD0tXLoR\" width=\"675\" height=\"380\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"color: #000000;\">.<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Para ilustrar, N\u00f3brega recorre ao galope \u00e0 beira-mar, uma forma po\u00e9tica de origem popular, de dez versos e onze s\u00edlabas, com rimas e pros\u00f3dias espec\u00edficas. Ele cita uma can\u00e7\u00e3o sua em parceria com Br\u00e1ulio Tavares, composta dentro desses moldes. \u201c\u00c9 uma forma complexa, tal como um soneto. Isso nos obriga a colocar um conte\u00fado que obede\u00e7a a essa estrutura. Tanto quem faz como quem escuta entram num campo complexo.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O artista defende que o Carnaval pode e deve ser um espa\u00e7o de reflex\u00e3o. \u201cEu tenho uma embolada chamada \u2018Burusu\u2019 (confus\u00e3o, mutreta), em que fa\u00e7o uma cr\u00edtica ao mundo das redes, da intelig\u00eancia artificial. Dentro do ritmo da embolada, que seria o equivalente ao rap, eu for\u00e7o um pouco. N\u00e3o sei se o p\u00fablico est\u00e1 disposto a ouvir isso, mas acho que o Carnaval tamb\u00e9m deve ser um momento de ver criticamente o mundo.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Ele lembra que os frevos de Capiba j\u00e1 abordavam temas como o respeito \u00e0 mulher e os vestibulandos. \u201cE isso est\u00e1 desaparecendo, justamente quando o mundo mais precisa. A festa n\u00e3o precisa ser vazia. A gente tamb\u00e9m faz festa para pensar, para se rebelar.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">N\u00f3brega vai al\u00e9m: \u201cEm ess\u00eancia, o Carnaval sempre foi uma revolta. Era um dia para as pessoas fazerem aquilo que n\u00e3o faziam durante o ano. Mas acho que a gente poderia ativ\u00e1-lo mais.\u201d Ele cita a trag\u00e9dia grega, que nasceu das festas dionis\u00edacas, e pergunta: \u201cPor que n\u00e3o ter no Carnaval um grande teatro aberto, onde se tragam temas do Brasil, inseridos na festa?\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">H\u00e1 anos, N\u00f3brega trabalha em um livro que busca historicizar e contextualizar o mundo cultural popular. \u201c\u00c9 um universo mal visto, no sentido de que n\u00e3o \u00e9 compreendido. Passei d\u00e9cadas em contato com mestres, vi a riqueza disso, e me vi na obriga\u00e7\u00e3o de escrever.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Ele quer responder a perguntas como: por que nasce uma dan\u00e7a t\u00e3o rica dentro de uma festa? O que revela sobre a psicologia do homem popular? \u201cO simb\u00f3lico \u00e9 uma representa\u00e7\u00e3o. Se a representa\u00e7\u00e3o traz valores positivos, isso pode repercutir no plano social. A gente tende a colocar o povo num patamar inferior, mas suas formas s\u00e3o complexas e podem transcender o universo onde vigora.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Para ele, a chave est\u00e1 em entender que o popular \u00e9 complexo. \u201cN\u00e3o vai ser com pensamentos banais e simples que a gente vai se defender da charada do mundo atual. A arte pode abrir nossa consci\u00eancia. E a gente tem um acervo imenso para isso.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"text-decoration: underline;\">Editado por<\/span>: <em>Lu\u00eds Indriunas<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>{<\/strong> <em><em>Brasil de Fato<\/em><\/em> <strong>}<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #00ff00;\">\u21ca<\/span><\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">. <span style=\"text-decoration: underline;\">Fotografia<\/span>:<\/span><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">&#8220;Reprodu\u00e7\u00e3o\/YouTube&#8221;<\/span><\/h6>\n<h6><span style=\"color: #000000;\"><strong>.<\/strong><\/span><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">. <span style=\"text-decoration: underline;\">V\u00eddeo<\/span>:<\/span><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">&#8220;&#8216;Meu carnaval foi sempre ligado ao das camadas populares&#8217; | BdF Entrevista Ant\u00f4nio N\u00f3brega &#8211; &#8216;Reprodu\u00e7\u00e3o\/YouTube'&#8221;<\/span><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #00ff00;\">\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u30ce Ant\u00f4nio N\u00f3brega critica mercantiliza\u00e7\u00e3o do Carnaval e defende complexidade das culturas populares: &#8220;O povo organiza, ele \u00e9 criador&#8221; Multiartista pernambucano analisa transforma\u00e7\u00f5es da folia, o lugar secund\u00e1rio dos caboclinhos e a urg\u00eancia de entender a riqueza simb\u00f3lica do povo por Luana Ibelli e Tabitha Ramalho Carnaval \u00e9 corpo na rua, cultura viva, encontro, disputa [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1356,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11],"tags":[],"class_list":["post-159284","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultrasonico"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/159284","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=159284"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/159284\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":159306,"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/159284\/revisions\/159306"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1356"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=159284"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=159284"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=159284"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}