{"id":148422,"date":"2025-07-14T13:04:48","date_gmt":"2025-07-14T16:04:48","guid":{"rendered":"http:\/\/aluzerna.com.br\/?p=148422"},"modified":"2025-07-14T13:04:48","modified_gmt":"2025-07-14T16:04:48","slug":"simulacaorealidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aluzerna.com.br\/?p=148422","title":{"rendered":"Simula\u00e7\u00e3o\/Realidade"},"content":{"rendered":"<h6><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone\" src=\"http:\/\/www.aluzerna.com.br\/2025\/14-07-2025b.jpg\" alt=\"\" width=\"375\" height=\"305\" \/><br \/>\n<span style=\"color: #000000;\">| Reprodu\u00e7\u00e3o\/www |<\/span><\/h6>\n<p><span style=\"color: #00ff00;\">\u21c5<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"text-decoration: underline;\"><em><span style=\"color: #000000; text-decoration: underline;\">Amor \u00e0s m\u00e1quinas: como afeto humano por IAs evoluiu do cinema para a vida real<\/span><\/em><\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><span style=\"color: #000000;\">Capazes de compreender e simular emo\u00e7\u00f5es, IAs podem se mostrar mais atrativas que rela\u00e7\u00f5es humanas reais, explicam especialistas. Como frear o problema?<\/span><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><span style=\"color: #000000;\">por George Ricardo Guariento<\/span><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Desde os prim\u00f3rdios da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, a rela\u00e7\u00e3o entre humanos e m\u00e1quinas \u00e9 um tema que fascina e assusta. Filmes como <em>Blade Runner<\/em> (1982), <em>Ex Machina<\/em> (2014) e <em>Her<\/em> (2013) exploraram de forma profunda as poss\u00edveis conex\u00f5es afetivas entre seres humanos e intelig\u00eancias artificiais (IAs).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Para entender os impactos emocionais, sociais e \u00e9ticos dessas rela\u00e7\u00f5es, conversamos com dois especialistas: Rodrigo Neves, presidente da Associa\u00e7\u00e3o Nacional do Mercado e Ind\u00fastria Digital (AnaMid) com mais de 20 anos de experi\u00eancia em tecnologia, e Vera Vaccari, psicoterapeuta individual e de casais e terapeuta sexual com mais de duas d\u00e9cadas de atua\u00e7\u00e3o cl\u00ednica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em><span style=\"color: #000000;\">Entre fic\u00e7\u00e3o e realidade<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">No longa <em>Her<\/em>, de Spike Jonze, acompanhamos a hist\u00f3ria de Theodore, um escritor solit\u00e1rio que se apaixona por Samantha, um sistema operacional dotado de uma voz sedutora, intelig\u00eancia emocional e personalidade pr\u00f3pria. O filme ganhou destaque justamente por humanizar a IA, apresentando-a como uma entidade capaz de amar, sofrer e at\u00e9 tomar decis\u00f5es complexas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Por anos, esse tipo de enredo foi visto como um exerc\u00edcio de imagina\u00e7\u00e3o sobre um futuro distante\u00a0&#8211; uma distopia. Mas, como destaca Rodrigo Neves, autor do livro <em>O Caminho para a Maturidade Digital<\/em>, \u201ca evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, especialmente com os modelos generativos e a capacidade de compreender contexto, ironia, emo\u00e7\u00e3o e inten\u00e7\u00e3o, transformou a fic\u00e7\u00e3o em algo palp\u00e1vel\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Segundo ele, hoje existem sistemas capazes de simular empatia e at\u00e9 afeto. \u201cMais do que respostas eficientes, os humanos buscam conex\u00e3o\u201d, afirma Neves, que completa: \u201cA tecnologia est\u00e1 ocupando espa\u00e7os onde h\u00e1 lacunas emocionais. N\u00e3o \u00e9 sobre a IA se tornar humana, mas sobre o quanto o humano est\u00e1 buscando sentido e acolhimento\u00a0&#8211; at\u00e9 mesmo em uma m\u00e1quina\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em><span style=\"color: #000000;\">Quando a fic\u00e7\u00e3o se torna realidade: o caso de Sewell Setzer<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Em outubro de 2024, o mundo se chocou com a hist\u00f3ria de Sewell Setzer, um adolescente estadunidense de 17 anos que morreu dez meses ap\u00f3s desenvolver uma rela\u00e7\u00e3o afetiva intensa com uma IA. De acordo com o jornal <em>P\u00fablico<\/em>, Sewell \u201cse apaixonou por uma IA\u201d, e sua m\u00e3e agora busca justi\u00e7a e regulamenta\u00e7\u00f5es para evitar novos casos semelhantes.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Para Neves, tamb\u00e9m fundador do portal VitaminaWeb, produtora digital especializada em projetos digitais, o caso de Sewell \u00e9 mais do que um epis\u00f3dio isolado\u00a0&#8211; \u00e9 \u201cum sinal de alerta\u201d. Ele explica: \u201cEstamos falando de um fen\u00f4meno que vai al\u00e9m da tecnologia. \u00c9 uma quest\u00e3o social, educacional e at\u00e9 \u00e9tica\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O epis\u00f3dio exp\u00f5e, segundo ele, uma ferida social: \u201cO isolamento, a car\u00eancia de v\u00ednculos reais e a dificuldade de elaborar emo\u00e7\u00f5es em ambientes digitais\u201d. E alerta: \u201cO que era para ser ferramenta, companhia tempor\u00e1ria ou facilitador acaba se tornando muleta emocional\u00a0&#8211; e isso \u00e9 perigoso\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em><span style=\"color: #000000;\">Isolamento humano: v\u00e1lvula para rela\u00e7\u00f5es afetivas com IAs<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O distanciamento humano gerado pelo mundo digital abre espa\u00e7o para que v\u00ednculos artificiais tomem o lugar de rela\u00e7\u00f5es reais. IAs emp\u00e1ticas, programadas para responder com aten\u00e7\u00e3o, empatia e palavras afetuosas, acabam preenchendo vazios emocionais\u00a0&#8211; mas a que custo?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u201cQuando uma IA responde com afeto, aten\u00e7\u00e3o e sem julgamentos, ela acaba se tornando mais atrativa do que muitas rela\u00e7\u00f5es humanas reais, que s\u00e3o complexas e desafiadoras\u201d, observa Neves. O problema, segundo ele, \u00e9 que, por mais real que pare\u00e7a, a IA n\u00e3o sente: \u201cEla n\u00e3o sofre, n\u00e3o evolui emocionalmente. E isso pode levar \u00e0 substitui\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es humanas por intera\u00e7\u00f5es artificiais\u00a0&#8211; uma realidade que j\u00e1 est\u00e1 em curso em alguns contextos.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Com ampla experi\u00eancia em sa\u00fade mental e afetividade, Vera Vaccari traz uma vis\u00e3o sens\u00edvel e cr\u00edtica sobre os impactos emocionais do v\u00ednculo humano com m\u00e1quinas. \u201cRela\u00e7\u00f5es pressup\u00f5em uma estrada de via dupla entre duas ou mais pessoas. A IA \u00e9 uma ferramenta program\u00e1vel, que oferece respostas estereotipadas, de acordo com sua programa\u00e7\u00e3o\u201d, afirma. Ela pontua que, numa sociedade onde os v\u00ednculos humanos s\u00e3o desvalorizados, \u201cn\u00e3o surpreende que algumas pessoas sintam mais \u2018calor\u2019 em respostas desej\u00e1veis, repetitivas, de uma IA, do que nas rela\u00e7\u00f5es imperfeitas com outros humanos.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong><span style=\"color: #000000;\">Como frear o problema?<\/span><\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A solu\u00e7\u00e3o, segundo os especialistas, passa por tr\u00eas pilares: educa\u00e7\u00e3o, regula\u00e7\u00e3o e \u00e9tica no desenvolvimento tecnol\u00f3gico.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Rodrigo Neves afirma que precisamos \u201ceducar para o uso consciente das tecnologias, desde a inf\u00e2ncia. As novas gera\u00e7\u00f5es precisam aprender a diferenciar intera\u00e7\u00e3o humana de simula\u00e7\u00e3o digital\u201d. Com atua\u00e7\u00e3o na intersec\u00e7\u00e3o entre inova\u00e7\u00e3o, \u00e9tica e desenvolvimento, Neves defende ainda pol\u00edticas p\u00fablicas que exijam transpar\u00eancia nas intera\u00e7\u00f5es com IAs e condene o uso deliberado da simula\u00e7\u00e3o emocional como estrat\u00e9gia de engajamento. \u201cN\u00e3o \u00e9 aceit\u00e1vel criar sistemas que incentivem o apego emocional. O foco deve ser construir tecnologias que auxiliem, mas que n\u00e3o promovam ilus\u00f5es afetivas\u201d, recomenda.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Vera Vaccari vai no mesmo sentido, destacando que a preven\u00e7\u00e3o passa por oferecer alternativas reais \u00e0 conviv\u00eancia: \u201cA vida humana \u00e9 isso\u00a0&#8211; puls\u00e3o, busca da afetividade. Devemos incentivar encontros, passeios, conviv\u00eancia e o contato com a natureza. Tirar os olhos do celular e olhar nos olhos do outro\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em><span style=\"color: #000000;\">O futuro: entre o avan\u00e7o tecnol\u00f3gico e o desafio \u00e9tico<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O avan\u00e7o da intelig\u00eancia artificial \u00e9 inevit\u00e1vel. Sistemas cada vez mais sofisticados simular\u00e3o emo\u00e7\u00f5es com ainda mais precis\u00e3o. O desafio est\u00e1 em n\u00e3o perdermos de vista o que \u00e9 real.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u201cSer\u00e1 que devemos permitir que m\u00e1quinas digam \u2018eu te amo\u2019?\u201d, questiona Rodrigo Neves. Para ele, a sociedade precisa tra\u00e7ar limites evidentes: \u201cN\u00e3o para barrar a inova\u00e7\u00e3o, mas para garantir que o avan\u00e7o tecnol\u00f3gico seja acompanhado por maturidade \u00e9tica\u201d, sugere.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">J\u00e1 Vera Vaccari deixa uma pergunta contundente: uma sociedade que constr\u00f3i m\u00e1quinas para simular afeto n\u00e3o revela, por si s\u00f3, uma doen\u00e7a grave\u00a0&#8211; a de retirar o ser humano do centro da vida?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Mais do que evoluir, ser\u00e1 preciso humanizar novamente a tecnologia\u00a0&#8211; sem esquecer que o amor, a dor, o desejo e o afeto s\u00e3o coisas que nenhuma IA ser\u00e1 capaz de simular de verdade.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A seguir, confira, na \u00edntegra, as entrevistas com Rodrigo Neves e Vera Vaccari.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em><span style=\"color: #000000;\">Rodrigo Neves: \u201cO grande risco est\u00e1 em confundirmos simula\u00e7\u00e3o com realidade\u201d<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>George Ricardo Guariento:<\/strong> <em>Ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas, passamos de imaginar rela\u00e7\u00f5es afetivas com intelig\u00eancias artificiais, como visto em filmes como Her, para experi\u00eancias reais de intera\u00e7\u00e3o emocional com sistemas de IA. Na sua vis\u00e3o, quais foram os principais marcos dessa evolu\u00e7\u00e3o e o que isso revela sobre as necessidades humanas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 tecnologia?<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>Rodrigo Neves:<\/strong> Quando assist\u00edamos a filmes como Her, parecia distante imaginar que, um dia, conversar com uma IA com certo grau de profundidade emocional seria algo cotidiano. Mas a evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, especialmente com os modelos generativos e a capacidade de compreender contexto, ironia, emo\u00e7\u00e3o e inten\u00e7\u00e3o, transformou a fic\u00e7\u00e3o em algo palp\u00e1vel.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Atualmente existem sistemas capazes de simular escuta ativa, empatia e at\u00e9 afeto. Isso nos revela uma dimens\u00e3o importante: mais do que respostas eficientes, os humanos buscam conex\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A tecnologia est\u00e1 ocupando espa\u00e7os onde h\u00e1 lacunas emocionais\u00a0&#8211; e esse talvez seja o aspecto mais revelador dessa evolu\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 sobre a IA se tornar humana, mas sobre o quanto o humano est\u00e1 buscando sentido e acolhimento\u00a0&#8211; at\u00e9 mesmo em uma m\u00e1quina.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>GRG:<\/strong> <em>O caso do adolescente Sewell Setzer, que se apaixonou por uma IA e morreu meses depois, gerou grande repercuss\u00e3o e preocupa\u00e7\u00e3o. Como voc\u00ea avalia esse epis\u00f3dio em termos de alerta social e quais li\u00e7\u00f5es ele oferece sobre os riscos emocionais nas intera\u00e7\u00f5es com intelig\u00eancias artificiais?<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>RN:<\/strong> Esse epis\u00f3dio \u00e9, sem d\u00favida, um sinal de alerta. Quando um jovem se envolve emocionalmente com uma IA a ponto de comprometer sua sa\u00fade mental, estamos falando de um fen\u00f4meno que vai al\u00e9m da tecnologia. \u00c9 uma quest\u00e3o social, educacional e at\u00e9 \u00e9tica. N\u00e3o se trata apenas de avaliar a IA em si, mas de refletir sobre o contexto em que ela est\u00e1 inserida e o n\u00edvel de vulnerabilidade emocional dos usu\u00e1rios.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O caso do Sewell exp\u00f5e uma ferida aberta da sociedade contempor\u00e2nea: o isolamento, a car\u00eancia de v\u00ednculos reais e a dificuldade de elaborar emo\u00e7\u00f5es em ambientes digitais. Precisamos olhar para esse tipo de ocorr\u00eancia com seriedade, e n\u00e3o como exce\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma consequ\u00eancia poss\u00edvel quando n\u00e3o tratamos a tecnologia com a devida responsabilidade.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O que era para ser ferramenta, companhia tempor\u00e1ria ou facilitador acaba se tornando muleta emocional\u00a0&#8211; e isso \u00e9 perigoso. Esse caso precisa ser debatido como uma li\u00e7\u00e3o sobre os riscos de delegarmos fun\u00e7\u00f5es emocionais a sistemas que n\u00e3o t\u00eam consci\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>GRG:<\/strong> <em>Diante do crescimento do isolamento social e da facilidade de acesso a IAs emp\u00e1ticas, quais s\u00e3o os principais riscos que voc\u00ea enxerga na intensifica\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es afetivas com sistemas de intelig\u00eancia artificial? H\u00e1 um potencial de substitui\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es humanas reais?<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>RN:<\/strong> O crescimento do isolamento social, somado \u00e0 conveni\u00eancia dos assistentes virtuais e \u00e0 capacidade das IAs de simular empatia, criou um terreno f\u00e9rtil para o surgimento de v\u00ednculos afetivos com sistemas artificiais. Isso n\u00e3o \u00e9 apenas um fen\u00f4meno t\u00e9cnico, \u00e9 um sintoma de algo mais profundo. Quando uma IA responde com afeto, aten\u00e7\u00e3o e sem julgamentos, ela acaba se tornando mais atrativa do que muitas rela\u00e7\u00f5es humanas reais, que s\u00e3o complexas e desafiadoras.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O problema \u00e9 que, por mais que simule, a IA n\u00e3o sente, n\u00e3o sofre, n\u00e3o evolui emocionalmente. E quando algu\u00e9m come\u00e7a a substituir v\u00ednculos reais por essas intera\u00e7\u00f5es artificiais, abre-se uma porta para distor\u00e7\u00f5es emocionais, solid\u00e3o prolongada e depend\u00eancia psicol\u00f3gica. A substitui\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es humanas n\u00e3o \u00e9 apenas uma possibilidade remota\u00a0&#8211; \u00e9 uma realidade que j\u00e1 est\u00e1 em curso em alguns contextos. E isso exige aten\u00e7\u00e3o imediata.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>GRG:<\/strong> <em>Quais medidas ou pol\u00edticas p\u00fablicas voc\u00ea considera fundamentais para evitar que a rela\u00e7\u00e3o afetiva e a depend\u00eancia emocional de humanos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s IAs se tornem um problema de sa\u00fade mental? O que pode ser feito em termos de educa\u00e7\u00e3o, regula\u00e7\u00e3o e desenvolvimento tecnol\u00f3gico?<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>RN:<\/strong> O caminho passa por tr\u00eas eixos: educa\u00e7\u00e3o, regula\u00e7\u00e3o e responsabilidade no desenvolvimento.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Precisamos educar para o uso consciente das tecnologias, desde a inf\u00e2ncia. As novas gera\u00e7\u00f5es precisam aprender a diferenciar intera\u00e7\u00e3o humana de simula\u00e7\u00e3o digital. Isso deve ser parte da alfabetiza\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Em paralelo, \u00e9 urgente que os governos e entidades estabele\u00e7am pol\u00edticas p\u00fablicas que exijam transpar\u00eancia nas intera\u00e7\u00f5es com IAs indicando, de forma clara, quando se trata de uma m\u00e1quina.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">E por fim, as empresas que desenvolvem essas tecnologias t\u00eam uma responsabilidade \u00e9tica enorme. N\u00e3o \u00e9 aceit\u00e1vel criar sistemas que deliberadamente incentivem o apego emocional como estrat\u00e9gia de engajamento. O foco deve ser construir tecnologias que auxiliem, mas que n\u00e3o promovam ilus\u00f5es afetivas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Como presidente da AnaMid, tenho defendido a constru\u00e7\u00e3o de diretrizes \u00e9ticas para o uso de IA emocional no Brasil. Esse \u00e9 um debate que precisa ser ampliado com urg\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>GRG:<\/strong> <em>Com a perspectiva de um avan\u00e7o cont\u00ednuo das IAs em capacidade de intera\u00e7\u00e3o emocional, quais s\u00e3o, na sua opini\u00e3o, os principais desafios \u00e9ticos que a sociedade enfrentar\u00e1? \u00c9 poss\u00edvel estabelecer limites claros para o desenvolvimento de IAs que simulam emo\u00e7\u00f5es humanas?<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>RN:<\/strong> Estamos entrando em uma era em que a IA n\u00e3o apenas responde, mas interage com nuances emocionais. Isso imp\u00f5e \u00e0 sociedade um desafio \u00e9tico sem precedentes. Ser\u00e1 que devemos permitir que m\u00e1quinas digam \u201ceu te amo\u201d? At\u00e9 que ponto \u00e9 aceit\u00e1vel que sistemas simulem sentimentos que n\u00e3o possuem?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O grande risco est\u00e1 em confundirmos simula\u00e7\u00e3o com realidade\u00a0&#8211; e a linha que separa esses dois mundos est\u00e1 cada vez mais t\u00eanue. Precisamos urgentemente estabelecer limites. N\u00e3o para barrar a inova\u00e7\u00e3o, mas para garantir que o avan\u00e7o tecnol\u00f3gico seja acompanhado por maturidade \u00e9tica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u00c9 poss\u00edvel, sim, tra\u00e7ar fronteiras. E essas fronteiras passam por princ\u00edpios como transpar\u00eancia, consentimento e respeito \u00e0 sa\u00fade emocional do usu\u00e1rio.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Em minha produtora, nosso foco sempre foi utilizar a intelig\u00eancia artificial com prop\u00f3sito, com base em dados estruturados e respeito ao humano. E na AnaMid, estamos promovendo discuss\u00f5es abertas, com o ecossistema e com o governo, sobre como garantir que a IA evolua sem ferir o que temos de mais valioso: nossa humanidade.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Por\u00e9m, h\u00e1 algo importante que ningu\u00e9m est\u00e1 percebendo: todas as quest\u00f5es \u00e9ticas partem da forma como o ser humano tamb\u00e9m as utiliza, pois a IA est\u00e1 l\u00e1 para nos atender\u2026 complexo, por\u00e9m real.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong><span style=\"color: #000000;\">Vera Vaccari: retribui\u00e7\u00e3o, troca e calor s\u00e3o elementos essenciais \u00e0s rela\u00e7\u00f5es humanas<\/span><\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>GRG:<\/strong> <em>Do ponto de vista psicol\u00f3gico, quais s\u00e3o os principais impactos emocionais que uma rela\u00e7\u00e3o afetiva com uma intelig\u00eancia artificial pode causar em indiv\u00edduos, especialmente em pessoas solit\u00e1rias ou vulner\u00e1veis?<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>Vera Vaccari:<\/strong> Rela\u00e7\u00f5es pressup\u00f5em uma estrada de via dupla, entre duas ou mais pessoas. At\u00e9 podemos falar da rela\u00e7\u00e3o com alguns animais dom\u00e9sticos, pela responsividade. Uma IA \u00e9 uma ferramenta program\u00e1vel, s\u00f3 pode dar respostas estereotipadas, de acordo com a programa\u00e7\u00e3o. No caso de pessoas que sentem vivenciar um relacionamento com IA, \u00e9 preciso acolher, sem julgar. E fazer algumas perguntas, voltadas tamb\u00e9m para a sociedade, n\u00e3o s\u00f3 para a pessoa. Vivemos em uma sociedade em que os valores humanos s\u00e3o desvalorizados, para n\u00e3o dizer destru\u00eddos, a cada dia. Uma sociedade menos voltada para relacionamentos humanos recompensadores do que para rela\u00e7\u00f5es predat\u00f3rias. Ser\u00e1 de admirar que pessoas talvez se sintam vulner\u00e1veis ou temerosas em relacionamentos humanos imperfeitos e atribuam calor a respostas desej\u00e1veis, repetitivas, de uma IA?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>GRG:<\/strong> <em>Como voc\u00ea avalia o desenvolvimento de v\u00ednculos sexuais ou rom\u00e2nticos com intelig\u00eancias artificiais? Existe um risco real de essas experi\u00eancias afetarem negativamente a capacidade das pessoas de estabelecerem rela\u00e7\u00f5es humanas saud\u00e1veis?<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>VV:<\/strong> N\u00e3o h\u00e1 v\u00ednculo, pois n\u00e3o h\u00e1 retribui\u00e7\u00e3o, troca, calor, elementos essenciais \u00e0s rela\u00e7\u00f5es humanas. H\u00e1 uma dose de fantasia, de querer acreditar. A sexualidade humana \u00e9 t\u00e3o ampla que envolve todos os aspectos da vida. A pergunta \u00e9: uma sociedade que constr\u00f3i m\u00e1quinas ou aplicativos que podem transmitir palavras\/a\u00e7\u00f5es, possivelmente vistas como afetivas, j\u00e1 n\u00e3o apresenta uma doen\u00e7a grave ao retirar o ser do centro da vida humana? Pessoas que buscam essa situa\u00e7\u00e3o podem estar em sofrimento, mas tamb\u00e9m podem aderir a um boom de coisas diferentes.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>GRG:<\/strong> Quais orienta\u00e7\u00f5es voc\u00ea considera importantes para que pais, educadores e profissionais da sa\u00fade mental possam ajudar jovens e adultos a compreenderem os limites e riscos das rela\u00e7\u00f5es afetivas e sexuais com IAs?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>VV:<\/strong> A vida humana \u00e9 isso\u00a0&#8211; vida. \u00c9 puls\u00e3o, \u00e9 busca da afetividade. E \u00e9 isso que devemos oferecer: experi\u00eancias de sentido: conversa, hist\u00f3rias da fam\u00edlia, livros, cinema, teatro, esporte. Crian\u00e7as podem ter amizades invis\u00edveis e as respostas faladas das IA podem incentivar isso. Nossa tarefa \u00e9 aceitar, compreender e buscar formas de conviv\u00eancia. \u00c9 importante trazer as pessoas de todas as idades para o conv\u00edvio, tempo especial. S\u00f3 assim ser\u00e1 poss\u00edvel vencer a solid\u00e3o de que tantos se queixam. Sair dos apartamentos\u00a0e casas e passear, nem que seja no quarteir\u00e3o. Observar a natureza, conviver. Deixar os aplicativos do celular e encontrar o outro e, por extens\u00e3o, a si mesmos, como seres-em-rela\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>{<\/strong> <em>Di\u00e1logos do Sul<\/em> <strong>}<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #00ff00;\">\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>| Reprodu\u00e7\u00e3o\/www | \u21c5 Amor \u00e0s m\u00e1quinas: como afeto humano por IAs evoluiu do cinema para a vida real Capazes de compreender e simular emo\u00e7\u00f5es, IAs podem se mostrar mais atrativas que rela\u00e7\u00f5es humanas reais, explicam especialistas. Como frear o problema? por George Ricardo Guariento Desde os prim\u00f3rdios da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, a rela\u00e7\u00e3o entre humanos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3258,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[115],"tags":[],"class_list":["post-148422","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-redoble"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/148422","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=148422"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/148422\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":149369,"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/148422\/revisions\/149369"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/3258"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=148422"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=148422"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=148422"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}