{"id":121402,"date":"2023-12-16T17:38:20","date_gmt":"2023-12-16T20:38:20","guid":{"rendered":"http:\/\/aluzerna.com.br\/?p=121402"},"modified":"2023-12-16T17:38:20","modified_gmt":"2023-12-16T20:38:20","slug":"um-monstro-avido-por-lucro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aluzerna.com.br\/?p=121402","title":{"rendered":"Um monstro \u00e1vido por lucro"},"content":{"rendered":"<h6><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone\" src=\"http:\/\/www.aluzerna.com.br\/2023\/16-12-2023a.jpg\" alt=\"\" width=\"457\" height=\"269\" \/><br \/>\n<span style=\"color: #000000;\">| Reprodu\u00e7\u00e3o\/www |<\/span><\/h6>\n<p><span style=\"color: #00ff00;\">\u21c5<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"text-decoration: underline;\"><strong><em><span style=\"color: #000000; text-decoration: underline;\">Como a Big Pharma destr\u00f3i a Sa\u00fade Global<\/span><\/em><\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><span style=\"color: #000000;\">Em novo livro, ativista explora de que maneira as grandes farmac\u00eauticas conquistaram o poder que hoje t\u00eam. O papel da propriedade intelectual e a neglig\u00eancia com doen\u00e7as pouco lucrativas. Mas erra ao subestimar influ\u00eancia das corpora\u00e7\u00f5es nos governos do Norte Global<\/span><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><span style=\"color: #000000;\">por John Clarke, no Counterfire<\/span><\/em><br \/>\n<em><span style=\"color: #000000;\"> [Tradu\u00e7\u00e3o: Gabriela Leite]<\/span><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Com <em>Pharmanomics: How Big Pharma Destroys Global Health<\/em>\u00a0(Tradu\u00e7\u00e3o literal: \u201cFarmacoeconomia: como a Big Pharma destr\u00f3i a sa\u00fade global\u201d, 2023, sem tradu\u00e7\u00e3o no Brasil), Nick Dearden oferece um relato fascinante da evolu\u00e7\u00e3o da Grande Ind\u00fastria Farmac\u00eautica para um monstro \u00e1vido por lucro que destr\u00f3i um componente importante dos sistemas de sa\u00fade do mundo. No entanto, quando se trata das conclus\u00f5es pol\u00edticas que ele tira, suas esperan\u00e7as de que esse leopardo possa mudar suas manchas e servir de maneira mais racional \u00e0s necessidades globais de sa\u00fade n\u00e3o convencem aqueles que adotam uma vis\u00e3o mais radical da transforma\u00e7\u00e3o social.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Dito isso, as limita\u00e7\u00f5es da an\u00e1lise de Dearden n\u00e3o deveriam ser uma grande surpresa. Ele \u00e9, afinal, uma figura importante dentro da rede internacional de ONGs e, embora fa\u00e7a uma acusa\u00e7\u00e3o poderosa das empresas farmac\u00eauticas, se encaixa melhor no papel de conselheiro do capitalismo do que de coveiro do sistema.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em><span style=\"color: #000000;\">Lucros versus necessidades humanas<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Desde as primeiras p\u00e1ginas do livro, vemos como uma caracter\u00edstica geral do capitalismo passou a ser aplicada \u00e0 provis\u00e3o de medicamentos. Nessa \u00e1rea vital das necessidades humanas, o sistema de lucros decide quem viver\u00e1 e quem morrer\u00e1, garantindo que a pesquisa, desenvolvimento, distribui\u00e7\u00e3o e disponibilidade de produtos farmac\u00eauticos tenham muito mais a ver com estrat\u00e9gias de marketing do que com a cura, conten\u00e7\u00e3o e preven\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">No primeiro cap\u00edtulo, Dearden considera o papel crucial da fam\u00edlia Sackler nos EUA, a partir da d\u00e9cada de 1950, na forma\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria farmac\u00eautica que se desenvolveria. \u201cO verdadeiro talento de Arthur Sackler era vender drogas. A ele s\u00e3o atribu\u00eddas as formas modernas de marketing farmac\u00eautico nos Estados Unidos. O empres\u00e1rio era especialista em buscar diretamente os m\u00e9dicos, compreendendo o papel que desempenhavam n\u00e3o no processo de prescri\u00e7\u00e3o, mas como s\u00edmbolos de confian\u00e7a na sociedade\u201d (p.2).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A abordagem de Sackler baseava-se na ideia de que \u201cpraticamente todos devem tomar medicamentos muito fortes regularmente\u201d. Isso inclu\u00eda a promo\u00e7\u00e3o do uso de Valium por \u201cpessoas sem sintomas psiqui\u00e1tricos\u201d (p.3).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Ap\u00f3s a morte de Sackler, seus sucessores come\u00e7aram a comercializar o OxyContin em 1996 e ent\u00e3o \u201ccome\u00e7ou o maior esc\u00e2ndalo farmac\u00eautico moderno dos Estados Unidos\u201d. Assim como o Valium, o OxyContin era um medicamento potencialmente \u00fatil, mas foi \u201cagressivamente propagandeado como um medicamento sem potencial de viciar e apropriado para quase todos, mesmo aqueles com dor moderada. Infelizmente, isso estava longe de ser verdade\u201d (p.4).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Cinco anos ap\u00f3s o in\u00edcio das vendas, o OxyContin chegou a gerar mais de US$ 1 bilh\u00e3o em vendas\u00a0&#8211; ao custo de uma epidemia de v\u00edcio e morte. Como Dearden destaca, um \u201cmedicamento assim deveria ser prescrito com muita parcim\u00f4nia. (Mas) empresas \u00e1vidas por lucro, como a Purdue, operam de outra forma. Seu imperativo \u00e9 maximizar as vendas e transferir quaisquer custos para a sociedade em geral\u201d (p.5).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Dearden observa que o \u201cpoder que o lobby e doa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas irrestritas conferem \u00e0 ind\u00fastria farmac\u00eautica \u00e9 dif\u00edcil de ser mensurado\u201d (p.12). Ele tamb\u00e9m explica que \u201ch\u00e1 uma porta girat\u00f3ria entre a ind\u00fastria e o governo, pela qual a Big Pharma atrai funcion\u00e1rios experientes oferecendo sal\u00e1rios lucrativos\u201d (p.13). Mecanismos como esses de influ\u00eancia e controle, no entanto, s\u00e3o insuficientes para explicar \u201ca magnitude do poder da ind\u00fastria\u201d. \u00c9 necess\u00e1rio compreender como a Big Pharma conseguiu \u201calinhar seus interesses com os do establishment pol\u00edtico, acad\u00eamico e da profiss\u00e3o de sa\u00fade, bem como dos cidad\u00e3os e pacientes\u201d (p.14).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Nos anos do p\u00f3s-guerra, houve \u201cuma nova onda de medicamentos inovadores\u201d (p.14) que ampliaram massivamente \u201co n\u00famero de comprimidos de rotina que tomamos\u201d (p.15). Foi nesse contexto que a ind\u00fastria farmac\u00eautica cresceu e consolidou suas opera\u00e7\u00f5es. A divis\u00e3o entre pesquisa e fabrica\u00e7\u00e3o se desfez, e uma s\u00e9rie de fus\u00f5es criaram \u201cum punhado de grandes <em>players<\/em> verticalmente integrados\u201d (p.15).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u00c0 medida que a contradi\u00e7\u00e3o entre as necessidades de sa\u00fade das comunidades e as prioridades lucrativas das empresas farmac\u00eauticas se tornou cada vez mais clara, diversos esfor\u00e7os para regular e controlar suas atividades surgiram pelo Norte Global. Nesse contexto, \u201ca Big Pharma aprendeu\u2026 que precisava espalhar sua influ\u00eancia profundamente na sociedade\u201d. Criticamente, isso envolvia \u201cconsolidar os argumentos de que altos pre\u00e7os eram justificados pelos custos de pesquisa\u201d (p.22).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Dearden mostra como \u201cos problemas com o controle da ind\u00fastria sobre a pesquisa se estendem tamb\u00e9m ao processo de aprova\u00e7\u00e3o regulat\u00f3ria\u201d (p.30). O \u00f3rg\u00e3o regulador dos EUA, a FDA (similar \u00e0 Anvisa no Brasil), \u201caprova cada vez mais medicamentos caros, apesar de efeitos colaterais perigosos ou pouco conhecidos e evid\u00eancias inconclusivas de que eles controlam ou curam doen\u00e7as\u201d (p.31).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O segundo cap\u00edtulo considera como o processo de financeiriza\u00e7\u00e3o associado \u00e0 era neoliberal intensificou o papel destrutivo da Big Pharma. A busca implac\u00e1vel e imprudente por lucro se tornou ainda mais arraigada. Nesse contexto: \u201cAtivos intang\u00edveis, particularmente a propriedade intelectual, deslocam-se ao centro do modelo farmac\u00eautico\u201d (p.51).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Hoje, \u201ca Big Pharma gasta cada vez mais de seus recursos tentando fortalecer o valor de seus ativos intang\u00edveis, em vez de se envolver em atividades produtivas\u201d (p.51). O grau em que a pesquisa e a fabrica\u00e7\u00e3o de medicamentos s\u00e3o subordinadas a essa condi\u00e7\u00e3o \u00e9 impressionante. Vemos que \u201capenas 2% a 3% dos novos medicamentos representam verdadeiros avan\u00e7os. Um estudo de 2017 na Alemanha mostrou que 57% dos novos medicamentos n\u00e3o ofereciam nenhum valor terap\u00eautico\u201d (p.59).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O que emergiu nessa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 \u201cuma crise na descoberta de medicamentos, com grandes empresas vivendo \u00e0 custa de medicamentos patenteados e fazendo pouco para substitu\u00ed-los quando essas patentes caducam\u201d (p.62). Enquanto isso, doen\u00e7as cur\u00e1veis assolam o Sul Global sem esfor\u00e7os significativos para cont\u00ea-las. \u201cNos \u00faltimos cinquenta anos, apenas dois novos tratamentos para tuberculose foram desenvolvidos, enquanto quatorze novos tratamentos foram desenvolvidos para uma condi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o mata ningu\u00e9m, a rinite al\u00e9rgica\u201d (p.60).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong><span style=\"color: #000000;\">Pandemia<\/span><\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Ao considerar o papel da Big Pharma durante a pandemia global, o terceiro cap\u00edtulo desafia a alega\u00e7\u00e3o de Boris Johnson de que \u201cfoi o capitalismo que garantiu que tiv\u00e9ssemos uma vacina em menos de um ano e a resposta\u00a0&#8211; portanto, n\u00e3o \u00e9 atacar os criadores de riqueza, \u00e9 incentiv\u00e1-los\u201d (p.80). Dearden retruca que \u201ca gan\u00e2ncia e o capitalismo criaram a pandemia. E eles estavam prestes a dificultar os esfor\u00e7os para lidar com seus efeitos\u201d (p.83).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Embora a probabilidade de uma grande pandemia fosse plenamente compreendida h\u00e1 anos, a Big Pharma havia mostrado consistentemente \u201cuma indiferen\u00e7a quase completa ao coronav\u00edrus, ou qualquer candidato prov\u00e1vel a uma pandemia global, porque eram considerados pouco propensos a serem lucrativos\u201d (p.87). Se uma abordagem diferente tivesse sido adotada, \u201cpoder\u00edamos estar em uma situa\u00e7\u00e3o muito melhor. O fato de n\u00e3o estarmos vai ao cerne dos problemas na ind\u00fastria\u201d (p.88).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Dearden mostra como a Big Pharma manteve a propriedade intelectual das vacinas que foram desenvolvidas e lucrou com elas, mesmo que iniciativas de pesquisa e distribui\u00e7\u00e3o financiadas publicamente fossem centrais para a resposta \u00e0 pandemia. \u201cAo entregar as vacinas a um n\u00famero seleto de empresas lucrativas, est\u00e1vamos tamb\u00e9m entregando decis\u00f5es fundamentais\u00a0&#8211; como quem teria permiss\u00e3o para fabricar as vacinas, a que pre\u00e7o e em que ordem poderiam ser vendidas\u201d (p.94-5).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Os vastos lucros obtidos pelas empresas farmac\u00eauticas durante a pandemia resultaram em grande parte de aumentos de pre\u00e7os sem vergonha. \u201cAs vacinas da Moderna poderiam ser produzidas por apenas U$ 2.85 por dose. No entanto, s\u00e3o de fato as vacinas mais caras do mercado, com uma m\u00e9dia entre $ 19 e $ 24 por dose\u201d (p.98).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Dearden reflete sobre os impactos prejudiciais do uso dos direitos de propriedade intelectual da Big Pharma para bloquear a distribui\u00e7\u00e3o de vacinas a pa\u00edses pobres a pre\u00e7os acess\u00edveis. Ele mostra como os esfor\u00e7os para superar esse estrangulamento foram prejudicados pela tolice de tentar \u201clevar a vacina contra a covid para comunidades e povos no mundo em desenvolvimento sem perturbar o mercado farmac\u00eautico global\u201d (p.109).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Durante a pandemia, Dearden esteve envolvido na campanha por uma \u201cVacina para o Povo\u201d [o movimento chama-se People\u2019s Vaccine, em ingl\u00eas]\u00a0&#8211; e aborda isso durante o quarto cap\u00edtulo. No contexto de uma emerg\u00eancia global de sa\u00fade, essa iniciativa buscou desafiar \u201cas regras de propriedade intelectual que colocam os \u2018direitos de propriedade\u2019 acima dos direitos humanos\u201d. Ela confrontou \u201cum modelo de assist\u00eancia m\u00e9dica baseado no mercado que est\u00e1 falhando para a maioria das pessoas no mundo\u201d (p.117).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Em conson\u00e2ncia com uma proposta da \u00cdndia e da \u00c1frica do Sul, a People\u2019s Vaccine \u201capoiou fortemente a demanda por uma ren\u00fancia ao Acordo sobre Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados ao Com\u00e9rcio, ou TRIPS\u201d, que \u201cestendeu as prote\u00e7\u00f5es de patentes no estilo ocidental por todo o mundo\u201d e assegurou que as empresas farmac\u00eauticas \u201cpudessem ditar quem poderia usar suas cria\u00e7\u00f5es e a que pre\u00e7o deveriam ser cobradas\u201d (p.118).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Enquanto a pandemia avan\u00e7ava, \u201ca tecnologia de vacinas estava nas m\u00e3os de apenas tr\u00eas corpora\u00e7\u00f5es, todas elas comprometidas em obter um substancial lucro\u201d, com o resultado de que \u201cmesmo em 2022, para cada dose de vacina de mRNA entregue a pa\u00edses de baixa renda, cinquenta e seis foram entregues a pa\u00edses ricos\u201d (p.120-1). A taxa de vacina\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es era, \u00e9 claro, correspondentemente desigual.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Enquanto essa vasta injusti\u00e7a global se desenrolava, os tr\u00eas maiores produtores de vacinas pagaram U$ 26 bilh\u00f5es aos seus acionistas em abril de 2021\u00a0&#8211; uma quantia que poderia ter sido usada para \u201cpagar a vacina\u00e7\u00e3o de pelo menos 1,3 bilh\u00e3o de pessoas, equivalente \u00e0 popula\u00e7\u00e3o da \u00c1frica\u201d (p.126).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em><span style=\"color: #000000;\">Regras de Propriedade<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">No quinto cap\u00edtulo, Dearden explora as regras de propriedade intelectual que a Big Pharma tem usado com vantagem consider\u00e1vel. Ele observa que \u201c\u00e9 apropriado que o TRIPS tenha sido um dos primeiros acordos negociados pela rec\u00e9m-fundada Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio (OMC)\u201d (p.161).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Esse \u00f3rg\u00e3o, estabelecido em 1995, \u00e9 \u201cum pilar do projeto de globaliza\u00e7\u00e3o\u201d (p.161) que solidificou as rela\u00e7\u00f5es comerciais internacionais que favoreciam os centros imperialistas. \u201cComo o capitalismo iria se expandir para um mercado verdadeiramente global\u2026 as regras precisariam ser padronizadas. Se isso prejudicasse a capacidade de alguns pa\u00edses desenvolverem suas pr\u00f3prias tecnologias e, consequentemente, suas pr\u00f3prias economias, isso era um problema menor\u201d (p.168).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">As medidas que abriram caminho para a Big Pharma \u201cnasceram como uma express\u00e3o bruta e profundamente antidemocr\u00e1tica do poder corporativo concentrado\u201d (p.168). \u201cSe n\u00e3o fosse pelas doze corpora\u00e7\u00f5es transnacionais baseadas nos Estados Unidos do Comit\u00ea de Propriedade Intelectual\u2026 n\u00e3o haveria acordo sobre (TRIPS) hoje\u201d (p.169). O TRIPS foi adotado porque \u201cos Estados Unidos, trabalhando em estreita colabora\u00e7\u00e3o com os lobistas da Big Pharma\u2026 (se envolveram no) isolamento e intimida\u00e7\u00e3o de pa\u00edses, muitas vezes amea\u00e7ando-os abertamente com consequ\u00eancias econ\u00f4micas se resistissem\u201d (p.169).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">As restri\u00e7\u00f5es sufocantes impostas pelo TRIPS, no entanto, levaram a \u201cum jogo de gato e rato entre a Big Pharma\u2026 e ativistas e governos do Sul Global\u201d. Interesses farmac\u00eauticos pressionaram por medidas \u201cal\u00e9m do TRIPS\u201d que lhes concederiam ainda maiores vantagens. Dearden mostra que a Big Pharma, apesar de todo o seu enorme poder e influ\u00eancia, lida com uma oposi\u00e7\u00e3o cont\u00ednua que \u00e0s vezes a obriga a recuar.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">No sexto cap\u00edtulo, Dearden estende sua an\u00e1lise para o sistema de sa\u00fade global mais amplo. Ele sugere que a aplica\u00e7\u00e3o das mesmas abordagens que facilitaram os neg\u00f3cios para as empresas farmac\u00eauticas teve impactos catastr\u00f3ficos nos servi\u00e7os de sa\u00fade de primeira linha (p.187).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Dearden critica a influ\u00eancia indevida do Banco Mundial em projetos de sa\u00fade. Sua abordagem foi baseada em \u201cum mercado competitivo de seguros de sa\u00fade, a privatiza\u00e7\u00e3o da sa\u00fade p\u00fablica e apenas uma rede m\u00ednima de seguran\u00e7a para os pobres\u201d. O Banco trabalhou com \u201cimportantes filantropos, cuja interven\u00e7\u00e3o no campo alteraria de maneiras profundas a sa\u00fade global. Ningu\u00e9m simboliza melhor essa nova onda do que Bill Gates\u201d (p.196).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O Banco Mundial e a Funda\u00e7\u00e3o Gates se uniram para \u201cmobilizar U$ 1 bilh\u00e3o em investimentos de capital e empr\u00e9stimos para financiar o crescimento da participa\u00e7\u00e3o do setor privado na sa\u00fade na \u00c1frica subsaariana\u201d. Esses \u201cinvestimentos at\u00e9 agora, na pr\u00e1tica, foram predominantemente em hospitais caros e de alto n\u00edvel, oferecendo cuidados terci\u00e1rios aos cidad\u00e3os mais ricos e a expatriados dos pa\u00edses africanos\u201d (p.201).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Nos dois \u00faltimos cap\u00edtulos, Dearden prop\u00f5e alternativas ao papel dominante da Big Pharma. Ele v\u00ea o movimento da People\u2019s Vaccine e seus esfor\u00e7os durante a pandemia como um desdobramento das lutas travadas durante a crise de HIV\/aids dos anos 1990.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que, em ambas as situa\u00e7\u00f5es, aqueles que se opuseram \u00e0 busca desenfreada por lucro e exigiram respostas vi\u00e1veis \u00e0s necessidades de sa\u00fade conseguiram recuperar terreno da Big Pharma e salvaram vidas no processo. Ainda assim, apesar de todo o seu conhecimento pr\u00e1tico e experi\u00eancia consider\u00e1veis, as esperan\u00e7as de Dearden por um sistema de sa\u00fade global mais justo e racional cont\u00eam um elemento marcante de otimismo. Ele claramente acredita que um lobby com a abordagem certa convencer\u00e1 os governos a controlar a Big Pharma.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Dearden argumenta com veem\u00eancia que as vastas desigualdades globais que ele apresentou exigem \u201ca descoloniza\u00e7\u00e3o do modelo\u201d (p.224). No entanto, sua sugest\u00e3o de que as pessoas no Sul Global podem pressionar seus pr\u00f3prios governos e, \u201cresponsabilizando-os\u201d, garantir que possam \u201cdar passos transformadores \u00e0 frente\u201d (p.224), subestima as divis\u00f5es de classe no Sul e os la\u00e7os dos interesses da elite com a ordem mundial liderada pelos EUA.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em><span style=\"color: #000000;\">Fun\u00e7\u00e3o do Estado<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Dearden destaca corretamente o papel do Estado no desenvolvimento de tecnologias, mas sente que os governos t\u00eam ficado \u201cenvergonhados com seu papel na economia\u201d (p.240). Ele argumenta que \u201cdeveriam encerrar a pretens\u00e3o de que o mercado \u00e9 a fonte de toda prosperidade e progresso e abra\u00e7ar o papel que desempenham\u201d (p.241). Esta \u00e9 uma argumenta\u00e7\u00e3o liberal muito familiar que sup\u00f5e que o poder do Estado foi neutralizado pelo neoliberalismo, quando na verdade foi reenfocado e redirecionado para atender \u00e0s necessidades de uma agenda de explora\u00e7\u00e3o intensificada.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u00c0 medida que o livro chega ao fim, Dearden procura raios de esperan\u00e7a em lugares sombrios. No \u201cAccountable Capitalism Act\u201d da senadora dos EUA, Elizabeth Warren, ele v\u00ea a possibilidade de \u201calterar os deveres legais dos diretores de empresas para que sejam obrigados a servir a um interesse mais amplo do que as preocupa\u00e7\u00f5es estreitas dos acionistas\u201d (p.243). Ele at\u00e9 deposita uma confian\u00e7a muito inflada na postura de Joe Biden em limitar o poder da Big Pharma (p.254).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Dearden afirma que \u201csementes de mudan\u00e7a\u201d est\u00e3o evidentes e que \u201co Estado est\u00e1 de volta\u201d. Em apoio a isso, ele aponta para \u201co n\u00edvel de interven\u00e7\u00e3o e planejamento estatal durante a crise financeira ou a pandemia de covid-19\u201d (p.258). Certamente \u00e9 verdade que, desde 2008, testemunhamos momentos em que o Estado interveio com grande vigor para estabilizar o capitalismo global, mas h\u00e1 poucas evid\u00eancias de qualquer esfor\u00e7o sustentado para impor controles mais rigorosos sobre grandes corpora\u00e7\u00f5es ou adotar n\u00edveis mais elevados de compromisso social.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O livro, talvez apropriadamente, considerando a perspectiva pol\u00edtica do autor, conclui com um apelo final ao Estado para conter os piores instintos do capitalismo. Citando um colega de pensamento, Dearden nos deixa com a mensagem de que a \u201ca grande quest\u00e3o realmente \u00e9: os governos t\u00eam a coragem de levar esse processo no caminho correto? Como podemos pression\u00e1-los para garantir que o fa\u00e7am?\u201d (p.268). <em>Pharmanomics<\/em> \u00e9 um livro de enorme utilidade, que deve ser lido por todos aqueles que desejam entender os mecanismos da gan\u00e2ncia irracional que minam e distorcem a produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de medicamentos em escala global. Ele tamb\u00e9m mostra muito claramente as principais \u00e1reas de pol\u00edtica em que a Big Pharma est\u00e1 sendo desafiada e onde precisa ser confrontada de forma mais decisiva. No entanto, quando se trata da an\u00e1lise pol\u00edtica que isso exigir\u00e1, a perspectiva liberal de ONGs que Dearden defende fica seriamente aqu\u00e9m do necess\u00e1rio.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>{<\/strong> <em>Outras Palavras<\/em> <strong>}<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #00ff00;\">\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>| Reprodu\u00e7\u00e3o\/www | \u21c5 Como a Big Pharma destr\u00f3i a Sa\u00fade Global Em novo livro, ativista explora de que maneira as grandes farmac\u00eauticas conquistaram o poder que hoje t\u00eam. O papel da propriedade intelectual e a neglig\u00eancia com doen\u00e7as pouco lucrativas. 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