{"id":115645,"date":"2023-09-19T06:10:53","date_gmt":"2023-09-19T09:10:53","guid":{"rendered":"http:\/\/aluzerna.com.br\/?p=115645"},"modified":"2025-12-31T22:08:21","modified_gmt":"2026-01-01T01:08:21","slug":"sobre-a-raca-do-homem-do-nordeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aluzerna.com.br\/?p=115645","title":{"rendered":"Sobre a &#8220;ra\u00e7a&#8221; do Homem do Nordeste"},"content":{"rendered":"<h6><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone\" src=\"http:\/\/www.aluzerna.com.br\/2023\/19-09-2023a.jpg\" alt=\"\" width=\"495\" height=\"365\" \/><br \/>\n<span style=\"color: #000000;\">| Reprodu\u00e7\u00e3o\/www |<\/span><\/h6>\n<p><span style=\"color: #00ff00;\">\u21c5<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"text-decoration: underline;\"><strong><em><span style=\"color: #000000; text-decoration: underline;\">A fala de Zema e g\u00eanese do pavoroso sert\u00e3o<\/span><\/em><\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><span style=\"color: #000000;\">Em 1923, s\u00e9rie de artigos publicada no Estad\u00e3o cristalizou os preconceitos sobre o Nordeste. Xenofobia dos textos alude a \u201cinferioridade da ra\u00e7a\u201d e \u201cmis\u00e9ria habitual\u201d e dialogam com o que havia de mais racista no Brasil do s\u00e9culo XX<\/span><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><span style=\"color: #000000;\">por Oct\u00e1vio Santiago, na Piau\u00ed<\/span><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">J\u00e1 se formava uma fila na Esta\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Bento, na cidade do Porto, quando me dei conta de que deveria ajud\u00e1-la. Os comandos da m\u00e1quina de autoatendimento pareciam confundir em vez de orientar a atrapalhada senhora naquela g\u00e9lida manh\u00e3 de novembro em Portugal. Pedi licen\u00e7a e a auxiliei a tirar o bilhete do trem. Ela devolveu palavras de gratid\u00e3o, mas que ecoaram para al\u00e9m dos azulejos da esta\u00e7\u00e3o:<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">&#8211;\u00a0Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 daqui, n\u00e3o \u00e9? -, perguntou.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">&#8211;\u00a0N\u00e3o, sou de Natal.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Ao que ela treplicou:<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">&#8211;\u00a0\u00c9 mesmo? Nossa! Mas voc\u00ea n\u00e3o tem cara de nordestino!<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A senhora brasileira n\u00e3o sabia, mas acabara de me ajudar num dilema que havia dias aperreava o meu sono: como iniciar a apresenta\u00e7\u00e3o de meu projeto de tese.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A Universidade do Minho, em Braga, distante 55 km do Porto, era o meu destino naquela segunda-feira, com o objetivo de expor a pesquisa em curso, justamente sobre a origem do preconceito contra o povo do Nordeste\u00a0&#8211; esse que sou, mas cuja \u201ccara\u201d n\u00e3o tenho.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Esse preconceito, que \u00e9 hist\u00f3rico, muitas vezes recalcado pelo povo do Sudeste e do Sul, reemergiu com toda for\u00e7a nas recentes declara\u00e7\u00f5es do governador Romeu Zema (Novo), de Minas Gerais. Ele defendeu a uni\u00e3o de estados do Sudeste e do Sul frente ao Nordeste e ao Norte, alegando que os primeiros produzem mais riqueza para o pa\u00eds que os segundos, que, por\u00e9m, obt\u00eam mais vantagens junto ao governo. A sugest\u00e3o de Zema foi acompanhada de uma avalanche de rea\u00e7\u00f5es de indigna\u00e7\u00e3o por resvalar para o separatismo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Horas depois do meu encontro na esta\u00e7\u00e3o, meu projeto foi aprovado na universidade, com a orienta\u00e7\u00e3o da professora e pesquisadora Rosa Cabecinhas, que escreveu certa vez num artigo: \u201cOs estere\u00f3tipos nunca s\u00e3o neutros.\u201d Se a rotula\u00e7\u00e3o de nossa apar\u00eancia persiste e atravessa o tempo e o espa\u00e7o\u00a0&#8211; chegou a Portugal, veja voc\u00ea -, de onde partiu esse arrasamento social e a que interesses atendeu? Algu\u00e9m definiu o homem do Nordeste e fez isso de modo depreciativo, em alto e bom som, para que a pecha ainda servisse muitos anos depois. Talvez cem anos depois. Ou exatamente cem anos depois.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Na Pauliceia rec\u00e9m-enamorada da ind\u00fastria, da urbaniza\u00e7\u00e3o e do modernismo, o jornal <em>O Estado de S. Paulo<\/em> publicou em agosto de 1923 as <em>Impress\u00f5es do Nordeste<\/em>, t\u00edtulo de uma s\u00e9rie de artigos matutados pelo m\u00e9dico sanitarista Paulo de Moraes Barros, ap\u00f3s uma \u201cexpedi\u00e7\u00e3o\u201d de 32 dias \u00e0quela por\u00e7\u00e3o do Brasil, chamada por ele, logo de cara, de \u201cterra do sofrimento\u201d. O intento inicial do articulista era apenas lan\u00e7ar luz sobre as obras que visavam amenizar a seca na regi\u00e3o rec\u00e9m-batizada: portos, a\u00e7udes e estradas de ferro, bancadas pela Uni\u00e3o desde o fim dos anos 1910.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Com o patroc\u00ednio da Sociedade Rural Brasileira (enfatizado no subt\u00edtulo de cada artigo), criada com o prop\u00f3sito de fomentar o agroneg\u00f3cio do pa\u00eds, leia-se o caf\u00e9, Moraes Barros seguiu de barco at\u00e9 Recife, de onde acessou o interior pernambucano e cidades da Para\u00edba, do Rio Grande do Norte e do Cear\u00e1. A \u201cexpedi\u00e7\u00e3o\u201d, como escreveu o emiss\u00e1rio, \u201cera desejo do supremo magistrado da na\u00e7\u00e3o, para que fosse informado ao pa\u00eds\u201d sobre os investimentos feitos na terra dos \u201cesqu\u00e1lidos retirantes\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A s\u00e9rie rendeu quatro longos artigos\u00a0&#8211; a reprodu\u00e7\u00e3o de confer\u00eancias realizadas no Club Commercial -, publicados em dez edi\u00e7\u00f5es do jornal que naquele tempo ostentava a maior circula\u00e7\u00e3o do Brasil. S\u00e3o linhas e mais linhas das piores impress\u00f5es sobre o Nordeste e, sobretudo, sobre o seu povo, que desde os artigos de Euclides da Cunha no mesmo jornal em 1897 n\u00e3o era v\u00edtima de tamanho reducionismo. A novidade era o Nordeste enquanto recorte espacial. At\u00e9 ent\u00e3o, falava-se de um Norte, vago, que abrangia tudo o que estivesse acima do que hoje se entende como Sudeste. Agora existia o Norte e, dentro dele, o Nordeste.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">J\u00e1 no texto de estreia, em 10 de agosto, o homem da nova regi\u00e3o \u00e9 tratado por Moraes Barros como fruto de uma \u201cBabel de sangue deprimida\u201d, na qual uma gente \u201csupersticiosa\u201d, \u201cfatalista\u201d e \u201cindolente\u201d, que \u201cvive de farinha e rapadura\u201d e \u201cvegeta por contempla\u00e7\u00e3o\u201d, sobrevive, \u201ccom o esp\u00edrito sempre voltado para o seu pequenino mundo desolador\u201d. Claramente afetado pelo naturalismo de Euclides da Cunha e guiado pelas teorias eugenistas que pautavam a ci\u00eancia na \u00e9poca, Moraes Barros enxerga o \u201coutro\u201d como ant\u00edtese, e separa a terra do homem, para que possa compartilhar com os compatriotas do Sul as suas sinceras impress\u00f5es a respeito dos \u201cb\u00edpedes\u201d\u00a0&#8211; sim, essa \u00e9 a palavra usada nos textos\u00a0&#8211; que habitam o tal Nordeste do Brasil.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Assim como em <em>Os Sert\u00f5es<\/em>, as <em>Impress\u00f5es<\/em> de Moraes Barros publicadas pelo <em>Estado de S. Paulo<\/em> avan\u00e7am primeiro sobre caracter\u00edsticas gerais, geogr\u00e1ficas e hidrogr\u00e1ficas, para ent\u00e3o adentrar o m\u00e9rito da \u201cforma\u00e7\u00e3o \u00e9tnica\u201d. Ainda no in\u00edcio, fala em \u201cpoupar o Nordeste de julgamentos pr\u00e9vios\u201d, mas n\u00e3o hesita em discorrer de modo hostil, assumindo o racismo e o determinismo geogr\u00e1fico como b\u00fassola: \u201cEssa popula\u00e7\u00e3o, genuinamente nacional, \u00e9 ainda am\u00e1lgama informe de cruzamentos entre brancos, pretos e abor\u00edgenes, em todos os graus de sub-mesti\u00e7agem. (\u2026) H\u00e1 muito preto retinto e ainda mais emba\u00e7ado; muito branco alourado, de olhos azuis, assim como moreno, de nariz grego ou romano, traindo origem europeia, muito \u00edndio leg\u00edtimo, de tez requeimada e cabelos corredios de azeviche. Tamb\u00e9m h\u00e1 muito mulato sem cor, muito cabra disfar\u00e7ado (\u2026). Claro, muito bugre sem ra\u00e7a, como muito branco tostado.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Foi, ali\u00e1s, uma encomenda de <em>O Estado de S. Paulo<\/em> que levou Euclides a Canudos, acompanhando uma expedi\u00e7\u00e3o militar ao povoado, em 1897. A jornada rendeu uma s\u00e9rie de artigos maltratantes com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o local que serviu de base, ap\u00f3s abrandamento, \u00e0 escrita de <em>Os Sert\u00f5es<\/em>, publicado em 1902. \u201cO sertanejo \u00e9, antes de tudo, um forte\u201d, escreveu Euclides, mas acrescentou que \u201co mesti\u00e7o \u00e9 um deca\u00eddo, sem a energia f\u00edsica dos ancestrais selvagens, sem a altitude intelectual dos ancestrais superiores\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Na segunda confer\u00eancia de Moraes Barros, que o jornal publicou em duas partes, em 15 e 16 de agosto, o m\u00e9dico sanitarista volta a desembestar sobre a \u201cra\u00e7a\u201d do homem do Nordeste e o \u201cmovimento regressivo\u201d que por si s\u00f3 representa. Ele escreve: \u201cPatente a sua degenera\u00e7\u00e3o, que se afirma em taxa progressiva, quer considerada pelo lado f\u00edsico, quer pelo intelectual.\u201d Chega a pontuar os quatro \u201celementos b\u00e1sicos da degenera\u00e7\u00e3o\u201d do nordestino, a saber: \u201cO cruzamento de indiv\u00edduos de ra\u00e7as extremas; a mis\u00e9ria habitual, agravada pelo flagelo peri\u00f3dico; o clima quente, sem o ambiente moderador da vegeta\u00e7\u00e3o; e as mol\u00e9stias end\u00eamicas.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Nessas linhas de enjeitamento da segunda confer\u00eancia, a descri\u00e7\u00e3o f\u00edsica dos que habitam o Nordeste ganha mais corpo, com o requinte de quem tem disposi\u00e7\u00e3o intelectual para arrasar a sua gente: \u201cO homem \u00e9 geralmente pequeno e descarnado, com tend\u00eancia \u00e0 fixa\u00e7\u00e3o de esqueleto defeituoso, como normal, sobretudo da ossatura tor\u00e1cica, cervical e craneana. A mulher, raramente atraente, envelhece precocemente pela prematura concep\u00e7\u00e3o e excessiva prolificidade, n\u00e3o sendo raro ter mais de quinze filhos e, como resultado, a decrepitude aos 40 anos.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A reprodu\u00e7\u00e3o desse trecho durante a apresenta\u00e7\u00e3o do meu projeto pareceu convencer a banca do doutoramento em Ci\u00eancias da Comunica\u00e7\u00e3o da Universidade do Minho de que a pesquisa que eu propunha tinha sust\u00e2ncia e poderia render frutos proveitosos. Minha miss\u00e3o n\u00e3o era inferir ou apreender o dito nas entrelinhas: tudo estava escancarado, de modo palp\u00e1vel, sem eufemismos ou disfarces. O olhar piedoso das professoras presentes foi quase a certeza do ansiado \u201csim\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Mas, voltando a Moraes Barros, \u00e9 como diz aquela frase de origem incerta: \u201cN\u00e3o h\u00e1 nada t\u00e3o ruim que n\u00e3o possa piorar.\u201d \u00c9 na segunda confer\u00eancia que os escritos dialogam de maneira \u00edntima com o que havia de mais racista no Brasil do in\u00edcio do s\u00e9culo XX: a promo\u00e7\u00e3o do branqueamento da sua popula\u00e7\u00e3o, cujo movimento maior foi o incentivo agressivo \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o de trabalhadores da Europa. O rem\u00e9dio \u00e9 tamb\u00e9m receitado pelo m\u00e9dico sanitarista: \u201cFaz-se mister que, ao par das grandes obras, que assegurar\u00e3o a labuta sadia e remuneradora, se fa\u00e7a naquelas popula\u00e7\u00f5es depauperadas inje\u00e7\u00e3o consent\u00e2nea de sangue restaurador, europeu\u201d, sob pena de acontecer \u201co completo abastardamento \u00e9tnico da regi\u00e3o.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u201cA mesti\u00e7agem era tratada como uma ra\u00e7a impura, degenerada, atrasada e indolente\u201d, diz Marlon Marcos Vieira Passos, doutor em Antropologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), que pesquisa a forma\u00e7\u00e3o \u00e9tnica do Nordeste. \u201cO nordestino era majoritariamente negro ou mesti\u00e7o. A vis\u00e3o era a da supremacia branca, como se houvesse uma Europa dentro de S\u00e3o Paulo, que n\u00e3o existia no Nordeste do pa\u00eds.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Autor do livro <em>A Inven\u00e7\u00e3o do Nordeste<\/em>, o professor e historiador Durval Muniz de Albuquerque Jr. explica que o termo \u201cNordeste\u201d, usado para designar a regi\u00e3o, apareceu pela primeira vez em um documento p\u00fablico em 1919, quando da cria\u00e7\u00e3o da Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas (IFOCS), como ressalta o pr\u00f3prio Moraes Barros. O \u00f3rg\u00e3o foi instalado durante o governo do presidente Epit\u00e1cio Pessoa (1909-10) para realizar obras que amenizassem a estiagem nos estados.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Moraes Barros foi convidado a visitar justamente esses locais. Ele conta que partiu do novo presidente, o mineiro Artur Bernardes (1922-26), o telegrama etiquetado como \u201curgente\u201d, para que a sua \u201cexpedi\u00e7\u00e3o\u201d acontecesse de imediato, com ordens espec\u00edficas do Executivo para que informasse o Brasil sobre as dispendiosas interven\u00e7\u00f5es feitas na regi\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Albuquerque Jr. lembra que o tempero dessa hist\u00f3ria era a disputa inter-regional que seguia em andamento, com o confronto bem aquecido entre as elites ascendentes do Sudeste e as que estavam em fal\u00eancia no Nordeste, como os senhores de engenho de Pernambuco, que viram seu prest\u00edgio pol\u00edtico encolher junto da economia do a\u00e7\u00facar. \u201cO Nordeste virou um centro de aten\u00e7\u00e3o porque era uma regi\u00e3o cujas elites ainda disputavam a hegemonia nacional e todo o investimento recente feito pela Uni\u00e3o significava o remanejamento de recursos reivindicados pelo chamado Sul, que era o novo espa\u00e7o de poder\u201d, me explica o historiador.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Elite nordestina, vale o registro, que n\u00e3o recebe qualquer cita\u00e7\u00e3o nas confer\u00eancias de 1923. Apenas a decad\u00eancia econ\u00f4mica da regi\u00e3o \u00e9 citada e recitada nos textos, incitando \u00e0 cis\u00e3o entre \u201cn\u00f3s\u201d, de S\u00e3o Paulo, e os \u201coutros\u201d, do Nordeste. Soma-se a isso as migra\u00e7\u00f5es em curso do Nordeste para S\u00e3o Paulo, onde se ampliavam as possibilidades de emprego gra\u00e7as \u00e0 urbaniza\u00e7\u00e3o e \u00e0 industrializa\u00e7\u00e3o. Coincidentemente, foi tamb\u00e9m nas p\u00e1ginas de <em>O Estado de S. Paulo<\/em> que o governador Romeu Zema comparou o Nordeste-Norte com \u201cvaquinhas que produzem pouco\u201d e o Sul-Sudeste com \u201cvaquinhas que produzem mais\u201d. \u00c9 uma variante do discurso de cem anos atr\u00e1s.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A terceira e a quarta confer\u00eancias, tamb\u00e9m publicadas no m\u00eas de agosto de 1923, aprofundam sobre as obras contra a seca, falando dos investimentos realizados e da capacidade potencial dos empreendimentos, que estavam atrasados quando da visita de Moraes Barros. O fen\u00f4meno da seca aparece como causa e consequ\u00eancia daquela \u201cgrandiosa e triste opul\u00eancia da desola\u00e7\u00e3o\u201d que \u00e9 a paisagem geogr\u00e1fica e humana do Nordeste. Vieira Passos diz que se tratava de um projeto da \u00e9poca: o de reduzir a regi\u00e3o \u00e0 irregularidade de chuvas, tornando um problema clim\u00e1tico maior que o drama de sua popula\u00e7\u00e3o. Essa perspectiva \u00e9 reiterada por Moraes Barros, em suas recomenda\u00e7\u00f5es para que as despesas da Uni\u00e3o sempre se pautem pela balan\u00e7a do razo\u00e1vel. Afinal, \u201ctudo isso custa caro e muito caro, por ser feita em terra desprovida de recursos e, ainda mais, por ser o Brasil o seu tesoureiro\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">No primeiro turno das elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2022, apoiadores de Jair Bolsonaro publicaram nas redes sociais uma s\u00e9rie de ofensas \u00e0s pessoas do Nordeste, regi\u00e3o onde Lula havia obtido a maioria dos votos. \u201cImbecil\u201d e \u201cjumento\u201d foram alguns dos xingamentos usados. Os seguidores de Bolsonaro se sentem \u00e0 vontade para esse tipo de tratamento, uma vez que o ex-presidente costumava se referir aos nordestinos como \u201cpara\u00edbas\u201d. Em uma transmiss\u00e3o ao vivo pela internet, ele perguntou a Tarc\u00edsio de Freitas, ent\u00e3o ministro da Infraestrutura e hoje governador de S\u00e3o Paulo, se ele tinha algum parente \u201cpau de arara\u201d\u00a0&#8211; meio de transporte utilizado nos movimentos migrat\u00f3rios de nordestinos para o Sudeste nas d\u00e9cadas de 1930 e 1940. Ap\u00f3s Freitas confirmar que tinha familiares no Nordeste, Bolsonaro acrescentou: \u201cCom essa cabe\u00e7a a\u00ed, voc\u00ea n\u00e3o nega, n\u00e3o.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Uma investiga\u00e7\u00e3o realizada na Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR) por Alice Lima, doutoranda em Comunica\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica, sob a orienta\u00e7\u00e3o de Carla Rizzotto, professora de Comunica\u00e7\u00e3o, examinou os discursos de teor racista e xenof\u00f3bico contra os nordestinos durante a campanha de 2022. As falas preconceituosas contra estrangeiros e pessoas de outras regi\u00f5es do pa\u00eds foram as que mais cresceram nas redes sociais. Segundo levantamento feito pela Safernet, ONG que acolhe den\u00fancias de crimes contra os direitos humanos na internet, houve um aumento de 821% com rela\u00e7\u00e3o a 2021. \u201cOs melhores ant\u00eddotos contra essa pr\u00e1tica s\u00e3o a informa\u00e7\u00e3o e a desconstru\u00e7\u00e3o imediata das manifesta\u00e7\u00f5es logo que acontecerem\u201d, diz Lima. \u201cAs vozes de l\u00edderes pol\u00edticos e formadores de opini\u00e3o tamb\u00e9m s\u00e3o fundamentais nesse processo.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">No dia a dia, os preconceitos se difundem ainda hoje, incontrol\u00e1veis. Por ter forte sotaque nordestino, mas ser loira, a banc\u00e1ria Lara Barros, de 39 anos, intrigou um grupo de paulistas que fazia um curso com ela fora do pa\u00eds. Uma das colegas chegou a afirmar que \u201cn\u00e3o existem pessoas\u201d com as caracter\u00edsticas f\u00edsicas de Barros no Nordeste. A afirma\u00e7\u00e3o preconceituosa demonstra desconhecimento sobre a hist\u00f3ria do Brasil e a forma\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o nordestina. Al\u00e9m da presen\u00e7a portuguesa, que se deu em todo o territ\u00f3rio nacional, o Rio Grande do Norte, onde a banc\u00e1ria nasceu, foi ocupado por holandeses no s\u00e9culo XVII. A cidade de Natal, inclusive, chegou a ser rebatizada de Nova Amsterd\u00e3 durante esse per\u00edodo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">No Rio de Janeiro, durante a pandemia, a jornalista Gabriela Leal, de 36 anos, em uma das suas idas a uma feira no bairro de Botafogo, ouviu uma cliente reclamar dos nordestinos por causa da escassez de manteiga de garrafa. De nada adiantou a vendedora explicar que a crise sanit\u00e1ria estava atrapalhando a produ\u00e7\u00e3o e a distribui\u00e7\u00e3o da iguaria vinda do Nordeste. A cliente inconformada disparou, buscando a cumplicidade de quem estava perto dela: \u201cMas esses nordestinos s\u00e3o muito pregui\u00e7osos mesmo, n\u00e3o s\u00e3o?\u201d Leal n\u00e3o teria como concordar. Ela come\u00e7ou na labuta cedo, no com\u00e9rcio dos pais, entre as cidades de Natal e Recife. Mudou-se para S\u00e3o Paulo e depois para o Rio de Janeiro, onde trabalha dois expedientes e cria um filho de dois anos. A pregui\u00e7a nunca foi um privil\u00e9gio poss\u00edvel para ela.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A publicit\u00e1ria Mariana Gurgel, de 36 anos, participava da primeira confraterniza\u00e7\u00e3o do seu novo emprego, em S\u00e3o Paulo, quando o chefe pediu licen\u00e7a a todos para tecer elogios aos colaboradores da equipe. Na hora de falar sobre Mariana, destacou que a entrega dela ao trabalho fora para ele uma \u201cgrata surpresa\u201d: \u201cMesmo voc\u00ea sendo do Nordeste, demonstrou muita compet\u00eancia.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Surpresas como essa podem acontecer tamb\u00e9m no campo art\u00edstico. O ator e dramaturgo Henrique Fontes, de 48 anos, recebeu um elogio similar ao final da apresenta\u00e7\u00e3o de uma pe\u00e7a. \u201cNem parece uma pe\u00e7a nordestina\u201d, disse um espectador para a trupe, depois de uma exibi\u00e7\u00e3o. Fontes \u00e9 um dos atores da pe\u00e7a <em>A Inven\u00e7\u00e3o do Nordeste<\/em>, adaptada do livro do historiador Albuquerque Jr. pelo Grupo Carmim, formado por ele, Robson Medeiros e Mateus Cardoso. Apesar do trabalho quase pedag\u00f3gico feito no palco, os atores passam por amargas experi\u00eancias quando resolvem se candidatar a outras pe\u00e7as ou filmes. \u201cAo fazer testes, sobretudo para produ\u00e7\u00f5es audiovisuais, ou voc\u00ea tem \u2018sotaque demais\u2019 ou \u2018n\u00e3o \u00e9 nordestino o suficiente\u2019\u201d, conta Fontes.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O tal \u201csotaque nordestino\u201d \u00e9 um dos elementos que cimentam a estereotipa\u00e7\u00e3o do variado povo da regi\u00e3o, como se o cearense falasse do mesmo jeito que o baiano, o piauiense de maneira igual ao pernambucano. N\u00e3o se v\u00ea reducionismo similar quando se trata de paulistas, cariocas e mineiros, cujos modos de falar nunca s\u00e3o reduzidos a um s\u00f3, gen\u00e9rico. Mesmo nas novelas e filmes, o erro sobre os nordestinos persiste h\u00e1 d\u00e9cadas. E h\u00e1 coisa pior: os produtos audiovisuais frequentemente escalam atores nascidos fora do Nordeste para interpretar o \u201cnordestino de folhetim\u201d, com sotaque e trejeitos t\u00e3o falaciosos quanto ofensivos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Recentemente, viralizou nas redes sociais um v\u00eddeo mostrando o jornalista Alan Severiano, que \u00e9 de Natal, em dois momentos diversos da sua carreira. O primeiro de quando ele era rep\u00f3rter da TV Universit\u00e1ria, emissora educativa subordinada \u00e0 Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). O segundo de quando ele passou a apresentador substituto do <em>Jornal Hoje<\/em>. Severiano tem um sotaque diferente em cada v\u00eddeo. As consoantes \u201ct\u201d e \u201cd\u201d faladas do modo como s\u00e3o escritas (como, por exemplo, em \u201cteatro\u201d), pr\u00e1tica comum do povo potiguar, d\u00e3o lugar a chiados que n\u00e3o costumam ser ouvidos entre os seus conterr\u00e2neos (como na pron\u00fancia \u201ctchiatro\u201d). As discuss\u00f5es inflamadas nas redes sociais ressaltaram como um sotaque neutro (mas nem t\u00e3o neutro assim) \u00e9 imposto aos n\u00e3o cariocas e n\u00e3o paulistas que conseguem chegar a uma grande emissora de tev\u00ea.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Se todas essas situa\u00e7\u00f5es t\u00eam efeitos devastadores do ponto de vista humano e mesmo reputacional nos dias de hoje, quais n\u00e3o ter\u00e3o sido as consequ\u00eancias dos artigos de Moraes Barros em 1923? \u00c9 todo um s\u00e9culo durante o qual o povo do Nordeste foi sucessivamente tachado de inferior, submetido a anedotas e gracejos, em que a pr\u00f3pria regi\u00e3o, t\u00e3o diversa entre si, foi tratada conjuntamente como um \u201cpavoroso sert\u00e3o\u201d, para citar o m\u00e9dico sanitarista. S\u00e3o cem anos de perversa rejei\u00e7\u00e3o de parte do Brasil e de parte de seu povo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>{<\/strong> <em>Outras Palavras<\/em> <strong>}<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #00ff00;\">\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591\u2591<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>| Reprodu\u00e7\u00e3o\/www | \u21c5 A fala de Zema e g\u00eanese do pavoroso sert\u00e3o Em 1923, s\u00e9rie de artigos publicada no Estad\u00e3o cristalizou os preconceitos sobre o Nordeste. Xenofobia dos textos alude a \u201cinferioridade da ra\u00e7a\u201d e \u201cmis\u00e9ria habitual\u201d e dialogam com o que havia de mais racista no Brasil do s\u00e9culo XX por Oct\u00e1vio Santiago, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3258,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[115],"tags":[],"class_list":["post-115645","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-redoble"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/115645","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=115645"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/115645\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":156526,"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/115645\/revisions\/156526"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/3258"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=115645"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=115645"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=115645"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}