{"id":11151,"date":"2016-10-19T23:14:41","date_gmt":"2016-10-20T03:14:41","guid":{"rendered":"http:\/\/aluzerna.com.br\/?p=11151"},"modified":"2016-10-20T18:46:35","modified_gmt":"2016-10-20T22:46:35","slug":"na-sede-de-tudo-engolfar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aluzerna.com.br\/?p=11151","title":{"rendered":"Na sede de tudo engolfar"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_11173\" style=\"width: 465px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-11173\" class=\"size-full wp-image-11173\" src=\"http:\/\/aluzerna.com.br\/wp-content\/uploads\/19-10-2016c.jpg\" alt=\"Reprodu\u00e7\u00e3o\/www\" width=\"455\" height=\"315\" srcset=\"https:\/\/aluzerna.com.br\/wp-content\/uploads\/19-10-2016c.jpg 455w, https:\/\/aluzerna.com.br\/wp-content\/uploads\/19-10-2016c-300x208.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 455px) 100vw, 455px\" \/><p id=\"caption-attachment-11173\" class=\"wp-caption-text\">Reprodu\u00e7\u00e3o\/www<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"text-decoration: underline; color: #000000;\"><em><strong>A bolha do Facebook e a ast\u00facia do capitalismo<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><em>A persegui\u00e7\u00e3o do outro em todas as latitudes do planeta deriva tamb\u00e9m deste mundo circunscrito \u00e0s timelines virtuais<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><em>por Rosane Borges<\/em><\/span><br \/>\n<span style=\"color: #000000;\"><em> [Carta Capital]<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A internet e as redes sociais t\u00eam o poder de descortinar, inecessantemente, um mundo de maravilhas. Part\u00edcipes de formas de comunica\u00e7\u00e3o e express\u00e3o mais horizontais e democr\u00e1ticas, franqueadas pelo mundo digital, temos tudo (ou quase tudo) ao nosso alcance com um simples toque. Transporte f\u00e1cil (Uber), acesso a comida e bebida (OpenRice, JustEat), amor e sexo (Tinder, Grindr).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Com as redes sociais, desprovincianizamos o mundo, pagamos, sem perceber, ingresso \u00e0 pra\u00e7a moderna do mercado onde se expressam publicamente pensamentos, onde se trocam ideias, not\u00edcias e informa\u00e7\u00f5es variadas circulam.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Neste ambiente tecnol\u00f3gico, experimentamos um modo de vida sem precedentes, proclamam os mais entusiastas. At\u00e9 a\u00ed nenhuma novidade.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Mas, eis que vez por outra ouvimos rumores que contrariam t\u00e3o propalado progn\u00f3stico. Para muitos, as redes sociais n\u00e3o conseguem nos arrancar do nosso oceano particular, do inv\u00f3lucro que nos protege do mundo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Exemplos escapolem em forma de decep\u00e7\u00e3o: as elei\u00e7\u00f5es para prefeito da cidade de S\u00e3o Paulo foi uma mostra exemplar que corroborou que a nossa timeline n\u00e3o \u00e9, necessariamente, espelho do mundo, como \u00e0s vezes parecemos acreditar.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Dias antes das elei\u00e7\u00f5es, um tom de euforia e esperan\u00e7a marcou postagens no Facebook, que arriscavam um segundo turno com o atual prefeito Fernando Haddad na jogada. Apresentado o resultado, alguns passaram a dizer: \u201c\u00c9, realmente o Facebook \u00e9 uma bolha. Tanta gente na minha rede que dizia votar no Haddad&#8230;.\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Em tom de exorta\u00e7\u00e3o, outros retrucavam: \u201c\u00c9 hora de sairmos das redes sociais, pois enquanto ap\u00f3stavamos, baseados no desempenho de nossa timeline, que haveria segundo turno com Haddad, ficamos s\u00f3 na saudade\u201d. E assim um ros\u00e1rio de queixas foi se formando.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Os rapazes do Vale do Sil\u00edcio n\u00e3o deixam margem \u00e0 d\u00favida. O que j\u00e1 era uma tend\u00eancia, virou regra. Cada vez mais somos envolvidos em postagens que nos aproximam, assustadoramente, dos mais pr\u00f3ximos: postagens fofas de casamento, nascimento de beb\u00eas, fotos felizes de fam\u00edlias ideais, not\u00edcias sobre temas com os quais temos afinidade, escassez de debate e de cr\u00edtica consequentes. E cada vez menos nos deparamos com pessoas que pensam diferente.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Essa pr\u00e1tica nos afasta de uma abertura ao outro, propicia limita\u00e7\u00f5es cognitivas. O recurso \u00e9 aparentemente simples: ao oferecermos informa\u00e7\u00f5es sobre n\u00f3s mesmos (onde estamos, para onde vamos, que site costumamos visitar, quem s\u00e3o nossos familiares, amigos, companheiros), somos diuturnamente monitorados, e essa infinidade de dados \u00e9 controlada por poucas empresas, que passam a ser donas de nossas informa\u00e7\u00f5es pessoais. Os algoritmos, \u201cgentilmente\u201d, nos oferecem o que, supostamente, \u00e9 melhor pra gente.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Jo\u00e3o Carlos Magalh\u00e3es, pesquisador da London School of Economics, abrevia pedagogicamente o funcionamento dos algoritmos: \u201c(..) s\u00e3o usados para decidir automaticamente o que \u00e9 mais ou menos relevante e deve portanto ser mais ou menos visto. O que vai ou n\u00e3o estar no seu feed de not\u00edcias, o que vai estar na primeira ou na terceira p\u00e1gina de sua busca no Google.&#8221;<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">&#8220;Essa personaliza\u00e7\u00e3o profunda&#8221;, continua ele, &#8220;s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel pois os dados produzidos pelos sensores (e por n\u00f3s mesmos) ajudam a treinar os algoritmos sobre o que nos interessa, e permitem que os sistemas sejam constantemente afinados para refletir nossas supostas prefer\u00eancias\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Com os algoritmos, descobrimos que a mercadoria somos n\u00f3s, nossos pares de olhos (a mais-valia da sociedade da hipervisibilidade), nossos desejos. Os desdobramentos disso j\u00e1 se fazem sentir: homogeneiza\u00e7\u00e3o das identidades, padroniza\u00e7\u00e3o de gostos (com a Netflix nos indicando filmes porque nosso amigo assistiu), empobrecimento da curiosidade cultural&#8230;<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Nada deve ficar opaco, tudo deve aspirar \u00e0 transpar\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u00c9 um est\u00e1gio do capitalismo em que tudo deve ser apropriado, colonizado. Se n\u00e3o estou enganada, \u00e9 de Walter Benjamin a afirma\u00e7\u00e3o segundo a qual a \u00fanica coisa que o capitalismo n\u00e3o consegue colonizar \u00e9 aquilo que a gente tem de mais esquisito, as nossas singularidades inimit\u00e1veis.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">No entanto, na sua sede de tudo engolfar, o capitalismo avan\u00e7a em territ\u00f3rios at\u00e9 ent\u00e3o protegidos. O historiador Jonathan Crary alerta que j\u00e1 vivemos sob a l\u00f3gica da sociedade 24\/7 (a que pouco ou nada dorme) e que \u201cnossa necessidade de repouso e sono \u00e9 a \u00faltima fronteira ainda n\u00e3o ultrapassada pela l\u00f3gica da mercadoria\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">No entanto, pesquisas est\u00e3o sendo financiadas para acharem a f\u00f3rmula do \u201chomem sem sono\u201d, do homem 24\/7. Tablets e celulares, para o historiador, v\u00e3o nos acostumando a ficar sempre ligados, a servi\u00e7o de not\u00edcias e postagens que a um toque, a qualquer alerta sonoro nos desperte.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Esse abatimento do homem em quase todos os dom\u00ednios, em que o seu mundo circundante \u00e9 o que parece importar, nos leva a pensar no lugar em que a gente se p\u00f5e no mundo via Facebook, em particular, e redes sociais, em geral.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Tentando, nesse ambiente, responder \u00e0 pergunta de Martin Heiddeger, &#8220;Onde estamos quando estamos no mundo?&#8221;, podemos precariamente ajuizar que estamos abrigados em bolhas ou clusters de relacionamento.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Estamos, no dizer do tamb\u00e9m fil\u00f3sofo alem\u00e3o Peter Sloterdijk, em esferas\/bolhas que nos protegem dos perigos e da falta de camadas protetoras, caracter\u00edstica pr\u00f3pria da \u00e9poca moderna.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Arremata Sloterdijk: \u201cRedes e pol\u00edticas de seguran\u00e7a devem, agora, ocupar o lugar das camadas celestiais; a telecomunica\u00e7\u00e3o deve fazer as vezes do abra\u00e7o circundante. Envolto em uma pele midi\u00e1tica eletr\u00f4nica, o corpo da humanidade deve criar para si uma nova composi\u00e7\u00e3o imunit\u00e1ria\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Eis o nosso desafio. Sair da pele midi\u00e1tica eletr\u00f4nica e exercer plenamente a comunica\u00e7\u00e3o, que significa um encontro radical com o Outro, sem o qual n\u00e3o existimos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Num mundo em que as amea\u00e7as globais residem na falta do exerc\u00edcio de alteridade, a persegui\u00e7\u00e3o do Outro em todas as latitudes do planeta deriva de um mundo enclausurado em seu pr\u00f3prio umbigo, um mundo de incomunicabilidade, de muita opini\u00e3o (santo Facebook) e pouca reflex\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Donald Trump, Brexit, a ascens\u00e3o da direita xen\u00f3foba europeia e o ataque a programas sociais no Brasil podem ser vistos como elementos de uma mesma equa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que os espa\u00e7os material e digital se mostram intolerantes e pouco dispostos a pensarem coletivamente.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Se a t\u00e9cnica n\u00e3o \u00e9 neutra, podemos, sem exageros, avistar conex\u00f5es entre a pol\u00edtica, a economia e a tecnologia para tentarmos alguma chance de explica\u00e7\u00e3o do presente complexo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u00c9 preciso que se diga que, para al\u00e9m dos motivos em circula\u00e7\u00e3o (crise do capital, globaliza\u00e7\u00e3o e tantos outros diagn\u00f3sticos grandiloquentes), a reatualiza\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas racistas, sexistas e xenof\u00f3bicas pode tamb\u00e9m ser compreendida por meio do enunciado, expresso assim de maneira curta e grossa: \u00c9 o algoritmo, est\u00fapido!<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>{<\/strong> <em>F\u00f3rum Nacional pela Democratiza\u00e7\u00e3o da Comunica\u00e7\u00e3o &#8211;\u00a0FNDC<\/em> <strong>}<\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A bolha do Facebook e a ast\u00facia do capitalismo A persegui\u00e7\u00e3o do outro em todas as latitudes do planeta deriva tamb\u00e9m deste mundo circunscrito \u00e0s timelines virtuais por Rosane Borges [Carta Capital] A internet e as redes sociais t\u00eam o poder de descortinar, inecessantemente, um mundo de maravilhas. 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