{"id":10063,"date":"2016-09-23T00:08:44","date_gmt":"2016-09-23T04:08:44","guid":{"rendered":"http:\/\/aluzerna.com.br\/?p=10063"},"modified":"2016-09-23T14:18:19","modified_gmt":"2016-09-23T18:18:19","slug":"a-jovem-fora-violada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aluzerna.com.br\/?p=10063","title":{"rendered":"A &#8220;jovem&#8221; fora violada"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_10420\" style=\"width: 385px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-10420\" class=\"size-full wp-image-10420\" src=\"http:\/\/aluzerna.com.br\/wp-content\/uploads\/23-09-2016a.jpg\" alt=\"Reprodu\u00e7\u00e3o\/www\" width=\"375\" height=\"287\" srcset=\"https:\/\/aluzerna.com.br\/wp-content\/uploads\/23-09-2016a.jpg 375w, https:\/\/aluzerna.com.br\/wp-content\/uploads\/23-09-2016a-300x230.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 375px) 100vw, 375px\" \/><p id=\"caption-attachment-10420\" class=\"wp-caption-text\">Reprodu\u00e7\u00e3o\/www<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"text-decoration: underline;\"><span style=\"color: #000000;\"><em><strong>Dilma \u00e9 derrubada. Cai tamb\u00e9m a tese da democracia<\/strong><\/em><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><em>por Rog\u00e9rio Castro<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O dia 31 de agosto do ano de 2016 acaba de entrar para os anais dos importantes acontecimentos da hist\u00f3ria nacional por conta da condena\u00e7\u00e3o &#8211;\u00a0sem provas &#8211;\u00a0da presidente da Rep\u00fablica Federativa do Brasil, Dilma Rousseff, n\u00e3o sup\u00e9rfluo o registro, reeleita pelo voto livre e direto em 26 de outubro de 2014 para um mandato de quatro anos (2015-2018). Foi uma cassa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, um golpe! As raz\u00f5es que a levaram a tal condi\u00e7\u00e3o, do ponto de vista pol\u00edtico, ainda h\u00e3o de ser em detalhes investigadas; da mesma maneira, n\u00e3o ser\u00e1 nessas linhas que ir\u00e1 se expor, em seus pormenores, os fundamentos que infirmam a legalidade e a legitimidade do processo, por certo, ent\u00e3o, o predicado que lhe adjudica de golpe, de ruptura com as leis institucionais. O que tentaremos iluminar nessas breves linhas \u00e9 exatamente o desenraizamento, ou a fetichiza\u00e7\u00e3o, daquilo que parcela expressiva da esquerda patrocinou, alimentou, e que agora, a pr\u00f3pria hist\u00f3ria pr\u00e1tica, real, e n\u00e3o a teoria, acaba de refutar e faz vir ao ch\u00e3o: a democracia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">No ano de 1979, Carlos Nelson Coutinho, fil\u00f3sofo e professor em\u00e9rito da UFRJ falecido a 20 de setembro de 2012, de modo s\u00e9rio, no contexto em que a hipertrofia do estado sovi\u00e9tico h\u00e1 muito tornara-se insuport\u00e1vel, escreveu um texto do qual o pr\u00f3prio orgulhara-se por ter sido um dos mais lidos na esquerda quando da sua publica\u00e7\u00e3o: &#8216;A democracia como valor universal&#8217;. Embora, conforme o mesmo se assegure, a sua concep\u00e7\u00e3o de valor almeje estar plenamente livre da percep\u00e7\u00e3o abstrata de valor, por exemplo, dos kantianos, e vise a se fundar na ontologia (por isso, o \u201cvalor\u201d enquanto objeto \u00e9, para ele, substantivo), isto \u00e9, entender a g\u00eanese do valor a partir do trabalho e enquanto decorr\u00eancia necess\u00e1ria do seu processo de socializa\u00e7\u00e3o, a argumenta\u00e7\u00e3o de Carlos Nelson n\u00e3o deixa de incorrer no que aqui se chama de fetichiza\u00e7\u00e3o da democracia. O fil\u00f3sofo estava convencido de que, por contribuir para explicitar e desenvolver o ser gen\u00e9rico do homem [que, para a ex-disc\u00edpula de Luk\u00e1cs, Agnes Heller, autora na qual ele apoia a sua constata\u00e7\u00e3o, fariam parte dessa ess\u00eancia gen\u00e9rica do homem: o trabalho (a objetiva\u00e7\u00e3o), a socializa\u00e7\u00e3o, a universalidade, a consci\u00eancia e a liberdade], tanto nas forma\u00e7\u00f5es sociais capitalistas como nas socialistas, seria correto conferir ao substantivo valor o qualificativo de \u201cuniversal\u201d para se referir \u00e0 democracia, algo que seria quase consensual nos dias em que ele escrevera, e que, ainda segundo o pr\u00f3prio, era nada mais do que a express\u00e3o subjetiva de algo primariamente objetivo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Antes de mergulhar na mis\u00e9ria filos\u00f3fica com a qual justifica hoje a \u201cdemocracia\u201d, o PT haveria de percorrer a d\u00e9cada de 1980, sendo ele, desde ent\u00e3o, uma express\u00e3o variegada de for\u00e7as (em seu interior, abrigava-se de ex-guerrilheiros a membros dos Conselhos Eclesiais de Base; ver: &#8216;Hist\u00f3ria do PT&#8217;. Lincoln Secco, 2011), cujas disputas, muitas das quais fratricidas, mantinham &#8211;\u00a0em disputa &#8211;\u00a0o horizonte estrat\u00e9gico do partido. \u00c9 somente ap\u00f3s esse processo permeado de vicissitudes &#8211;\u00a0do qual pode se destacar a desvincula\u00e7\u00e3o, como quem se desfaz de um grande inconveniente, da express\u00e3o ditadura do proletariado, e tamb\u00e9m, ap\u00f3s a d\u00e9b\u00e2cle sovi\u00e9tica, de tudo que remetesse \u00e0 economia planificada (um contraponto \u00e0 produ\u00e7\u00e3o an\u00e1rquica e epid\u00eamica do capitalismo) -, como se, no \u00e2mbito do ser dos seus dirigentes, fosse preciso livrar-se \u201cdesse passado decr\u00e9pito\u201d, depurar-se, para assim se obter as credenciais da pol\u00edtica profissionalizada, institucional (note-se que a consequ\u00eancia disso \u00e9 que as determina\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas v\u00e3o progressivamente sendo abandonadas e passam a ser objeto de mera manipula\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica). Tal processo culmina com o que Secco denomina de aggiornamento, que \u00e9 quando o partido, indiscutivelmente hegem\u00f4nico em tal ocasi\u00e3o na esquerda brasileira, \u201cquebra o tabu\u201d do financiamento das campanhas (aceitando dinheiro de empresas privadas), amplia a sua pol\u00edtica de alian\u00e7as, e, chegando ao poder central em 2003, na efetiva\u00e7\u00e3o de tal pol\u00edtica de alian\u00e7as (um desdobramento necess\u00e1rio da realiza\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica do governo), passa a realizar concess\u00f5es &#8211;\u00a0como se fosse o pre\u00e7o que escolhera para governar &#8211;\u00a0t\u00edpicas do submundo da pol\u00edtica brasileira [diferente de todo simplismo principista, e de toda hipocrisia e do controle da opini\u00e3o p\u00fablica burgueses, desenvolvo algumas linhas gerais desses problemas, vistos do ponto de vista concreto, no texto &#8216;A crise brasileira atual&#8217;, de abril deste ano; no \u00e2mbito maior da economia, vale aqui a observa\u00e7\u00e3o de Carlos Nelson que, ao n\u00e3o se furtar a considerar o abandono por reformas e a ado\u00e7\u00e3o de planos neoliberais pelos partidos social-democratas, n\u00e3o situa, por consequ\u00eancia, tais partidos no campo conservador, como parte da esquerda cr\u00edtica ao PT passou a situ\u00e1-lo &#8211;\u00a0\u201cRenunciar \u00e0s reformas e adotar paradigmas neoliberais tem sido, infelizmente, a alternativa da maioria dos partidos social-democratas\u201d. Por sua vez, o ju\u00edzo de Carlos Nelson sobre o governo Lula e o PT pode ser conferido em duas entrevistas concedidas por ele, uma em 2003, quando anuncia a sua sa\u00edda conjunta do partido (ele sai juntamente com Leandro Konder e Milton Temer), e outra em 2005, quando da \u201ccrise do mensal\u00e3o\u201d; se, por um lado, Coutinho se mostra assaz descontente e n\u00e3o hesita em caracterizar o governo Lula como neoliberal (talvez o analisando mais no atacado do que no varejo, al\u00e9m de falar do terceiro de uma sequ\u00eancia de treze anos de governos do PT), por outro, a cren\u00e7a de que a \u201cburguesia\u201d &#8211;\u00a0na figura do capital industrial e financeiro &#8211;\u00a0n\u00e3o patrocinaria um golpe por ela ter suas demandas plenamente acolhidas pelos governos petistas evaporou-se; ver: &#8216;Interven\u00e7\u00f5es: o marxismo na batalha das ideias&#8217;. SP: Cortez, 2006]. \u00c9 somente ao longo desse processo que \u201ca tese da democracia\u201d vai estar plenamente ajustada n\u00e3o apenas no PT, mas na coaliz\u00e3o de for\u00e7as origin\u00e1rias da esquerda que lhe dar\u00e1 sustenta\u00e7\u00e3o enquanto governo (embora com diferen\u00e7as, o PSOL n\u00e3o estaria inteiramente imune tamb\u00e9m das consequ\u00eancias de uma percep\u00e7\u00e3o fetichizada da democracia).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A mis\u00e9ria filos\u00f3fica dessa tese &#8211;\u00a0n\u00e3o adstrita ao Brasil, vale o registro &#8211;\u00a0consiste no seguinte: cada um \u201cpensa\u201d de uma forma, a cada dois anos defende \u201csuas ideias\u201d, e, ap\u00f3s a escolha popular (a \u201cfesta da democracia\u201d), o escolhido (o mais votado entre os \u201celeitores\u201d) realizar\u00e1 o mandato que as urnas lhe conferiram pelo tempo por elas designado. No contexto onde ela ir\u00e1 florescer tem-se que levar em conta a d\u00e9b\u00e2cle sovi\u00e9tica e a hipertrofia dos estados do leste europeu, assim como os 21 anos da ditadura militar inaugurados em 1\u00ba de abril de 1964 (principalmente com todos os traumas dos quais a resist\u00eancia aos militares proporcionou aos seus bravos combatentes; Dilma e o alto escal\u00e3o do governo deposto, por exemplo, s\u00e3o dessa gera\u00e7\u00e3o). Ou seja, no marco maior onde essa tese ir\u00e1 prosperar, ela encontrar\u00e1 esse terreno relativamente f\u00e9rtil para impor-se como um caminho cr\u00edvel [ainda que n\u00e3o se credite a membros do PT a defesa do socialismo, e sim, como se isso fosse poss\u00edvel, uma defesa de uma sociedade \u201cmais justa, mais humana\u201d por cima das determina\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas (portanto, uma defesa abstrata), intelectuais s\u00e9rios, como o citado fil\u00f3sofo Carlos Nelson (no texto de 1979), acreditava ser a \u201cdemocracia\u201d o caminho para chegar-se a esse patamar onde os antagonismos econ\u00f4micos fundacionais conheceriam o seu desfecho resolutivo &#8211;\u00a0\u201cTamb\u00e9m \u00e9 preciso afirmar que, tanto na fase de transi\u00e7\u00e3o para o socialismo quanto no socialismo realizado, continuam a ocorrer situa\u00e7\u00f5es que s\u00f3 a democracia pol\u00edtica ser\u00e1 capaz de resolver no sentido mais favor\u00e1vel ao enriquecimento do g\u00eanero humano\u201d (CNC); \u00eanfase minha].<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O 31 de agosto, por\u00e9m, acaba de derribar \u201ca esp\u00e9cie de cristal\u201d que o processo de redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds (p\u00f3s-1985) fez muita gente, credulamente, pensar tratar-se de algo sacramentado (via respeito \u00e0s leis, \u00e0s institui\u00e7\u00f5es, agora \u201cs\u00f3lidas\u201d, \u00e0 Carta Magna); a tese da democracia acaba de n\u00e3o resistir ao real, necess\u00e1rio e concreto teste hist\u00f3rico. Sua invalidade agora est\u00e1 devidamente comprovada, e quem a atesta n\u00e3o \u00e9 mais a teoria, mas sim a pr\u00f3pria pr\u00e1tica dos homens, que, em linha de sucess\u00e3o dos acontecimentos, tamb\u00e9m \u00e9 conhecida por hist\u00f3ria.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em><span style=\"color: #000000;\">Desfetichiza\u00e7\u00e3o da democracia<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Uma das provas retumbantes da fetichiza\u00e7\u00e3o da democracia no Brasil \u00e9 o quase lugar-comum por meio do qual passou-se a referenci\u00e1-la como uma \u201cjovem democracia\u201d. Como um ser dotado de vida (h\u00e1 v\u00e1rios fatos que impugnam uma defesa em sentido contr\u00e1rio, metaf\u00f3rico, por assim dizer), a democracia teria se tornado um bem supremo, para o qual todos, independentemente de suas respectivas condi\u00e7\u00f5es de classe, haveriam de reverenciar. Hoje, a \u201cjovem\u201d fora violada, inteiramente devassada por aqueles que deveriam vel\u00e1-la, afinal, quando empossados, juraram respeitar a Constitui\u00e7\u00e3o que acabaram de mandar pelos ares. Mas o que justifica essa ruptura? Seria um mero desejo de um grupo, ansiado em tomar para si o poder, a causa decisiva para a ruptura do suposto pacto democr\u00e1tico (de respeito \u00e0s leis da Rep\u00fablica)? Evidentemente que para cada caso concreto, s\u00f3 uma an\u00e1lise concreta correspondente poder\u00e1 fornecer as respostas que se procuram; n\u00e3o h\u00e1 aqui uma lei geral. No caso da atual derrubada da presidenta do Brasil, embora, como resguardado, os anseios pol\u00edticos pessoais tamb\u00e9m tenham concorrido para a consecu\u00e7\u00e3o do golpe de Estado, a economia foi o fator decisivo para essa cruzada de quase dois anos com o intuito de derrubar o governo, cujo desfecho se dera neste dia 31. Como analisado noutro lugar (&#8216;A crise brasileira atual&#8217;, R. C.), o que fez a FIESP e empres\u00e1rios brasileiros patrocinarem uma campanha pelo impeachment (mesmo sem crime de responsabilidade) &#8211;\u00a0via \u00f3rg\u00e3os de m\u00eddia Veja, Isto \u00c9, Estad\u00e3o, Folha, Organiza\u00e7\u00f5es Globo e outros meios &#8211;\u00a0e associarem-se a pol\u00edticos visceralmente ligados \u00e0s suas vis\u00f5es de economia foi fundamentalmente o diagn\u00f3stico comum sobre a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e tamb\u00e9m a converg\u00eancia sobre o \u201crem\u00e9dio\u201d para enfrent\u00e1-la. Dizendo de outra forma, a vis\u00e3o comum de que a diminui\u00e7\u00e3o da atividade econ\u00f4mica e o chamado \u201cdesequil\u00edbrio\u201d das contas p\u00fablicas s\u00e3o produto do \u201cdesperd\u00edcio\u201d do governo em pol\u00edticas sociais (\u201cn\u00e3o se pode gastar o que n\u00e3o se tem para gastar\u201d, esbravejam!), o rem\u00e9dio para tal crise seria um duro programa de austeridade (com cortes em programas \u201csem efic\u00e1cia\u201d, \u00e1reas sociais, privatiza\u00e7\u00f5es, concess\u00f5es, reforma previdenci\u00e1ria, revis\u00e3o constitucional dos repasses para sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o via \u201cNovo Regime Fiscal \u2013 PEC 241\/2016\u201d) e, para \u201crecuperar a confian\u00e7a dos investidores\u201d (essa cantilena mistificadora revestida de pura ret\u00f3rica e com quase nenhuma objetividade econ\u00f4mica), desoner\u00e1-los de obriga\u00e7\u00f5es trabalhistas e tribut\u00e1rias {o pr\u00f3prio Carlos Nelson, no texto mencionado, n\u00e3o se furta a apontar o que seria um limite para a implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas sociais no capitalismo (por parte da social-democracia): \u201cmas, por outro lado, conservada a l\u00f3gica da acumula\u00e7\u00e3o capitalista, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ampliar esse n\u00edvel de satisfa\u00e7\u00e3o [das demandas contempladas pelas pol\u00edticas sociais] para al\u00e9m do ponto em que tal amplia\u00e7\u00e3o, ao impor um aumento excessivo da tributa\u00e7\u00e3o e do d\u00e9ficit p\u00fablico, termine por bloquear a reprodu\u00e7\u00e3o do capital global\u201d [o par\u00e2metro \u00e9 a teoria marxiana do sal\u00e1rio]; \u00eanfase minha}. Numa palavra, um Estado enxuto (j\u00e1 que desprovido de receitas) e minimamente regulat\u00f3rio (nada de CLT; o negociado entre as partes prevalece). N\u00e3o ser\u00e1 aqui o lugar nem para aprofundar essas quest\u00f5es, nem sequer mencionar as reais causas da crise capitalista contempor\u00e2nea; real\u00e7a-se aqui, en passant, apenas o quadro que galvanizaria e encorajaria aqueles que deveriam guardar pudor e n\u00e3o violar a n\u00e3o mais jovem imaculada democracia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Diferente dessa vis\u00e3o fetichista da democracia, segundo a qual esta seria uma coisa suspensa no ar, ela nada mais seria do que a forma pol\u00edtica por meio da qual s\u00e3o \u201cadministrados\u201d os conflitos econ\u00f4micos consubstanciados (e derivados) na cl\u00e1ssica rela\u00e7\u00e3o burgu\u00eas e prolet\u00e1rios. A pol\u00edtica enquanto esfera particular da realidade ir\u00e1 expressar, de fato, o conflito entre patr\u00e3o e empregado existente (e fundacional) na sociedade civil; o objeto central da pol\u00edtica s\u00e3o as reais rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas. A rep\u00fablica democr\u00e1tica &#8211;\u00a0isto \u00e9, a forma por meio da qual os membros da sociedade (chamados agora de \u201celeitores\u201d) escolhem e d\u00e3o a chamada legitimidade aos ocupantes dos cargos, aos eleitos; o contraponto moderno ao arb\u00edtrio mon\u00e1rquico precedente &#8211;\u00a0nunca pode se sobrepor aos aspectos fundacionais da sociedade (a sua forma pol\u00edtica, democr\u00e1tica, n\u00e3o se superp\u00f5em), justamente porque os conflitos de interesses de classes desbordam o seu \u00e2mbito, isto \u00e9, eles a precedem-na, terminam por determinar-lhe. Noutras palavras, a situa\u00e7\u00e3o na economia vai determinar, antes e acima de tudo, at\u00e9 onde, digamos assim, se pode ir com a democracia; ou seja, n\u00e3o \u00e9 a democracia\/pol\u00edtica que imp\u00f5e indefinidamente at\u00e9 onde a economia pode ir, ao contr\u00e1rio, s\u00e3o os conflitos desta derivados que ir\u00e3o dar o tom &#8211;\u00a0dizendo melhor, estabelecer\u00e1 os limites &#8211;\u00a0da forma pol\u00edtica\/democr\u00e1tica. Quando tais conflitos se agudizam no seu \u00e2mago, e a ordem \u00e9 amea\u00e7ada ou pela subleva\u00e7\u00e3o, ou por reformas que almejem repartir a propriedade, ou pelas respostas insatisfat\u00f3rias a crises epid\u00eamicas de superprodu\u00e7\u00e3o, a classe cuja domina\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo posta em causa reage e pode lan\u00e7ar m\u00e3o ao recurso de rupturas, tal como nos mostra a hist\u00f3ria. No caso do golpe consumado no dia 31, que pode ser chamado de frio, as raz\u00f5es econ\u00f4micas foram acima arroladas; em 1964, cuja designa\u00e7\u00e3o quente n\u00e3o nos parece equ\u00edvoca, as motiva\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas compareceram igualmente em sua base; e assim por diante. De modo que, salvo as exce\u00e7\u00f5es inter-partid\u00e1rias, os conflitos que derivam da esfera econ\u00f4mica desautorizam qualquer apreens\u00e3o est\u00e1tica, inviol\u00e1vel, da democracia, como ali\u00e1s, uma vez mais, o dia 31 de agosto de 2016 brasileiro acaba de ratificar; isto \u00e9, tal tese n\u00e3o resiste \u00e0 prova da hist\u00f3ria.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Essa concep\u00e7\u00e3o idealizada de democracia n\u00e3o comporta o fato de que um burgu\u00eas no parlamento &#8211;\u00a0para sermos ilustrativos aqui &#8211;\u00a0ao tomar uma decis\u00e3o jamais pode tom\u00e1-la a favor de si sem que, simultaneamente, esta n\u00e3o seja em desfavor de algu\u00e9m. Isso \u00e9 nada mais do que a express\u00e3o do conflito fundacional da sociedade que aqui reaparece. Logo, tal forma democr\u00e1tica, determinada por tais rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, \u00e9 dotada de limites, j\u00e1 que, embora \u201celeito\u201d, uma decis\u00e3o do burgu\u00eas quase sempre \u00e9 tomada em seu benef\u00edcio (e de sua classe; vide flexibiliza\u00e7\u00e3o da CLT, terceiriza\u00e7\u00e3o, etc.), e este, n\u00e3o raro, n\u00e3o coincide, ao contr\u00e1rio, contradita, com os interesses dos demais membros da sociedade. Portanto, caso se conceba uma outra forma democr\u00e1tica (ver: CNC, supra), para que esta seja plena, \u00e9 pr\u00e9-requisito elidir-se os componentes fundacionais geradores do conflito econ\u00f4mico (isto \u00e9, dirigir as aten\u00e7\u00f5es para as \u201cdetermina\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas\u201d \u2013 supra), para que, sem eles, toda escolha da maioria seja tomada verdadeiramente em proveito de todos [a problem\u00e1tica da hipertrofia do estado sovi\u00e9tico e o seu processo de burocratiza\u00e7\u00e3o s\u00e3o discutidos, de uma perspectiva radicalmente concreta e sem abdica\u00e7\u00e3o do ponto de vista da totalidade, no texto de 1968, &#8216;O processo de democratiza\u00e7\u00e3o&#8217;, do fil\u00f3sofo h\u00fangaro Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs &#8211;\u00a0ver: &#8216;Socialismo e democratiza\u00e7\u00e3o: escritos pol\u00edticos 1956-1971.&#8217; RJ: Ed. UFRJ, 2008).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em><span style=\"color: #000000;\">Dial\u00e9tica versus democracia<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Se a democracia n\u00e3o \u00e9 auto-determinada, ao contr\u00e1rio, ela \u00e9 antes determinada pelas rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e, mais especificamente, pelos conflitos e contradi\u00e7\u00f5es desenvolvidos em seu \u00e2mbito, \u00e9 preciso ent\u00e3o dirigir as aten\u00e7\u00f5es (ou concentrar prioritariamente os esfor\u00e7os) para a \u00f3rbita dos problemas fundacionais. Se o movimento da hist\u00f3ria \u00e9 dial\u00e9tico, isto \u00e9, \u00e9 a luta de classes que faz a hist\u00f3ria andar para a frente, \u00e9 porque tais conflitos econ\u00f4micos podem ter um encaminhamento resolutivo independentemente da forma democr\u00e1tica, uma vez que, vale dizer, tais conflitos n\u00e3o s\u00e3o dela dependentes. O fato da resolu\u00e7\u00e3o desse problema poder ser efetuada &#8211;\u00a0de modo revolucion\u00e1rio, para ser mais expl\u00edcito &#8211;\u00a0sem ter que necessariamente concretizar-se pela media\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica n\u00e3o impugna o fato de que, face ao arb\u00edtrio, ao regime de for\u00e7a, de censura, priva\u00e7\u00e3o de liberdade, etc., a alternativa democr\u00e1tica parametrada nas leis burguesas seja qualitativamente superior. Entretanto, vista de modo fetichizado, ela nunca poder\u00e1 ser apreendida em suas reais dimens\u00f5es, em seus reais limites; se apreendida de modo integral, ver-se-\u00e1 que, por n\u00e3o se auto-determinar, ela jamais pode ser fim, mas, principalmente diante da disjuntiva aludida, pode ser apenas meio (a proposta de Luk\u00e1cs contida no texto &#8216;A ditadura democr\u00e1tica&#8217;, por n\u00e3o desvincular de sua an\u00e1lise os aspectos fundacionais da sociedade, isto \u00e9, n\u00e3o padecer duma vis\u00e3o fetichizada da democracia, \u00e9 um bom exemplo de intera\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica nessa rela\u00e7\u00e3o entre meio e fim).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u00c9 verdade que as caracteriza\u00e7\u00f5es do pensador italiano, Antonio Gramsci, em que ele distingue as sociedades de tipo ocidental das de tipo oriental, sendo o crit\u00e9rio distintivo delas a \u201camplia\u00e7\u00e3o\u201d do Estado vigente nas primeiras e ausente nas segundas, exerceram (e continuam exercendo) forte influ\u00eancia na esquerda mundial, a brasileira inclusa (para as primeiras, a estrat\u00e9gia do movimento socialista deveria pautar-se pela chamada guerra de posi\u00e7\u00f5es, j\u00e1 para as segundas a estrat\u00e9gia continuaria sendo o \u201cassalto revolucion\u00e1rio\u201d via guerra de movimento). As sociedades de tipo ocidental (como a brasileira, segundo Carlos Nelson), por terem produzido em seu interior o que o pensador sardo vai chamar de \u201caparelhos \u2018privados\u2019 de hegemonia\u201d (sujeitos pol\u00edticos coletivos), antes de fazer valer o recurso da coer\u00e7\u00e3o, precisariam, via sujeitos pol\u00edticos, lan\u00e7ar m\u00e3o do recurso do consenso, a ser obtido mediante hegemonia resultante da busca de legitima\u00e7\u00e3o [nada como o processo de deposi\u00e7\u00e3o consumado em dia 31 de agosto de 2016 para atestar as falhas dessa tese (a artificialidade do consenso forjado via grosseira manipula\u00e7\u00e3o\/campanha midi\u00e1tica). Na sua Para uma ontologia do ser social II, n\u00e3o abdicando-se das inter-rela\u00e7\u00f5es dos complexos sociais (como a ideologia, a aliena\u00e7\u00e3o, etc.), Luk\u00e1cs nos parece fornecer uma an\u00e1lise que n\u00e3o apenas d\u00e1 conta do fen\u00f4meno para o qual Gramsci busca abarcar, mas nos oferece, pelo que foi dito (embora por outra via), uma resolu\u00e7\u00e3o\/indica\u00e7\u00e3o muito mais fundada na real processualidade do processo (\u201cunidade de for\u00e7a expl\u00edcita e for\u00e7a disfar\u00e7ada, revestidas com as vestes da lei\u201d \u2013 Luk\u00e1cs, op. cit.)]. Mas o fato \u00e9 que respostas como \u201ca democracia por um fio\u201d, ou \u201cesse processo mostra que \u00e9 preciso estarmos de vig\u00edlia com a democracia\u201d, n\u00e3o d\u00e3o conta do problema porque n\u00e3o foi da \u201cdemocracia\u201d (auto-determinada) que partiu as motiva\u00e7\u00f5es para o farsante impeachment (ainda que determinadas intrigas e disputas tivessem seu peso relativo), mas sim, fundamentalmente, dos conflitos emanados da esfera econ\u00f4mica da sociedade. E \u00e9 exatamente esse o desafio que ser\u00e1 posto para o conjunto da esquerda brasileira, j\u00e1 que todo o campo oposicionista hoje far\u00e1 oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 esquerda ao governo que se estabelece mediante um golpe. A democracia, mesmo com a hist\u00f3ria (pelo golpe) desautorizando, vai continuar a ser a pedra angular e o Sant\u00edssimo Sacramento da esquerda brasileira, ou vai esta, haurindo a situa\u00e7\u00e3o e tirando-lhe as li\u00e7\u00f5es, perceber os limites desse caminho e estabelecer no horizonte, de modo priorit\u00e1rio (embora, sem sectarismo, fundada em cada e na real situa\u00e7\u00e3o concreta), o definitivo equacionamento dos antagonismos fundacionais da sociedade brasileira? Ainda que muitas das quest\u00f5es postas pelo segundo caminho n\u00e3o encontrem respostas a priori, tal fato n\u00e3o lhe inviabiliza, visto que, como provam-no a Fran\u00e7a de 1871 (Comuna) e a R\u00fassia de 1905\/17 (soviets), muitas das respostas estavam por vir, brotam da processualidade do processo, sendo condi\u00e7\u00e3o para o seu surgimento, portanto, o pr\u00e9vio desdobramento do mesmo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>{<\/strong> <em>Blog da Boitempo<\/em> <strong>}<\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dilma \u00e9 derrubada. Cai tamb\u00e9m a tese da democracia por Rog\u00e9rio Castro O dia 31 de agosto do ano de 2016 acaba de entrar para os anais dos importantes acontecimentos da hist\u00f3ria nacional por conta da condena\u00e7\u00e3o &#8211;\u00a0sem provas &#8211;\u00a0da presidente da Rep\u00fablica Federativa do Brasil, Dilma Rousseff, n\u00e3o sup\u00e9rfluo o registro, reeleita pelo voto [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3258,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[115],"tags":[],"class_list":["post-10063","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-redoble"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10063","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=10063"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10063\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10438,"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10063\/revisions\/10438"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/3258"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=10063"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=10063"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aluzerna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=10063"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}