{"id":7163,"date":"2016-06-11T18:54:00","date_gmt":"2016-06-11T22:54:00","guid":{"rendered":"http:\/\/aluzerna.com.br\/?p=7163"},"modified":"2016-06-11T18:54:00","modified_gmt":"2016-06-11T22:54:00","slug":"o-oscar-e-o-dragao-da-ingenuidade","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/aluzerna.com.br\/?p=7163","title":{"rendered":"O Oscar e o Drag\u00e3o da Ingenuidade"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-7165\" src=\"http:\/\/aluzerna.com.br\/wp-content\/uploads\/11-06-2016e.jpg\" alt=\"11-06-2016e\" width=\"335\" height=\"373\" srcset=\"http:\/\/aluzerna.com.br\/wp-content\/uploads\/11-06-2016e.jpg 335w, http:\/\/aluzerna.com.br\/wp-content\/uploads\/11-06-2016e-269x300.jpg 269w\" sizes=\"auto, (max-width: 335px) 100vw, 335px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Pessoas paravam em frente \u00e0 TV naquele dia, afinal, outro longa nacional disputava 4 &#8216;estatuetas&#8217;, como dizem familiarizados os cr\u00edticos de arte. Tiravam o patriotismo da gaveta cheia de naftalinas, e entre uma zapeada e outra com o Big Brother, torciam j\u00e1 imaginando a Ilha de Caras com todo o elenco do filme na semana seguinte. Isso era o m\u00e1ximo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Doming\u00e3o. O pai havia conclu\u00eddo a leitura do dominical, e por isso atualizado das coisas do mundo; ass\u00edduo do caderno de cultura, tinha um gosto ecl\u00e9tico que ia de Paulinho Moska a\u00a0Maria Rita, \u00e0s vezes uma Fernanda Porto ca\u00eda bem&#8230; Noutro canto da casa, a m\u00e3e descansava lendo a auto-ajuda mais recente, deixando solit\u00e1ria a TV que reprisava o &#8216;Saia Justa&#8217;, no dia da brilhante discuss\u00e3o sobre a mulher do s\u00e9culo XXI ocupando o mercado de trabalho; nos est\u00fadios, a veem\u00eancia liter\u00e1ria da escritora p\u00f3s-moderna, a jornalista bem-sucedida e a Rainha do Rock. Progesterona acima de tudo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">&#8211;\u00a0&#8220;Vou conferir o Big Brother, acho que o Paulo Maur\u00edcio est\u00e1 apaixonado pela Duda Luciana, a pagodeira&#8221;&#8230; Pensava apreensiva a m\u00e3e.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O ca\u00e7ula, de 14 anos, moleque da era da inform\u00e1tica, n\u00e3o perdia tempo. Indignado com a caretice dos pais profissionais liberais, sabia preencher bem o seu dia: mp3, salas de bate-papo, RPGs&#8230; Falando em mp3, ele tinha tudo o que somente pouqu\u00edssimos dispunham mundo afora &#8211; arquivos piratas de shows de bandas do Pa\u00eds de Gales num obscuro pub indicado por aquele seman\u00e1rio londrino, sim, essas haviam sido as \u00faltimas aquisi\u00e7\u00f5es. Depois, cabia vestir a camisa de alguma banda desconhecida, costeletas protuberantes, aziago facial e alter-ego. Esse moleque promete, \u00e9 um g\u00eanio! Ah, o petulante adorava trocar farpas com a irm\u00e3, esta que rebelde igual a uma das tias, acabara de chegar da Austr\u00e1lia, ap\u00f3s 6 meses de interc\u00e2mbio cultural com a l\u00edngua inglesa: sa\u00edra para um show de Punk Rock, CPM 22!<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Para aqueles dias, uma fam\u00edlia privilegiada e consciente dos problemas do planeta. De home theater ligado, Coca Light &#8211; j\u00e1 que no dia seguinte o escrit\u00f3rio falaria alto &#8211; e patriotismo mofado, o pai e a m\u00e3e comentavam cada estrela hollywoodiana presente.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">&#8211; &#8220;O que voc\u00ea achou do vestido da Liza Minelli?&#8221;. Indagou o pai.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">&#8211; &#8220;Amei, \u00e9 do Yves Saint-Laurent, s\u00f3 que o Armani da Zeta Jones caiu como uma luva&#8221;, retrucava a companheira.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Enquanto o adolescente trocava arquivos com uns amigos virtuais, salvo engano can\u00e7\u00f5es dos grupos nova-iorquinos da obrigatoriamente falsa e despenteada safra, a decep\u00e7\u00e3o chegava sutil na sala-de-estar. O pai ro\u00eda as unhas, a m\u00e3e j\u00e1 n\u00e3o prestava tanta aten\u00e7\u00e3o em modelos e penteados; duas estatuetas perdidas at\u00e9 o momento, o cora\u00e7\u00e3o palpitava. O x da quest\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">&#8211; Esse filme \u00e9 t\u00e3o bom, por que sequer ganhamos a &#8220;Melhor Edi\u00e7\u00e3o?&#8221;, angustiava-se o chefe da casa.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Tempos depois, talvez uma hora, luto nacional nesse lar, doce lar. De novo, o caneco n\u00e3o era nosso. Premiados somente com os bocejos para o dia seguinte, claro, disfar\u00e7ados das vistas dos clientes, o pai juntava mentalmente os cacos da festa de entrega do Oscar:<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">&#8211; &#8220;N\u00e3o devia ficar preocupado com essas coisas. Hoje, apesar da crise econ\u00f4mica, o Brasil est\u00e1 em crescimento, governado por um oper\u00e1rio, o Fome Zero est\u00e1 em pleno vapor, e nem a CPI do Waldomiro Diniz sair\u00e1. Posso me orgulhar do pa\u00eds em que moro, democr\u00e1tico, cheio de grana emprestada pelo \u00faltimo acordo com o FMI&#8221;, encorajava-se.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O celular tocou. Com o cora\u00e7\u00e3o repleto do orgulho de ser brasileiro, o pai partiu tranquilo e sem parar nos sem\u00e1foros, com seu carro de blindagem israelense foi ao encontro da filha rebelde. Ela o aguardava em frente \u00e0 casa de espet\u00e1culos onde recebera boas doses de pura rebeldia; aquela m\u00fasica de protesto e conscientizadora, cavanhaques da moda, tudo garantia que a gera\u00e7\u00e3o a seguir ganharia o Oscar, perpetuaria novos governos de esquerda, manteria o recorde de produ\u00e7\u00e3o da soja transg\u00eanica, e se bobeasse, a internacionaliza\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia. \u201cSe Deus quiser\u201d, pensou ele, que continuava &#8220;seria muito progresso, muita ambi\u00e7\u00e3o; metade disso j\u00e1 seria o suficiente&#8221;. Ou o Brasil e o petr\u00f3leo n\u00e3o eram e sempre ser\u00e3o nossos?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"text-decoration: underline;\">por<\/span> <em>Ricardo S.<\/em><\/span><br \/>\n<span style=\"color: #000000;\"><span style=\"text-decoration: underline;\">Imagem<\/span>: <em>Reprodu\u00e7\u00e3o\/www<\/em><\/span><br \/>\n<span style=\"color: #000000;\">(<em>Publicado originalmente em 2004<\/em>)<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pessoas paravam em frente \u00e0 TV naquele dia, afinal, outro longa nacional disputava 4 &#8216;estatuetas&#8217;, como dizem familiarizados os cr\u00edticos de arte. 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